Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Preferido entre o eleitorado feminino, Lula salvou o lançamento de sua candidatura de uma situação constrangedora hoje, em São Paulo. O presidente deu uma bronca na organização do evento ao vivo devido à ausência de discursos de mulheres no palco. E concedeu a palavra à primeira-dama Janja, que falou sobre as mulheres trabalhadoras, que fazem marmita, limpam a casa, chegam em casa às 22h.
As ex-ministras Marina Silva e Simone Tebet, candidatas ao Senado por São Paulo, deram entrevista no esquenta do evento, que também contou com falas da deputada federal Benedita da Silva e da presidente em exercício do PCdoB, Nádia Campeão. Mas nenhuma delas falou no palco, no qual discursaram o presidente do PT, Edinho Silva, o ex-ministro Fernando Haddad e o vice Geraldo Alckmin. Isso é simbólico e, portanto, fundamental.
A justificativa de que o evento seria curto não é válida. Primeiro, porque ele precisa espelhar aquilo que o seu projeto de país propõe. Segundo, porque o evento não foi curto.
Depois de Janja, Lula dedicou parte de sua fala à defesa dos direitos das mulheres e criticou a violência doméstica. Disse que quem bate em mulher não precisa votar nele.
Lula ‘quebra protocolo’ e convida Janja para discursar em convenção nacional do PT https://t.co/ZVb255qFQk #eleição2026 #g1 pic.twitter.com/YvdKjpTcvU
— g1 (@g1) August 2, 2026
Ontem, a convenção que lançou o governador Tarcísio de Freitas à reeleição, em São Paulo, tentou convencer o eleitorado de que o bolsonarismo respeita as mulheres. Flávio Bolsonaro enfrenta uma rejeição muito maior que a de Lula entre o público feminino, o que o vídeo-bomba de Michelle, dizendo que havia sido humilhada e maltratada por ele, só piorou. Apesar dos elogios às mulheres, não houve discurso feminino no palco do evento.
Vale lembrar que, no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, a sua esposa, Fernanda, discursou.
Lula, ao perceber a ausência de mulheres no palco, chamou a primeira-dama. Foi esperto, mostrou que a preocupação está presente. Não tanto quanto precisaria, claro, pois o Brasil ainda espera a indicação de uma negra para o STF (que hoje só tem uma mulher entre dez ministros) ou um equilíbrio melhor no Poder Executivo, com o aumento do número de ministras na Esplanada.
O gesto de hoje diz muito sobre o cálculo eleitoral de 2026: o voto feminino vai ser decisivo, e os dois lados sabem disso.
Lula, em cima da hora e em reação a uma cobrança dele mesmo, corrigiu o rumo do próprio evento. Numa campanha em que a disputa pelo voto feminino promete ser um dos eixos centrais, o improviso do petista rendeu recortes em vídeo e manteve sua vantagem em relação ao campo adversário.