Por Leonardo Sakamoto no Uol
A mentira reciclada, requentada e contada pelo senador Flávio Bolsonaro a embaixadores (de que as urnas eletrônicas brasileiras são passíveis de fraude) funcionou como um aviso. Ao usar o mesmíssimo roteiro que tornou seu pai inelegível, o primogênito mandou um recado cristalino ao bolsonarismo-raiz: é ele, e apenas ele, o herdeiro legítimo e a continuidade natural de Jair Messias.
O aceno antidemocrático vem em um momento difícil para a sua pré-candidatura. Pesam contra ele os R$ 61 milhões que pediu e recebeu do “irmão” Daniel Vorcaro, a sua digital no mais recente tarifaço imposto por Donald Trump aos produtos brasileiros, e, claro, os estilhaços incalculáveis do vídeo-bomba protagonizado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.
Acuado por escândalos e pela própria incompetência diante deles (as respostas que deu não convencem), Flávio precisava frisar que ele é digno dos votos do pai. Preguiçosamente, usou o mais velho dos truques da extrema direita. Ao tocar o berrante da fraude eleitoral imaginária, o senador busca mostrar ao rebanho quem é o capataz da fazenda do Seu Jair.
A mensagem subjacente ao teatro para embaixadores é óbvia. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos ou a própria Michelle podem até tentar vestir o figurino conservador, mas só ele, o 01, tem a disposição e a falta de pudor para levar adiante as ideias, as ações e os crimes que marcam a dinastia.
A matemática eleitoral explica a tática. Há um piso de cerca de 20% do eleitorado que compõe a ala mais fiel do bolsonarismo, o que inclui do pessoal que vota convicto em Jair por conta de sua visão de mundo até os semoventes que rezam para pneu. Sem herdar esse espólio cativo, nenhum nome da direita tem tração suficiente para fazer cócegas em Lula nas urnas. Flávio sabe que quem não radicaliza, perde o lugar na fila do pão da extrema direita.
Como já disse aqui anteontem, a declaração golpista não serve apenas para aglutinar o gado em torno de si. Ela já pavimenta a estrada do caos para o futuro. Ao plantar a semente da desconfiança sobre o sistema eleitoral, o senador prepara o terreno para que, caso o petista vença, a extrema direita tupiniquim e o governo Donald Trump tenham a narrativa pronta para não reconhecer o resultado da eleição brasileira. Daí, à intervenção estrangeira é um little jump.
A reunião de Flávio com os embaixadores mostrou aos seus que, se a urna não lhe der o poder, ele está mais do que disposto a tentar tomá-lo no grito, na fraude e na força. E isso provoca orgasmos em parte dos seus seguidores.
Claro que, consequentemente, afasta o voto dos independentes, para quem era destinada a campanha natimorta de que é um “Bolsonaro moderado”. Mas, neste momento, ele está mais preocupado em mostrar que ele e Jair são a mesma pessoa para se manter no jogo. Até porque, em última instância, o plano B é ganhar o Palácio do Planalto. O plano A, contudo, sempre foi manter as rédeas sobre a direita brasileira.