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Em aviões antes da tragédia em Vinhedo, cenipa diz que Voepass mascarava falhas

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Em aviões antes da tragédia em Vinhedo, cenipa diz que Voepass mascarava falhas

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do voo 2283 da Voepass afirma que a companhia mascarava falhas técnicas em aviões para burlar prazos de segurança. O acidente matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, durante a rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). Com informações de g1.

O órgão da Força Aérea apontou que a prática escondia o “caráter crônico” dos defeitos e resultava “na operação de aeronaves em condições sabidamente degradadas, ultrapassando os limites temporais previstos nos regulamentos em vigor”. A conclusão aparece no documento que analisou fatores que contribuíram para a tragédia.

As normas da aviação permitem que uma aeronave voe temporariamente com determinados equipamentos inoperantes, desde que a falha conste na Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), documento que estabelece condições e prazos para reparo. No sistema de degelo das asas, por exemplo, o avião podia operar por até três dias seguidos com o defeito, mas não poderia decolar se houvesse previsão de gelo na rota.

O Cenipa identificou que a Voepass registrava o defeito na MEL e, quando o prazo para conserto terminava, anotava que o sistema havia voltado a funcionar sem que o reparo tivesse ocorrido. Com isso, o prazo recomeçava do zero; quando a falha surgia novamente em voos seguintes, a empresa tratava o problema como novo.

Falhas no degelo ficaram fora do diário de bordo

O piloto e coronel da reserva da Força Aérea Brasileira Enio Beal Jr., especialista na elaboração de MEL e com mais de 40 anos de atuação na aviação, afirmou que o relatório mostra descumprimento de regras existentes. “Eu vejo o relatório final como uma oportunidade. Manter a casa em ordem é simples, é de baixo custo e está ao alcance de qualquer operador. Basta registrar toda pane, sempre, e que as empresas tenham essa cultura justa de não punir quem anota”, disse.

No ATR 72-500 que caiu em Vinhedo, dez equipamentos lançados na lista de controle estavam dentro dos prazos de manutenção, mas um deles deveria ter impedido a decolagem. O para-brisa direito tinha um defeito registrado em 30 de julho de 2024, com prazo até o dia do acidente, mas a MEL proibia o voo com para-brisa quebrado em caso de previsão de chuva no destino, condição prevista para Guarulhos.

A investigação também apontou falta de anotações sobre o sistema de degelo, que falhou em viagens anteriores e no dia da queda, mas não entrou no diário de bordo. Sem esse registro, a falha não passava a integrar a lista de controle, o prazo de reparo não começava a contar e medidas como troca de aeronave ou desvio de rotas com gelo deixavam de ocorrer.

Em 2025, um ex-funcionário relatou que uma falha no sistema de degelo foi omitida do diário de bordo horas antes do voo; se constasse no registro, o avião não poderia seguir para Cascavel na manhã seguinte. Um áudio obtido pela EPTV também mostrou um funcionário da manutenção orientando um piloto a não registrar um problema para evitar a retirada da aeronave de operação. Para o Cenipa, “esse processo informal configurava uma forma de pressão sobre os PIC [pilotos], com o intuito de evitar o lançamento de discrepâncias que poderiam resultar na indisponibilidade prolongada da aeronave enquanto se efetuava a correção das falhas apontadas”.

O relatório concluiu ainda que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já conhecia problemas no sistema de degelo da Voepass antes do acidente. Entre 2022 e 2024, a agência emitiu dez notificações sobre falhas, realizou auditorias e inspeções e suspendeu aeronaves com risco de voo: 24 suspensões em 2023 e cinco em 2024. Em março de 2025, a Anac suspendeu as operações da Voepass; em junho, cassou definitivamente o certificado que autorizava a empresa a operar voos comerciais.

A Voepass afirmou, em nota, que a tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e certificada, com mais de 5 mil horas de voo, e que seus treinamentos e acompanhamentos de saúde estavam atualizados. A companhia declarou que sempre adotou padrões internacionais de segurança, disse colaborar com o Cenipa desde o início das apurações e afirmou que “segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário”.

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