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Lula reconquista as capitais. Por Miguel do Rosário

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Lula reconquista as capitais. Por Miguel do Rosário

Por Miguel do Rosário, publicado no Cafezinho

O dado mais impressionante da nova pesquisa BTG/Nexus é o crescimento de Lula nas capitais brasileiras. É justamente nas capitais que o presidente apresenta hoje seus melhores números fora dos recortes sociais tradicionalmente mais favoráveis ao campo progressista.

Esse movimento aparece simultaneamente na aprovação do governo, na intenção de voto e na própria identificação política dos eleitores.

A aprovação do trabalho de Lula chega a 55% nas capitais, contra 42% de desaprovação. Curiosamente, é o mesmo patamar que o presidente alcança na intenção de voto, já que vence Flávio Bolsonaro por 55% a 35% num eventual segundo turno nesse mesmo recorte.

No primeiro turno, a distância também é enorme. Lula marca 48% nas capitais, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com apenas 26%, uma vantagem de 22 pontos.

O contraste com o restante do país é forte. Nas regiões metropolitanas, Lula tem 41% contra 37% de Flávio no primeiro turno; no interior, o quadro se inverte, com 37% para Lula e 39% para Flávio.

No segundo turno, Lula ganha de 48% a 44% nas regiões metropolitanas, mas perde de 43% a 48% no interior.

A geografia eleitoral apresentada pela BTG/Nexus, portanto, é bastante nítida. Quanto mais se avança em direção às capitais, melhor é o desempenho de Lula; quanto mais se caminha para o interior, maior é a força relativa do bolsonarismo.

O movimento recente nas capitais também chama atenção. Na pesquisa de 3 de agosto, Lula tinha 49% contra 39% de Flávio num segundo turno entre os moradores das capitais; agora, uma semana depois, os números são 55% a 35%.

A distância entre os dois, que era de dez pontos, passou para vinte.

Na aprovação, o movimento ocorreu na mesma direção. Lula passou de 49% para 55% nas capitais, enquanto a desaprovação oscilou de 43% para 42%.

Essas variações precisam ser observadas com prudência, porque os recortes internos da pesquisa têm margens de erro superiores à margem geral de dois pontos. Ainda assim, a coincidência entre diferentes indicadores reforça a hipótese de uma mudança política real nas grandes cidades.

Uma estimativa ajuda a dimensionar o tamanho desse universo. O Brasil tem 158,7 milhões de eleitores aptos a votar em 2026 e, na amostra da BTG/Nexus, 26% dos entrevistados vivem nas capitais.

Se utilizarmos essa proporção apenas como uma aproximação do tamanho desse eleitorado, estamos falando de algo em torno de 41,3 milhões de eleitores.

Aplicando os percentuais da pesquisa a esse universo hipotético, os 48% de Lula no primeiro turno corresponderiam a cerca de 19,8 milhões de eleitores das capitais, e os 26% de Flávio representariam aproximadamente 10,7 milhões.

No segundo turno, os 55% de Lula equivaleriam a cerca de 22,7 milhões de eleitores, contra aproximadamente 14,4 milhões de Flávio Bolsonaro.

Não são projeções de votos efetivos em outubro. São apenas uma tradução dos percentuais da pesquisa para a dimensão do eleitorado, útil para compreender a escala política do fenômeno.

A classe média volta a olhar para Lula

O crescimento nas capitais é especialmente promissor para Lula porque sugere uma recuperação do diálogo com setores urbanos e de classe média que, durante os últimos anos, foram terreno fértil para o bolsonarismo.

Esse processo, aliás, não começou agora. Os números oficiais do TSE mostram que Lula já vinha reconquistando terreno nas grandes cidades entre 2018 e 2022.

No segundo turno de 2018, Fernando Haddad obteve 40,4% dos votos válidos nas 27 capitais somadas, incluindo o Distrito Federal. Foi um desempenho 4,5 pontos inferior aos 44,9% que o petista fez no país como um todo.

Quatro anos depois, no segundo turno de 2022, Lula alcançou 49,7% dos válidos nas mesmas capitais, contra uma média nacional de 50,9%. A distância em relação ao país, que era de 4,5 pontos, caiu para pouco mais de um, mesmo com o eleitorado das capitais tendo crescido no intervalo.

Se a BTG/Nexus estiver certa, esse eleitorado urbano estaria agora à frente da média nacional na preferência pelo presidente.

São Paulo, a maior cidade do país, ilustra bem a trajetória. Haddad teve 39,6% dos votos válidos na capital paulista no segundo turno de 2018, e Lula chegou a 53,5% no segundo turno de 2022, transformando uma derrota folgada em vitória.

No Rio de Janeiro, o segundo turno de 2018 foi ainda pior, com apenas 33,6% dos válidos para Haddad. Lula subiu para 47,3% em 2022 e viu uma desvantagem de quase 33 pontos encolher para cerca de cinco.

É um indicativo consistente do crescimento do lulismo na classe média brasileira. O mesmo fenômeno aparece na relação de Lula com a classe artística, que se distanciou dele durante o período da Lava Jato e voltou a abraçá-lo nos últimos anos.

A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 esteve profundamente associada ao ambiente das grandes cidades, à classe média urbana e à explosão de uma militância política organizada nas redes sociais.

Foi uma força social que não apenas votou em Bolsonaro. Ela produziu conteúdos, espalhou mensagens, ocupou grupos de WhatsApp, Facebook, YouTube e depois outras plataformas, convertendo apoio eleitoral em capacidade permanente de intervenção no debate público.

Por isso, uma mudança política nas capitais pode produzir efeitos que ultrapassam seu peso demográfico. Os habitantes das grandes cidades vivem no centro do sistema nacional de mídia, cultura e circulação de informações, e uma virada nesse ambiente tende a ter visibilidade e capacidade de propagação muito maiores do que uma simples alteração de alguns pontos numa tabela eleitoral.

Existe ainda uma hipótese política mais profunda. Parte da classe média brasileira parece finalmente se afastar do pesadelo sombrio em que mergulhou nos últimos anos, marcado pela adesão de setores relevantes a discursos autoritários, negacionistas e radicalmente reacionários.

O bolsonarismo talvez tenha forçado a barra. A radicalização antivacina é um exemplo recente.

Eduardo Bolsonaro, um dos principais cabos eleitorais do irmão mais velho nas redes, gravou um vídeo há poucos dias afirmando ter pago dez dólares por uma declaração juramentada que permite à filha frequentar uma escola no Texas sem cumprir as exigências de vacinação. Ele apresentou o episódio como exemplo positivo de liberdade dos pais diante das políticas públicas de imunização.

O problema é que o sarampo está voltando com força aos Estados Unidos. Até 6 de agosto, o país já havia registrado 2.465 casos confirmados em 2026, superando todo o total de 2025 e atingindo o maior nível em 35 anos.

O Texas já havia sido epicentro, em 2025, de um grande surto que terminou com 762 casos, 99 hospitalizações e a morte de duas crianças não vacinadas.

Marina Silva resumiu a dimensão política do problema ao classificar campanhas contra vacinação como um “crime de lesa-humanidade”. A expressão é politicamente dura, mas aponta para uma realidade elementar da saúde pública, a de que epidemias não respeitam fronteiras nacionais.

Uma pessoa infectada embarca num avião, cruza um continente e pode iniciar uma cadeia de transmissão em outro país. Campanhas contra vacinas, portanto, não produzem riscos apenas para as famílias que aderem a elas.

O ponto não é atribuir a esse episódio isolado o avanço de Lula nas capitais. É que toda essa radicalização bolsonarista, transformada numa guerra permanente contra a ciência e as instituições, foi afastando justamente o eleitor urbano mais instruído, que durante anos deu sustentação ao movimento.

Um bastião lulista nas capitais

Há outro número talvez ainda mais revelador. A BTG/Nexus constrói seis grupos de eleitores a partir da relação dos entrevistados com o antilulismo e o antibolsonarismo.

No conjunto do país, os chamados “lulistas convictos” representam 23% do eleitorado. Nas capitais, são 32%.

É o maior percentual de lulistas convictos entre as três categorias territoriais pesquisadas. Nas regiões metropolitanas, eles são 23%; no interior, apenas 20%.

Os bolsonaristas convictos fazem o caminho oposto. São 22% nas capitais, 28% nas regiões metropolitanas e 29% no interior.

Nas capitais brasileiras, portanto, a BTG/Nexus encontra dez pontos de vantagem dos lulistas convictos sobre os bolsonaristas convictos, 32% a 22%. Há ainda 10% classificados como “Lula como alternativa”, contra 8% que enxergam Bolsonaro como alternativa.

Somados apenas para dimensionar esses campos de identificação, e sem confundi-los com intenção de voto, os dois segmentos relacionados a Lula alcançam 42% nas capitais, enquanto os dois segmentos vinculados ao bolsonarismo chegam a 30%.

Em números absolutos, dentro do universo estimado de 41,3 milhões de eleitores das capitais, os lulistas convictos seriam cerca de 13,2 milhões de pessoas, contra 9,1 milhões de bolsonaristas convictos.

A diferença seria superior a quatro milhões de eleitores.

O avanço é recente. Em 27 de julho, apenas 23% dos moradores das capitais apareciam como lulistas convictos; em 3 de agosto, já eram 31%.

É uma variação muito grande para ser lida literalmente como migração de nove pontos em apenas duas semanas, sobretudo porque estamos tratando de subamostras. Mas, combinada aos números de voto e aprovação, ela merece atenção.

O que a pesquisa geral diz

Fora das capitais, a fotografia da BTG/Nexus é muito menos exuberante para Lula. No primeiro turno nacional, o presidente aparece com 40%, contra 35% de Flávio Bolsonaro, uma vantagem de cinco pontos.

No segundo turno, Lula marca 47% e Flávio 44%. Na rodada anterior, o confronto estava em 46% a 45%.

A vantagem numérica de Lula, portanto, passou de um para três pontos, mas a mudança está dentro da margem de erro e não deve ser apresentada como crescimento estatisticamente comprovado.

O mesmo vale para a aprovação, que oscilou de 47% para 46% no plano nacional, enquanto a desaprovação passou de 48% para 49%. Novamente, estamos falando de movimentos de apenas um ponto.

A leitura prudente é de estabilidade. O que torna a rodada interessante não é, portanto, uma grande mudança nacional, e sim a maneira extremamente desigual como os números se distribuem dentro do eleitorado.

Lula está muito forte nas capitais e continua vulnerável no interior.

A própria avaliação qualitativa do governo continua mais difícil. Apenas 34% classificam a administração como ótima ou boa, enquanto 44% a consideram ruim ou péssima.

Isso mostra que o presidente ainda tem bastante trabalho pela frente. A eleição está competitiva e a melhora em determinados grupos não elimina o fato de que quase metade dos entrevistados ainda desaprova seu trabalho.

BTG/Nexus segue entre as pesquisas menos favoráveis a Lula

Também é importante colocar a pesquisa em perspectiva. No confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, a BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira dá ao presidente vantagem de apenas três pontos, 47% a 44%, uma diferença menor que a encontrada em outros levantamentos nacionais recentes.

O Datafolha de julho colocou Lula com 48% e Flávio com 43%, vantagem de cinco pontos. A Genial/Quaest de agosto encontrou 44% contra 39%, também cinco pontos, e a AtlasIntel/Bloomberg de julho registrou 49,2% para Lula e 42,9% para Flávio, vantagem de 6,3 pontos.

Isso não significa que uma pesquisa esteja “certa” e outra “errada”. Os institutos utilizam metodologias, formas de abordagem, amostras e modelos de ponderação diferentes.

A Nexus realiza suas entrevistas por telefone. O Datafolha faz abordagem presencial em pontos de fluxo populacional, enquanto Quaest e AtlasIntel trabalham com metodologias próprias, e essas diferenças de método ajudam a explicar parte das variações entre os institutos.

Há também diferenças consideráveis de custo. A pesquisa BTG/Nexus custou R$ 164.888,89 para 2.001 entrevistas, aproximadamente R$ 82 por entrevistado.

O último Datafolha declarou custo de R$ 307.541,60 para 2.004 entrevistas, aproximadamente R$ 153 por entrevista. A Genial/Quaest custou R$ 433.255,92 para 2.004 entrevistas, cerca de R$ 216 por entrevistado, e a AtlasIntel/Bloomberg declarou R$ 80 mil para uma amostra de 5.021 pessoas, aproximadamente R$ 16 por entrevistado.

Esses valores também não podem ser comparados mecanicamente como se preço determinasse qualidade. Pesquisas podem ter custos muito diferentes em função do método de coleta, tamanho e complexidade do questionário, estrutura de campo e outros fatores.

Eles ajudam, contudo, a dimensionar as diferenças operacionais entre os levantamentos que estão moldando a leitura pública da eleição presidencial.

O enorme eleitorado não polarizado

O outro grande dado da pesquisa BTG/Nexus está fora das duas torcidas organizadas. Os chamados não polarizados representam agora 23% da amostra nacional, contra 20% na rodada de 3 de agosto.

Segundo a definição da Nexus, trata-se do grupo que não se engaja nem com o antilulismo nem com o antibolsonarismo. Não é necessariamente o eleitor de centro ou de terceira via, mas alguém cuja identidade política não está estruturada pela rejeição a Lula ou à família Bolsonaro.

Aplicados aos 158,7 milhões de eleitores brasileiros, os 23% representam aproximadamente 36,5 milhões de pessoas. É um contingente gigantesco.

No primeiro turno, Lula aparece com 35% entre esses não polarizados, contra 28% de Flávio Bolsonaro. Convertidos apenas para uma escala aproximada, seriam 12,8 milhões de eleitores inclinados a Lula, contra 10,2 milhões para Flávio.

No segundo turno, a vantagem de Lula cresce. O presidente marca 45%, Flávio Bolsonaro tem 38%, enquanto 16% dizem votar branco ou nulo e 1% não responde.

Nesse universo teórico de 36,5 milhões de não polarizados, Lula teria aproximadamente 16,4 milhões, contra 13,9 milhões de Flávio, e brancos e nulos representariam cerca de 5,8 milhões.

Se fossem considerados somente os votos dados aos dois candidatos, Lula teria aproximadamente 54,2% dos votos válidos desse segmento, contra 45,8% para Flávio.

Mais interessante ainda é a série histórica, que mostra um eleitorado em ziguezague. Lula liderou entre os não polarizados na maior parte do ano, sofreu uma queda forte em meados de julho, quando Flávio chegou a abrir 45% a 32%, e desde então se recuperou até os atuais 45% a 38%.

Esse eleitorado continua sendo extremamente móvel. A própria pesquisa mostra que, entre os não polarizados que já escolheram algum candidato, 60% afirmam que a decisão está tomada, enquanto 37% admitem que ainda podem mudar de voto.

É um grau de volatilidade muito maior do que o observado entre lulistas e bolsonaristas convictos. Esse talvez seja o verdadeiro campo de batalha da eleição.

Lula não precisa transformar bolsonaristas convictos em lulistas, e Flávio tampouco depende de converter a base mais fiel do presidente. A eleição pode ser decidida justamente pelas dezenas de milhões de brasileiros que não organizam sua identidade política em torno de nenhum dos dois polos.

Vale um registro metodológico. A BTG/Nexus não cruza, no relatório divulgado, a aprovação do governo com o grupo dos não polarizados, de modo que sabemos como eles votam, mas não qual é a aprovação de Lula dentro desse segmento.

A reconquista das cidades

Vista em conjunto, a pesquisa não descreve uma arrancada nacional de Lula. Ela mostra algo talvez mais interessante, uma recomposição territorial e social do eleitorado.

O presidente continua enfrentando dificuldades no interior e em segmentos importantes do eleitorado. Mas começa a apresentar, nas capitais, uma força política que não aparece na média nacional.

São 55% de aprovação, 48% no primeiro turno, 55% no segundo turno e 32% de lulistas convictos. Quatro indicadores diferentes apontando na mesma direção.

Se esse movimento se confirmar nas próximas pesquisas, poderemos estar diante de uma das mudanças mais importantes da eleição de 2026, a reconquista das grandes cidades pelo campo lulista.

O bolsonarismo nasceu como um fenômeno de enorme potência urbana e digital. Foi nas grandes cidades que encontrou parte importante da classe média que lhe ofereceu dinheiro, influência social, produção de conteúdo e capacidade de multiplicação política.

Perder terreno nesse espaço pode custar mais do que votos. Pode significar perder capacidade de produzir influência digital.

Numa eleição que será disputada tanto nas urnas quanto no gigantesco sistema de comunicação formado pelas redes sociais, aplicativos de mensagem e produção digital descentralizada, a geografia da opinião pública importa muito.

A pesquisa BTG/Nexus ainda mostra uma eleição aberta. Mas mostra também que, no coração das grandes cidades brasileiras, Lula voltou a ocupar um espaço que durante muitos anos pareceu escapar de suas mãos.

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