O presidente da Câmara, Hugo Motta, se queixou a pessoas próximas do que considera uma postura injusta do presidente Lula, justamente quando o Palácio do Planalto enfrenta dificuldades no Senado e trata o deputado como aliado para avançar propostas no Congresso.
O gesto que mais incomodou Motta foi um vídeo divulgado no começo de junho em que Lula declara apoio à reeleição do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB). Ele disputa uma vaga ao Senado com Nabor Wanderley (Republicanos), pai do presidente da Câmara.
Um aliado próximo de Motta afirma que o apoio de Lula a Veneziano era esperado pela relação entre os dois, mas diz que o deputado não recebeu aviso prévio sobre o vídeo e considerou ruim o momento da divulgação, antes mesmo do início do processo eleitoral. Motta criticou publicamente a peça e chamou o movimento de “desespero”.
“Deve ter esse desespero de quem está vendo a eleição. Ele (Veneziano) está enxergando o cenário na Paraíba de crescimento nosso. O governador está crescendo, está muito bem. O meu pai, na hora que começa a tracionar, ele (Veneziano) se desespera; se pega como o único bastião de sobrevivência o prestígio do presidente Lula”, disse Motta a jornalistas dias depois da publicação do vídeo.
Um governista que conversa com Motta reconhece a chateação, mas avalia que o incômodo pode ser contornado e não deve contaminar a relação institucional entre Planalto e Câmara. Um petista que atua na coordenação da pré-campanha de Lula afirma que ele e Nabor são aliados do presidente e devem ser valorizados durante a campanha, já que o pai do deputado está na chapa que terá apoio do petista na Paraíba.
Três interlocutores relatam que Motta usa a palavra “chateação” ao tratar da relação com o Planalto porque tem ajudado o Executivo a segurar pautas-bomba e a fazer tramitar matérias de interesse do governo. Um dos exemplos é o projeto de renegociação das dívidas rurais: Motta negocia pessoalmente com o governo uma saída que reduza o impacto nas contas públicas, mesmo contrariando a bancada ruralista.
Ele também reclama de não ser atendido em cargos federais e indicações ao Judiciário. No fim do ano passado, ele atuou como fiador da escolha de Gustavo Feliciano para o Ministério do Turismo, após a saída de Celso Sabino, mas neste ano viu Lula indicar o desembargador Sergio Torres Teixeira ao Tribunal Superior do Trabalho, enquanto defendia o nome da desembargadora Herminegilda Leite Machado, do TRT da 13ª Região, da Paraíba.
A aposta do Planalto em Motta ganhou peso com o afastamento entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Governistas citam como sinal positivo a condução da PEC que acaba com a jornada 6×1, aprovada na Câmara no fim de maio e agora parada no Senado, além do avanço da proposta de minerais críticos e da PEC da Segurança Pública.