O governo de Donald Trump voltou a colocar a Doutrina Monroe no centro de sua política para as Américas. Mais de 200 anos depois de sua formulação, em 1823, o Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou na terça-feira (11) um vídeo de mais de cinco minutos que apresenta um fundamento “histórico” para a dominação de Washington no continente.
O apresentador é Kevin Marino Cabrera, embaixador dos Estados Unidos no Panamá, um político republicano de Miami escolhido por Trump para representar Washington em um dos pontos mais estratégicos da América Central.
A escolha de Cabrera não é um detalhe. Aos 35 anos, ele tem uma trajetória no Partido Republicano como cupincha de Trump e Marco Rubio. Desde que assumiu o posto, vem divulgando uma agenda que combina segurança regional, combate ao narcotráfico, contenção da influência de outras potências e fortalecimento da presença americana no Hemisfério Ocidental.
Cabrera apresenta a chamada “Doutrina Donroe” como uma transformação de um alerta às potências europeias em uma estrutura de domínio regional.
“Ao longo de dois séculos, a declaração de Monroe moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos e em áreas geopolíticas fundamentalmente distintas. O que começou como um alerta às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional — uma base que permanece, até hoje, a pedra angular da conduta americana no hemisfério”, diz.
A conclusão é ainda mais contundente: “o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”.
O vídeo também apresenta o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela como exemplo da aplicação contemporânea dessa política.
The Monroe Doctrine has shaped U.S. foreign policy for over two centuries. 🇺🇸
American dominance in the Western Hemisphere will never be questioned again. pic.twitter.com/hsoGS17gqV
— Department of State (@StateDept) August 11, 2026
Quem é Kevin Marino Cabrera
Cabrera é um cubano-americano de primeira geração e marido da deputada estadual da Flórida Demi Busatta. Foidiretor estadual da campanha de Trump no estado durante as eleições de 2020.
Trabalhou como lobista e operador político, passando por organizações e gabinetes de figuras como o ex-governador da Flórida Jeb Bush, o ex-deputado federal Carlos Curbelo e o juiz da Suprema Corte da Flórida John Couriel. Também trabalhou para a LIBRE Initiative, organização financiada pelo bilionário golpista Charles Koch.
Como comissário do Condado de Miami-Dade (uma espécie de vereador), patrocinou uma resolução aprovada para dar o nome de Donald Trump a uma rua. Logo depois, Trump anunciou a indicação para o cargo de embaixador dos EUA no Panamá.
“Poucos entendem a política latino-americana tão bem quanto Kevin”, falou.
Durante sua audiência de confirmação no Senado, em 25 de março, Cabrera foi questionado por parlamentares dos dois partidos sobre como pretendia exercer a função.
Um dos principais temas foi a declaração de Trump de que os Estados Unidos deveriam retomar o controle do Canal do Panamá, alegando razões de segurança nacional.
Cabrera respondeu que sua função seria “servir conforme a vontade do presidente” e repetiu a afirmação de Trump de que “todas as opções estão sobre a mesa”, inclusive as militares.
“O presidente Trump é nosso comandante em chefe, e eu apoio a ele e suas políticas”, declarou.
Durante sua audiência, ele destacou que o Panamá foi o primeiro país da América Central a aderir à gigantesca iniciativa chinesa de infraestrutura Belt and Road — e também o primeiro da região a deixar formalmente o projeto.
Para Cabrera, porém, a saída não significa necessariamente que a influência chinesa tenha desaparecido. “Os tentáculos da China provavelmente ainda estão presentes lá”, afirmou.
Ele citou especificamente a cidade de Colón, onde, segundo ele, a China forneceu equipamentos e recursos para sistemas de câmeras de segurança. “Você não sabe onde essas informações podem estar armazenadas, quem tem acesso a elas”, alegou.
Ao anunciar Cabrera, Trump destacou sua experiência com a política latino-americana e afirmou que ele faria um trabalho “fantástico” na defesa dos interesses americanos.
Um homem de Trump e Rubio
Em uma publicação no Instagram, o embaixador registrou sua participação, ao lado do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, no Comando Sul americano para o lançamento da coalizão contra cartéis.
Em outra publicação, aparece ao lado de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, agradecendo por uma reunião sobre a relação entre Washington e Cidade do Panamá. Ela representava um “avanço da visão do presidente Trump para uma América e um Hemisfério Ocidental mais seguros, mais fortes e mais prósperos.”
O Brasil é a maior economia e o maior território da América Latina e mantém uma política externa que busca preservar autonomia e independência diante das grandes potências.
Ao mesmo tempo, possui relações econômicas estratégicas com a China, principal parceiro comercial brasileiro, e participa dos BRICS, grupo que Washington observa com crescente atenção.
Uma política americana baseada na ideia de que o “domínio” dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental não pode ser questionado entra em choque com uma visão de América Latina como espaço de decisões soberanas independentes. O presidente Lula é alvo constante das agressões de Rubio, cujo governo fascista quer eleger Flávio Bolsonaro e não poupará esforços nesse sentido.
É uma ameaça militar e estratégica. A frase sobre o domínio americano “nunca mais” ser questionado é especialmente significativa. Kevin Marino Cabrera é mais do que a voz de um vídeo.
Ele é um dos pistoleiros de Trump para o Hemisfério Ocidental: um vereador republicano convertido em embaixador, alinhado ao imperialismo e envolvido em uma agenda que combina segurança, combate aos cartéis, disputa de influência com outras potências, chantagens e a reafirmação da primazia norte-americana no que considera seu quintal.