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Editorial do Estadão aponta infiltração do PCC na cúpula da PM de SP

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Editorial do Estadão aponta infiltração do PCC na cúpula da PM de SP

Em Editorial, Estadão comenta a Operação Janus, do Ministério Público de São Paulo, que revelou suspeitas de ligação entre integrantes do alto comando da Polícia Militar paulista e operadores financeiros do Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação aponta possíveis conexões envolvendo pagamentos de propina e relações com integrantes da facção, colocando sob questionamento a presença do crime organizado dentro da estrutura de segurança pública. LEIA trechos.

A Operação Janus, deflagrada na terça-feira passada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), expôs como o Primeiro Comando da Capital (PCC) lava dinheiro e resolve suas querelas por meio dos chamados “tribunais do crime” […]

[…] Mensagens obtidas pelas autoridades indicam que um dos membros do PCC buscava dinheiro “para pagar a polícia”. Uma planilha típica do esquema de propina conhecido como “ticketagem” registra pagamento a um coronel identificado como “Patrício”. Um grupo de WhatsApp intitulado “Aniversário General”, com diálogos entre o PCC e a cúpula da PM paulista, sugere um convívio indecente, para dizer o mínimo, entre criminosos e agentes supostamente a serviço da lei.

Nenhum dos coronéis citados foi alvo direto desta fase da Operação Janus. É bom que se registre isso porque suspeita, apuração e condenação são coisas distintas num Estado de Direito, e este jornal não antecipa a culpa de ninguém. Mas também nunca houve espaço para ingenuidade nesta página. As suspeitas que recaem sobre os policiais militares, levantadas pelo MPSP, são gravíssimas.

Se organizações criminosas de contornos mafiosos como o PCC cresceram a ponto de disputar à bala território com o Estado brasileiro, é porque encontraram, ao longo do tempo, espaço dentro do próprio aparato estatal para prosperar. Não há outra explicação racional. E o preço da leniência ou da cumplicidade nunca foi baixo, assim como alta é a conta que recai sobre a sociedade: por mais bem formulada que seja, jamais haverá política de segurança pública que sobreviva a esse tipo de contaminação. Noutras palavras: pouco adianta reforçar efetivos, comprar equipamentos, criar varas judiciais especializadas ou aperfeiçoar leis de combate ao crime organizado se no topo da cadeia de comando das forças públicas houver quem venda seus serviços ao inimigo.

Um só oficial disposto a se associar ao PCC ou simplesmente fechar os olhos em troca de propina compromete o esforço de milhares de outros policiais que cumprem seu dever com honestidade e sob risco de sua própria vida. Ou seja, a corrupção policial é uma violência abominável contra o cidadão comum, mas também contra os próprios colegas do corrupto.

Faz tempo que o PCC deixou de ser uma quadrilha de assaltantes e traficantes de drogas escondida nos porões do sistema carcerário paulista. É uma organização mafiosa com sofisticação financeira, presença na economia formal, na política institucional e, como mostrou a Operação Janus, com capacidade para cooptar policiais nos escalões mais altos da segurança pública de São Paulo. Enfrentar essa ameaça exige, em primeiro lugar, que o Estado volte o seu olhar para dentro com a mesma disposição que emprega suas forças armadas contra o crime nas ruas – sobretudo nas periferias da capital paulista.

Por meio de nota, a PMSP afirmou ter participado da operação e reiterou seu compromisso com o combate ao crime organizado. É o mínimo. Espera-se, contudo, que a corporação demonstre, com transparência e rigor, que não hesitará em depurar seus próprios quadros, sobretudo em posições de comando. Espírito de corpo nessa hora é o mesmo que cumplicidade com o PCC.

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