Duas fotografias separadas por quase uma década resumem uma das trajetórias políticas mais complexas e impactantes do Estado do Rio de Janeiro. Na primeira, do final dos anos 1990, um abraço efusivo sob a bandeira do PDT selava a união entre o jovem radialista de Campos dos Goytacazes, Anthony Garotinho, e o ascendente deputado estadual da capital, Sérgio Cabral Filho. Na segunda, em 2006, lado a lado em uma coletiva do PMDB, os dois dividiam a mesa no momento de maior hegemonia de seu grupo político.

Por trás dos sorrisos das fotos, no entanto, construiu-se uma história de aliança estratégica, rompimento traumático e um confronto de bastidores que alteraria os rumos da política fluminense.
A união entre Garotinho e Sérgio Cabral começou a se desenhar nas eleições de 1998. Garotinho trazia a força do populismo do interior e do eleitorado evangélico, consolidada em seus mandatos como prefeito de Campos dos Goytacazes. Sérgio Cabral, então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), controlava a articulação política no Parlamento e possuía forte inserção na classe média e na capital.
Sob a legenda do PDT, de Leonel Brizola, a dupla percebeu a complementaridade de suas bases. Garotinho venceu a disputa para o Palácio Guanabara em 1998, e Cabral tornou-se o principal fiador de sua governabilidade na ALERJ. Durante a gestão de Garotinho (1999–2002), a relação entre o Executivo e o Legislativo operou em sintonia fina, viabilizando projetos marcas do governo, como o programa “Cheque Cidadão” e os Restaurantes Populares.
Em 2002, para disputar a Presidência da República, Garotinho renunciou ao mandato, lançando sua esposa, Rosinha Garotinho, ao Governo do Estado. A aliança permaneceu intacta. Rosinha foi eleita, e o grupo migrou para o PMDB (atual MDB).
Sérgio Cabral continuou exercendo papel central na articulação e foi escolhido pelo casal Garotinho como o candidato natural da base aliada para as eleições de 2006. As imagens do período mostram a engrenagem partidária trabalhando em conjunto: Garotinho e Rosinha transferiam o capital político do interior, enquanto Cabral construía o palanque na região metropolitana. Cabral venceu a eleição em outubro de 2006.
A aliança ruiu nos primeiros meses de 2007, assim que Sérgio Cabral tomou posse como governador. O rompimento ocorreu por três razões centrais:
Reorganização Orçamentária e Desmonte da Marca: Cabral iniciou uma reformulação no programa “Cheque Cidadão” e em ações sociais vinculadas à imagem do casal Garotinho, alterando nomes e estruturas administrativas sob a justificativa de ajuste fiscal.
Reconfiguração das Alianças Federais: Cabral buscou aproximação direta com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o PT no estado, nomeando Benedita da Silva para a Secretaria de Assistência Social. Essa movimentação isolou Garotinho, que mantinha tom crítico ao governo federal.
Disputa pelo Controle do Aparelho Estatal: O novo governador recusou-se a manter indicações políticas de Garotinho em secretarias chave e autarquias estaduais, assumindo o controle total das nomeações.
Garotinho e Rosinha foram a público classificar a atitude de Cabral como uma “traição política”. Em 2009, o desentendimento culminou na desfiliação de Garotinho do PMDB.
A partir de 2008, o confronto migrou para a esfera da denúncia. Garotinho criou o Blog do Garotinho, veículo que utilizou para publicar denúncias, fotos e documentos contendo acusações de irregularidades contra a gestão de Sérgio Cabral, seus secretários e empreiteiras contratadas pelo estado.
Durante quase uma década, o ex-governador atuou como um dos principais opositores de Cabral na imprensa e no meio político, protocolando representações no Ministério Público Federal (MPF), na Procuradoria-Geral da República (PGR) e no Tribunal de Contas da União (TCU).
A rivalidade histórica teve um capítulo decisivo em novembro de 2016. Em um intervalo de apenas 24 horas, ambos os ex-aliados foram presos em operações distintas da Polícia Federal:
16 de Novembro de 2016: Anthony Garotinho foi preso pela Polícia Federal no âmbito da Operação Chequinho, que apurava o uso de programas sociais para compra de votos em Campos dos Goytacazes.
17 de Novembro de 2016: Sérgio Cabral foi preso pela Polícia Federal na Operação Calicute, um desdobramento da Operação Lava Jato, acusado de liderar um esquema de cobrança de propinas em grandes obras públicas do Estado.
O desfecho de novembro de 2016 simbolizou o encerramento do ciclo político iniciado na década de 1990. A trajetória da dupla permanece como um dos estudos de caso mais proeminentes sobre a dinâmica de alianças, governabilidade e ruptura na história contemporânea do Rio de Janeiro.