O governo dos Estados Unidos deverá anunciar nos próximos dias sua decisão sobre a possível imposição de novas tarifas às importações brasileiras. A informação foi confirmada nesta quinta-feira (9) por Jamieson Greer, representante do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, que afirmou que as negociações entre Brasília e Washington continuam em andamento, mas reconheceu que ainda há diferenças significativas entre as posições dos dois países.
Segundo Greer, o governo americano precisa concluir o processo dentro do prazo estabelecido pela legislação dos Estados Unidos, que se encerra em 15 de julho.
“Tenho conversado com os brasileiros. Temos tentado negociar. Acho que ainda há uma distância considerável entre nós. Por isso, vocês verão uma decisão final sobre o Brasil muito em breve, porque temos um prazo legal até 15 de julho”, disse Greer durante entrevista à Fox Business Network.
A declaração reforça a expectativa de que a Casa Branca anuncie em poucos dias o desfecho da investigação comercial conduzida contra o Brasil.
Tarifa de 25% foi proposta por Trump
A atual disputa comercial teve início em 1º de junho, quando o presidente Donald Trump propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das mercadorias brasileiras exportadas para os Estados Unidos.
A proposta surgiu após a conclusão de uma investigação conduzida pelo governo americano, que apontou supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
Entre os temas analisados estão questões relacionadas ao combate ao desmatamento ilegal, à proteção da propriedade intelectual, ao funcionamento do Pix e a outros aspectos da política econômica e regulatória brasileira.
No dia seguinte ao anúncio da tarifa de 25%, Trump apresentou uma segunda medida comercial.
O governo americano propôs a cobrança adicional de 12,5% sobre produtos provenientes de 60 países, incluindo o Brasil, sob o argumento de falhas no enfrentamento ao trabalho forçado.
Apesar do endurecimento das medidas, ambas as propostas vieram acompanhadas de uma extensa lista de exceções para produtos considerados estratégicos para a economia americana, com o objetivo de evitar impactos mais severos sobre consumidores e empresas dos Estados Unidos.
Audiências públicas reuniram setor produtivo
Como parte do processo de investigação, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) iniciou, na segunda-feira (6), uma rodada de audiências públicas destinada a ouvir representantes dos setores afetados pelas medidas.
A participação foi aberta a empresas, associações, especialistas e demais interessados previamente inscritos.
Durante as audiências participaram representantes de segmentos como café, arroz, açúcar, etanol de milho, ferro-gusa, rochas ornamentais, madeira, papel, calçados, mel e propriedade intelectual.
Os depoimentos apresentados servirão de base para a decisão definitiva que deverá ser divulgada até a próxima semana.
Empresários alertam para prejuízos nos dois países
Representantes do setor produtivo americano e brasileiro defenderam durante as audiências a manutenção do comércio entre os dois países e alertaram para os impactos econômicos de uma eventual ampliação das tarifas.
O presidente da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), Abrão Neto, afirmou que a adoção das novas barreiras comerciais poderá gerar prejuízos tanto para o Brasil quanto para os Estados Unidos.
“A aplicação de novas tarifas seria prejudicial para ambas as economias, com impactos negativos para o setor produtivo e os consumidores dos Estados Unidos, além de perda de competitividade das exportações brasileiras para um mercado crucial”.
Segundo Neto, os dados mais recentes mostram uma redução da presença americana no comércio exterior brasileiro.
Nos cinco primeiros meses de 2026, a participação dos Estados Unidos nas transações comerciais do Brasil caiu para 11,2%, o menor percentual já registrado.
No mesmo período, as importações brasileiras de produtos americanos também recuaram 11%.
Para o dirigente da Amcham, novas tarifas podem acelerar esse movimento.
“Essas tendências sugerem que tarifas adicionais podem reduzir ainda mais a presença comercial e a influência econômica dos EUA em um dos maiores mercados emergentes do mundo, abrindo espaço para que concorrentes estrangeiros ampliem sua participação de mercado às custas das empresas americanas”, complementou.
Mercado considera tarifa praticamente inevitável
Apesar das negociações diplomáticas e da mobilização de empresas dos dois países, representantes do setor privado que participaram das audiências avaliam que a adoção de novas tarifas é praticamente inevitável.
A expectativa, entretanto, é que o governo americano ajuste o alcance da medida de acordo com os impactos que ela poderá produzir sobre a própria economia dos Estados Unidos.
Entre os principais argumentos apresentados está o risco de aumento da dependência americana de fornecedores chineses.
Empresários sustentam que o encarecimento de produtos brasileiros poderá obrigar indústrias dos Estados Unidos a recorrerem com maior intensidade à importação de matérias-primas e componentes produzidos na China.
Na avaliação dos participantes das audiências, esse efeito contraria um dos principais objetivos da política comercial adotada pelo governo Donald Trump, que busca reduzir a dependência da economia americana em relação aos produtos chineses.
Decisão será conhecida até 15 de julho
Com o encerramento das audiências públicas e a proximidade do prazo legal estabelecido pela legislação americana, a expectativa é de que a decisão definitiva seja anunciada nos próximos dias.
O resultado poderá definir não apenas a aplicação ou não das tarifas propostas, mas também a lista final de produtos que permanecerão isentos e o alcance das medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos em relação ao Brasil.
Enquanto isso, representantes dos governos e do setor privado continuam tentando reduzir as divergências para minimizar os impactos econômicos sobre as relações comerciais entre os dois países.