O governo brasileiro informou que pelo menos 43 empresas e associações comerciais dos Estados Unidos se manifestaram oficialmente contra a aplicação de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. Os posicionamentos foram apresentados durante a investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que pode resultar na cobrança de uma tarifa extra de 25% sobre parte das exportações brasileiras.
As manifestações foram reunidas pelo Ministério das Relações Exteriores e encaminhadas ao governo dos EUA como parte da resposta oficial do Brasil à investigação aberta pela administração do presidente Donald Trump.
Segundo o documento, assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, as próprias entidades estadunidenses sustentam que diversos produtos brasileiros não possuem substitutos produzidos em quantidade suficiente no mercado interno dos Estados Unidos. Além disso, alertam que a eventual taxação aumentaria os custos para consumidores dos EUA e para empresas que utilizam matérias-primas brasileiras em suas cadeias de produção.
Até a última atualização da reportagem, o Itamaraty não havia informado quais empresas participaram da mobilização nem quais produtos foram contemplados nos pedidos de exclusão das tarifas.
Empresas defendem manutenção do comércio
Na resposta enviada ao USTR, o governo brasileiro utiliza os posicionamentos das empresas dos EUA para rebater as conclusões da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos.
O processo foi aberto sob a alegação de que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com empresas dos EUA. Caso a proposta avance, parte dos produtos brasileiros poderá ser submetida a uma tarifa adicional de 25% ao entrar no mercado estadunidense.
Para o governo brasileiro, entretanto, os próprios argumentos apresentados pelo setor produtivo dos Estados Unidos demonstram que a medida poderá causar prejuízos à economia estadunidense.
As entidades destacam que muitos produtos importados do Brasil são insumos essenciais para indústrias locais e que sua substituição seria difícil ou economicamente inviável, o que pode resultar em aumento dos custos de produção e repasse de preços ao consumidor final.
Audiências reuniram representantes de diversos setores
As manifestações ocorreram durante a fase de audiências públicas aberta pelo USTR na segunda-feira (6). O procedimento permite que empresas, entidades de classe, especialistas e representantes de governos apresentem argumentos antes da decisão definitiva sobre a aplicação das tarifas.
Participaram das audiências representantes de setores ligados à produção de café, arroz, açúcar, etanol de milho, ferro-gusa, rochas ornamentais, madeira, papel, calçados, mel e propriedade intelectual, entre outros segmentos da economia.
As contribuições apresentadas servirão de base para a análise final do governo dos EUA sobre o alcance da eventual medida.
Amcham alerta para prejuízos aos dois países
Durante as discussões, o presidente da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), Abrão Neto, afirmou que a adoção de novas tarifas prejudicaria tanto o Brasil quanto os Estados Unidos.
“A aplicação de novas tarifas seria prejudicial para ambas as economias, com impactos negativos para o setor produtivo e os consumidores dos Estados Unidos, além de perda de competitividade das exportações brasileiras para um mercado crucial”.
Segundo ele, os dados mais recentes mostram uma redução da participação estadunidense no comércio exterior brasileiro.
Neto destacou que os Estados Unidos responderam por apenas 11,2% do comércio total do Brasil nos cinco primeiros meses de 2026, o menor percentual já registrado. No mesmo período, as importações brasileiras de produtos estadunidenses recuaram 11%.
Para o dirigente da Amcham, a imposição de novas barreiras comerciais poderá acelerar esse movimento.
“Essas tendências sugerem que tarifas adicionais podem reduzir ainda mais a presença comercial e a influência econômica dos EUA em um dos maiores mercados emergentes do mundo, abrindo espaço para que concorrentes estrangeiros ampliem sua participação de mercado às custas das empresas americanas”, complementou.
Empresas avaliam que tarifa é provável
Apesar da mobilização de empresários e entidades, representantes de empresas que participaram das audiências avaliam que a adoção de novas tarifas é considerada praticamente inevitável.
A expectativa, no entanto, é que o governo dos EUA reduza o alcance da medida ou amplie a lista de exceções, levando em consideração os impactos que a taxação poderá causar sobre a própria economia dos Estados Unidos.
Um dos principais argumentos apresentados durante as discussões é que o encarecimento dos produtos brasileiros poderá aumentar a dependência das cadeias produtivas estadunidenses de fornecedores chineses.
Na avaliação dos participantes, esse efeito iria na direção oposta da estratégia comercial adotada pelo governo Donald Trump, que busca reduzir a dependência econômica em relação à China.
Entenda a investigação aberta pelos Estados Unidos
A investigação conduzida pelo USTR concluiu que o Brasil adota práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA e recomendou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras.
A medida ainda depende da conclusão das consultas públicas e das etapas previstas na legislação dos Estados Unidos antes de entrar em vigor.
No relatório elaborado pelo órgão, o governo dos Estados Unidos afirma que o Brasil mantém práticas que “oneram ou restringem” empresas estadunidenses em diferentes áreas.
Entre os pontos citados estão o funcionamento do Pix, decisões judiciais relacionadas às redes sociais, acordos comerciais firmados pelo Brasil com outros países, falhas no combate ao desmatamento ilegal, barreiras impostas ao etanol dos EUA, questões ligadas à proteção da propriedade intelectual e supostas deficiências no combate à corrupção.
Lista de exceções pode reduzir impacto
Embora tenha proposto a criação de uma tarifa de 25%, o governo dos EUA incluiu uma relação de produtos considerados estratégicos que poderão permanecer isentos da medida.
Entre eles estão café, determinados tipos de carnes, frutas, fertilizantes, medicamentos, aeronaves e peças aeronáuticas, além de minerais estratégicos utilizados pela indústria dos EUA.
A expectativa é que o processo de consultas seja concluído até 15 de julho, quando o governo dos Estados Unidos deverá anunciar sua decisão final sobre a implementação das novas tarifas e definir quais produtos efetivamente serão atingidos.