A investigação conduzida pela Polícia Federal envolvendo a Empresa Municipal de Habitação de Campos dos Goytacazes (EMHAB) ampliou a crise política no município do Norte Fluminense e passou a gerar forte pressão sobre a administração do prefeito Wladimir Garotinho. O caso ganhou novo peso após decisão do ministro Alexandre de Moraes mencionar supostos desvios de recursos públicos, influência política e manipulação de contratos dentro da estrutura da empresa pública municipal.
O documento integra a Petição 15.926, em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), e aponta que o então vereador e atualmente deputado estadual Thiago Rangel exerceria influência política junto à Prefeitura de Campos dos Goytacazes durante os anos de 2021 e 2022. Segundo a investigação reproduzida na decisão judicial, ele era aliado político do atual prefeito naquele período.

A repercussão política cresceu porque a investigação menciona que integrantes de uma suposta organização criminosa teriam utilizado a estrutura da EMHAB para favorecer contratos e movimentações financeiras consideradas suspeitas pela Polícia Federal.
Embora a decisão não apresente acusação formal contra o prefeito Wladimir Garotinho, o caso passou a levantar questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização interna da administração municipal e sobre a capacidade de controle da estrutura pública diante de movimentações consideradas atípicas.

O que é a EMHAB e por que a empresa é estratégica em Campos
A Empresa Municipal de Habitação de Campos dos Goytacazes atua em áreas consideradas sensíveis dentro da administração pública municipal. Entre suas atribuições estão programas de habitação popular, regularização fundiária, reassentamentos, urbanização e políticas sociais ligadas à moradia.
Na prática, a empresa administra contratos públicos, serviços terceirizados, compras e pagamentos ligados à política habitacional do município.
Funções estratégicas da EMHAB
| Área | Atuação |
|---|---|
| Habitação Popular | Projetos de moradia e programas sociais |
| Regularização Fundiária | Legalização de imóveis e terrenos |
| Urbanização | Obras e melhorias estruturais |
| Reassentamentos | Transferência de famílias em áreas de risco |
| Contratos Públicos | Gestão de serviços e fornecedores |

Em alguns casos, empresas públicas municipais possuem autonomia administrativa, mas continuam submetidas aos mecanismos de fiscalização da própria prefeitura, da procuradoria, da controladoria e dos órgãos externos de controle.
Em tese, contratos públicos desse porte passam por parecer jurídico, controle financeiro, fiscalização contratual e liquidação antes da autorização de pagamento.
Um dos pontos que mais repercutiu no município de Campos foi o trecho reproduzido na decisão judicial em que a Polícia Federal afirma que integrantes da organização criminosa teriam “saqueado os cofres” da empresa pública municipal.

Segundo a decisão, a investigação também aponta que Thiago Rangel teria indicado para a direção da EMHAB um aliado próximo, identificado como Fábio Pourbaix Azevedo.

De acordo com a apuração da PF, contratos teriam sido manipulados por meio de dispensas de licitação, favorecendo empresas ligadas ao grupo investigado. A investigação sustenta ainda que determinados serviços teriam sido executados apenas parcialmente enquanto parte dos recursos públicos era desviada para terceiros e empresas associadas ao esquema investigado.
Até o momento, contudo, não há sentença condenatória definitiva relacionada aos fatos mencionados no documento. Os citados têm direito à ampla defesa e ao contraditório, conforme prevê a Constituição Federal.
O avanço da investigação fez surgir uma pergunta que passou a dominar o debate político em Campos dos Goytacazes: se havia contratos, pagamentos, dispensas de licitação, empenhos e movimentações financeiras, como possíveis irregularidades não teriam sido identificadas previamente pelos mecanismos internos de fiscalização?
O caso pode indicar fragilidade administrativa e falhas de governança dentro da estrutura municipal, caso eventuais irregularidades sejam confirmadas ao longo do processo judicial.
Etapas normalmente exigidas em contratos públicos
| Procedimento | Objetivo |
|---|---|
| Parecer jurídico | Análise legal do contrato |
| Autorização administrativa | Aprovação da contratação |
| Fiscalização contratual | Verificação da execução |
| Liquidação | Conferência antes do pagamento |
| Controle financeiro | Acompanhamento das despesas |
Mesmo sem acusação formal direcionada ao prefeito no documento analisado, o caso produz desgaste político porque atinge diretamente a imagem administrativa da gestão municipal.
A decisão do STF também reproduz diálogos considerados graves pela Polícia Federal.
Em um dos trechos mencionados pela investigação, Thiago Rangel teria afirmado:
“Depois de 12 tiros no portão o recado está dado.”

Outro diálogo citado fala em “arquitetar” e “orquestrar” ações contra terceiros.
Segundo a Polícia Federal, as mensagens seriam indícios de intimidação e pressão contra desafetos.
A defesa dos investigados poderá contestar judicialmente o conteúdo e a interpretação das conversas reproduzidas no procedimento.
Em maio de 2026, o STF informou que Thiago Rangel deveria permanecer preso independentemente de deliberação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
Segundo a investigação da Polícia Federal, o deputado foi indiciado por suspeitas de:
| Crime investigado | Situação |
|---|---|
| Organização criminosa | Investigação |
| Lavagem de dinheiro | Investigação |
| Peculato | Investigação |
| Fraude em licitação | Investigação |
| Corrupção ativa | Investigação |
| Extorsão | Investigação |
Até o momento:
não há denúncia criminal formal contra Wladimir Garotinho nesse documento específico;
o prefeito não aparece formalmente como investigado na decisão analisada;
e todos os citados possuem direito à ampla defesa.
A reportagem mantém espaço aberto para manifestações da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, da direção da EMHAB e dos demais citados na investigação.
Caso haja posicionamento oficial, o conteúdo será atualizado.
A investigação da Polícia Federal recolocou a EMHAB no centro da crise política de Campos dos Goytacazes e ampliou o debate sobre governança, fiscalização e controle interno na administração pública municipal.
Mais do que a esfera criminal, o episódio passou a produzir forte impacto político porque levanta dúvidas sobre o funcionamento dos mecanismos de supervisão administrativa em uma das áreas mais sensíveis da prefeitura.
Nos bastidores políticos do município, a principal pergunta permanece sem resposta definitiva: se havia movimentações consideradas suspeitas dentro da estrutura da EMHAB, por que os mecanismos internos de controle não identificaram possíveis irregularidades antes do avanço da investigação federal?