O partido Chega, da ultradireita de Portugal, transformou a comunidade cigana em alvo recorrente de seu discurso xenófobo, enquanto lideranças ciganas relatam aumento de ofensas em espaços públicos e na internet com a popularidade de André Ventura.
A reação apareceu no Dia Nacional da Pessoa Cigana, comemorado em 24 de junho no bairro de Padre Cruz, em Lisboa, uma região conhecida por ruas com nomes de rios portugueses e por abrigar uma das comunidades ciganas mais tradicionais da cidade, com cerca de 500 pessoas.
O DJ Jorge Syllvah foi a principal atração da celebração, com repertório que mistura música luso-flamenca, rumba e pop. Ele tem 52 mil seguidores no YouTube, número próximo da estimativa de cerca de 60 mil pessoas ciganas em Portugal. “Em Portugal não é fácil ser cigano, há muito racismo e preconceito”, disse Syllvah. “A música, uma linguagem universal, é um jeito de nos integrar à sociedade.”
A bailarina e professora de flamenco Claudia Pargana também se apresentou no evento. Ela dá aulas de música e dança cigana em cinco escolas da rede pública de Lisboa. “Com a arte mostramos a força da nossa criatividade, e os mais jovens tomam contato com nossa cultura desde pequenos”, afirmou.
Associações ciganas recorrem à Justiça contra o Chega
André Ventura ataca povos ciganos desde a fundação do Chega, em 2019, e costuma acusá-los de viver à custa do Estado português por meio da expressão “subsidiodependência”. Bruno Oliveira, líder da Associação Intercultural Cigana, diz que a retórica ampliou a discriminação cotidiana: “O discurso da extrema direita tirou do armário os que tinham preconceito contra os ciganos. Hoje sentimos a discriminação em lugares públicos, como restaurantes, e também na internet”.
A atriz e ativista Maria Gil, referência no movimento feminista português, contesta a ideia de privilégio em moradias populares e afirma que a comunidade sofreu deslocamento urbano. “O que ocorreu, na verdade, é que fomos expulsos do centro para a periferia das cidades”, disse. “Meus avós viviam na região central da cidade do Porto e eram integrados e respeitados no bairro. Hoje muitos de nós vivem confinados em guetos”.
A socióloga Maria Manuela Mendes, pesquisadora da Universidade de Lisboa, calcula que existam de duas a três dezenas de associações de povos ciganos em Portugal. Uma decisão judicial recente obrigou o Chega a retirar cartazes da última campanha presidencial com a foto de Ventura e a frase “os ciganos têm que cumprir a lei”. A juíza Ana Barão sustentou que “a frase foi pensada para causar um específico impacto relativamente a um grupo social”.
Ricardo Sá Fernandes, advogado que representou as associações ciganas no processo, disse ao Diário de Notícias que a decisão teve efeito pedagógico: “Espero que ninguém mais afixe cartazes discriminatórios e vexatórios para qualquer comunidade, como exige a defesa da dignidade de todos”. Bruno Gonçalves, presidente da associação Letras Nômadas, afirma que “nossa estratégia de luta é usar sempre as armas da democracia” e lembra que povos ciganos estão em Portugal há mais de 500 anos, com presença registrada na peça “Farsa das Ciganas”, de Gil Vicente.
Mendes coordenou em 2014 o único estudo acadêmico aprofundado sobre comunidades ciganas no país e lidera uma nova pesquisa prevista para 2027. Ela estima pelo menos 60 mil ciganos em Portugal, embora o censo nacional não inclua etnia nos questionários. Programas europeus de integração ampliaram o acesso a bolsas de estudo, e já surgem integrantes dessas comunidades com mestrado e doutorado em universidades portuguesas.
As lideranças temem que o avanço da ultradireita limite esses ganhos. Maria Gil, que já concorreu à Câmara Municipal do Porto, aponta a baixa presença institucional como obstáculo: “Temos atividade política nas organizações, mas pouca presença dentro dos partidos, à direita e à esquerda. Precisamos dessa participação porque, quando André Ventura começou a pregar o anticiganismo, ficou claro que tínhamos entrado numa guerra”.