As imagens de milhares de pessoas tentando alcançar a nado o enclave espanhol de Ceuta, no Norte da África, evocam uma das fotografias mais dolorosas das crises de refugiados no Mediterrâneo, a do menino sírio Alan Kurdi, de três anos, encontrado sem vida em uma praia da Turquia, em 2015. Naquele momento, líderes mundiais prometeram que a comoção produziria mudanças. Onze anos depois, o mar entre a Europa, a África e Ásia continua sendo uma vala comum alimentada pela desigualdade, pela ganância, pelas guerras, pela emergência climática e pela indiferença.
Ao menos 19 pessoas morreram na atual tentativa de entrada em Ceuta. Nos últimos dias, milhares haviam contornado a nado o quebra-mar que separa Marrocos e Espanha. E milhares de pessoas estenderam-se pelas estradas do país para chegar ao local e tentar a sorte.
Há famílias, crianças e mulheres, mas são principalmente homens jovens, integrantes de uma geração Z que não vê futuro ou oportunidades na Marrocos na qual nasceram. Quando alguém nessa idade prefere enfrentar o risco a permanecer em casa, o problema não é uma suposta vocação para a ilegalidade. É a falta de alternativas.
Não se abandona a família, atravessa-se um país e rifa-se a própria vida porque apareceu um vídeo em um grupo de mensagens do zap. As redes sociais podem avisar que uma passagem está aberta, mas não criam o desespero ou o desalento que empurra alguém para dentro da água. Isso é fermentado durante anos.
O governo marroquino reserva bilhões para estádios e obras relacionadas à Copa do Mundo de 2030, que o país sediará com Espanha e Portugal, enquanto saúde, educação, habitação e emprego permanecem insuficientes. Bairros são removidos para dar passagem à infraestrutura dos grandes eventos, tal como acontece em outros lugares do mundo, inclusive aqui.
Não surpreende que a gen Z marroquina tenha saído às ruas cobrando serviços básicos e oportunidades nos últimos tempos. Nem que parte dela, diante da repressão e da ausência de perspectivas, passe a enxergar a Europa do outro lado do mar como a única porta de saída.
Há também famílias empurradas para fora de suas terras pela seca que castiga há anos as regiões mais pobres do Marrocos. Sem água, trabalho ou meios de subsistência, migram primeiro para as cidades e depois para o norte. A emergência climática não aparece na fronteira usando uniforme, mas está presente em cada lavoura perdida, em cada comunidade esvaziada e em cada pessoa obrigada a partir.
Misturam-se a esse fluxo argelinos, tunisianos, sudaneses, entre outros, marcados por guerras, instabilidade e disputas pelo controle do poder e dos recursos naturais. A Europa gosta de consumir matérias-primas africanas, mas demonstra bem menos entusiasmo quando chegam as pessoas expulsas pelos conflitos e pela miséria associados a essa exploração.
Onde governos fecham caminhos regulares, redes clandestinas abrem atalhos. Contrabandistas de gente cobram para transportar ou prometer travessias. Quanto mais impossível se torna migrar legalmente, mais lucrativo fica o mercado. Criminalizar quem atravessa sem enfrentar a indústria que lucra com o fechamento das fronteiras é enxugar o mar com uma toalha.
A decisão recente da Suprema Corte espanhola, impedindo a devolução sumária daqueles que são interceptados no mar ao tentar chegar a nado a Ceuta e Melilla, espalhou-se rapidamente pelas redes como incentivo. Mas transformar a sentença na causa da crise é conveniente. A corte não concedeu um prêmio a quem nada, apenas afirmou que o Estado precisa respeitar procedimentos, analisar cada situação e garantir direitos previstos em lei.
Direitos humanos não criam refugiados. Guerras, fome, desigualdade, perseguição, desemprego e colapso ambiental criam.
E antes de reforçar controles, mobilizar policiais e bloquear estradas, as forças de segurança do Marrocos assistiram com passividade à movimentação. Não é possível afirmar sem provas que Rabat tenha liberado deliberadamente a passagem no começo, mas a inação inicial alimenta a suspeita de que seres humanos estejam sendo tratados como válvula de escape social ou instrumento de pressão diplomática.
Quando finalmente reagiram, as autoridades impediram jovens de se dirigir à fronteira. Primeiro deixam o desespero correr, depois reprimem os desesperados. Em nenhum dos dois momentos enfrentam as causas que colocaram milhares de pessoas na estrada.
A crise tampouco é apenas espanhola. Ceuta pode estar recebendo os migrantes agora, mas eles foram produzidos por uma ordem internacional que concentra riqueza, tolera ditaduras úteis, financia guerras, explora recursos naturais e fracassa no combate à mudança climática. Depois, quando as vítimas dessa engrenagem batem à porta dos países ricos, são chamadas de invasoras.
Isso sem contar que a própria existência de enclaves como Ceuta, um resquício colonial, é extremamente questionável.
A extrema direita pedirá soldados, muros mais altos, deportações instantâneas e punições coletivas. Ou seja, tacape. Soluções simples, violentas e televisivas dão votos, mas não impedem ninguém de tentar novamente quando ficar significa não ter futuro. Uma cerca que adentra o mar pode deter uma pessoa por uma noite. Não consegue impedir indefinidamente milhões de pessoas sem esperança.
A resposta imediata precisa incluir resgate, acolhimento, identificação, proteção de crianças e acesso ao pedido de asilo. A resposta duradoura exige rotas legais de migração, cooperação internacional, adaptação à seca, geração de emprego, investimento em educação, saúde e habitação e apoio às comunidades de origem. Recursos internacionais não podem servir apenas para terceirizar a repressão das fronteiras a governos autoritários. Precisam melhorar a vida de quem hoje acredita não ter nada a perder.
Milhares de seres humanos nadando em direção à Espanha não constituem apenas uma crise migratória. O fracasso não está em quem entrou no mar em busca de futuro. Está no mundo que tornou o mar a única alternativa.