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Em Israel e inspirou novela, máfia enviou milhares de bebês brasileiros para adoção ilegal

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Em Israel e inspirou novela, máfia enviou milhares de bebês brasileiros para adoção ilegal

Muito antes de o tráfico de pessoas ganhar espaço no debate público brasileiro, uma organização criminosa especializada na venda de crianças operou durante anos retirando bebês do país para adoções ilegais no exterior. Tendo Israel como principal destino, a quadrilha movimentou milhões de dólares, destruiu famílias e deixou um rastro de vítimas que, décadas depois, ainda tentam reconstruir a própria identidade.

No centro desse esquema estava Arlete Honorina Vitor Hilú, conhecida como Arlete Hilú, traficante de bebês confessa que se tornou um dos nomes mais conhecidos desse tipo de crime no Brasil. Condenada em diferentes processos e presa diversas vezes, ela comandou uma rede que, segundo estimativas de investigadores e reportagens da época, levou cerca de 3 mil crianças brasileiras para Israel. Algumas investigações apontam que o número total de menores retirados ilegalmente do país por sua organização e por grupos associados pode ter alcançado 12 mil crianças.

O esquema ganhou força no início dos anos 1980, embora existam indícios de que Arlete já atuasse desde o fim da década de 1960. Aproveitando-se da pobreza extrema de muitas famílias brasileiras, a quadrilha obtinha bebês por diferentes métodos. Algumas mães eram convencidas de que seus filhos teriam uma vida melhor no exterior; outras eram enganadas com falsas promessas de adoção legal. Também houve casos de crianças sequestradas em maternidades ou retiradas das famílias mediante fraude.

Na época, o Brasil não possuía mecanismos eficientes de fiscalização das adoções internacionais. O tráfico de pessoas, como é definido atualmente, sequer existia na legislação brasileira. Essa lacuna jurídica permitiu que organizações criminosas explorassem brechas burocráticas para retirar crianças do país praticamente sem obstáculos.

As investigações mostraram que a quadrilha mantinha uma estrutura sofisticada. Cartórios emitiam registros falsificados, documentos de identidade eram adulterados, certidões de nascimento desapareciam e passaportes eram obtidos de maneira irregular. Reportagens publicadas ao longo dos anos levantaram suspeitas sobre a participação ou conivência de integrantes de cartórios, profissionais da saúde, advogados, funcionários públicos e até agentes da Polícia Federal, embora muitos desses episódios jamais tenham sido totalmente esclarecidos pela Justiça.

A atuação concentrava-se principalmente na região Sul do Brasil, especialmente no Paraná e em Santa Catarina. A escolha não era por acaso. Casais estrangeiros procuravam crianças brancas, de olhos claros e ascendência europeia, características mais comuns em áreas de forte imigração europeia. Segundo relatos da época, bebês com essas características eram considerados mais valiosos no mercado clandestino.

Arlete Hilú sempre tentou minimizar seus crimes. Em entrevistas concedidas anos depois, afirmou que apenas ajudava famílias e negou ter enriquecido com a atividade. Os valores conhecidos, porém, contam outra história. Reportagens da década de 1980 indicam que cada bebê era negociado por cifras entre US$ 8 mil e US$ 10 mil, enquanto famílias estrangeiras chegavam a desembolsar quantias ainda maiores para conseguir uma criança brasileira.

Israel tornou-se o principal destino dessa rede. Naquele período, havia enorme dificuldade para adoção de crianças no país, o que estimulou milhares de casais a buscar alternativas no exterior. Foi nesse cenário que intermediários brasileiros encontraram um mercado altamente lucrativo.

O volume de adoções foi tão elevado que hoje existe em Israel um movimento organizado por adultos que descobriram ter sido levados ilegalmente do Brasil quando eram bebês. Muitos aprenderam português, viajaram ao país diversas vezes e conseguiram localizar parte de suas famílias biológicas. Outros continuam procurando qualquer pista sobre sua origem.

Entre esses adotados está Lior Vilk, que conseguiu reencontrar parte da família paterna no Brasil após anos de investigação. Outra história conhecida é a de Chen Levy, adotada por uma família israelense ainda criança. Ela chegou a morar temporariamente no Brasil e aprendeu português na tentativa de localizar a mãe biológica, mas nunca conseguiu respostas definitivas.

Um dos episódios mais emblemáticos da atuação da quadrilha foi o caso Bruna Aparecida Vasconcelos. Em 1986, quando tinha apenas quatro meses de idade, Bruna foi sequestrada dentro de casa, em Curitiba, por uma falsa babá ligada ao grupo de Arlete Hilú. A bebê foi levada clandestinamente para o Paraguai e, de lá, embarcou para Israel, onde acabou adotada por uma família local e recebeu outro nome.

O caso mobilizou autoridades brasileiras e israelenses e transformou-se numa disputa internacional. A mãe da criança, Rosilda Gonçalves, nunca desistiu da busca pela filha. Após quase dois anos de batalha judicial, a Suprema Corte de Israel determinou que Bruna retornasse ao Brasil, numa decisão considerada histórica por reconhecer que a adoção havia ocorrido de forma ilegal.

Enquanto isso, Arlete Hilú continuava expandindo seus negócios. Depois de ser investigada pela Polícia Federal, passou a mudar constantemente de cidade para dificultar o trabalho das autoridades. Atuou no Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul e outros estados, utilizando pequenas cidades e cartórios menos fiscalizados para registrar crianças com documentos falsos.

Em abril de 1986, Arlete foi presa em Tel Aviv usando passaporte falso. As autoridades israelenses a acusavam de receber dinheiro pela entrega de bebês brasileiros a famílias locais. A prisão, porém, produziu uma reação inesperada: dezenas de casais israelenses beneficiados pelo esquema compareceram ao tribunal para defendê-la. Reportagens da época registraram que muitos a tratavam como uma heroína, argumentando que ela havia realizado o sonho de famílias que não conseguiam adotar crianças em Israel.

Meses depois, já de volta à América do Sul, Arlete foi novamente presa na Ponte da Amizade, entre Brasil e Paraguai. Com ela, policiais encontraram documentos falsificados, passaportes em branco, certidões de nascimento e autorizações fraudulentas de adoção. As apreensões ajudaram a comprovar a dimensão internacional da organização.

Apesar das condenações por falsidade ideológica, formação de quadrilha, retirada ilegal de menores do país e outros crimes, a legislação brasileira da época limitava a responsabilização dos envolvidos. O tráfico internacional de pessoas para adoção ilegal só passou a ter previsão específica no Código Penal em 2016, com a entrada em vigor da Lei nº 13.344.

Décadas depois, o caso continua produzindo consequências. Muitos processos permanecem sob segredo de Justiça, familiares ainda procuram crianças desaparecidas e brasileiros adotados no exterior seguem tentando reconstruir suas histórias.

Toda essa investigação jornalística também acabou influenciando a cultura brasileira. Reportagens como a série Órfãos do Brasil, publicada pelo Diário Catarinense, depoimentos de vítimas e casos reais de brasileiros levados para Israel serviram de material de pesquisa para Glória Perez. Embora Salve Jorge, exibida em 2013, tenha tratado principalmente do tráfico internacional de mulheres, a autora também utilizou informações sobre a rede de adoções ilegais e sobre brasileiros traficados para Israel durante a construção da novela.

Além disso, a protagonista Morena foi inspirada na história real de Ana Lúcia Furtado, brasileira traficada para Israel sob a falsa promessa de trabalhar como garçonete. Ao chegar ao país, ela teve os documentos confiscados, foi mantida em cárcere privado e obrigada a se prostituir em uma boate controlada por uma organização criminosa. Resgatada pela polícia israelense em 1998, Ana Lúcia colaborou diretamente com Glória Perez durante a elaboração da novela, transformando sua experiência em uma das principais referências da trama.

Assim, embora Salve Jorge tenha levado o tema ao horário nobre da televisão em 2013, a realidade foi ainda mais brutal do que a ficção. O esquema de tráfico de bebês e de mulheres que ligou Brasil e Israel durante décadas deixou milhares de vítimas e permanece como um dos capítulos mais sombrios da história do crime organizado no país.

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