Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Às vezes, na política, os maiores presentes não vêm dos seus aliados, mas do cálculo desastrado dos seus adversários. Lula recebeu dois embrulhos com laço de fita azul vindo direto de Washington e de Buenos Aires. Ao tentarem criar um cordão de isolamento contra o governo brasileiro e empurrar a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, Donald Trump e Javier Milei acabaram entregando ao presidente ganhos políticos.
Trump sacou do bolso o tarifaço sobre os produtos brasileiros, usando o protecionismo norte-americano não apenas como ferramenta econômica, mas como uma tentativa escancarada de interferir nos rumos da eleição presidencial brasileira e dar fôlego ao herdeiro do bolsonarismo. Na mesma frequência, Milei aproveitou os holofotes do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro para subir o tom, disparar ataques diretos a Lula e inflamar a retórica ideológica do bloco da ultradireita sul-americana.
Do ponto de vista da mobilização de bolhas digitais, a tática funcionou perfeitamente. A torcida organizada radical do bolsonarismo vibrou nas redes sociais, comemorando as estocadas contra o Palácio do Planalto como se fossem gols em final de campeonato. O problema é que eleição não se vence apenas fazendo a militância gozar. Para vencer um pleito no Brasil, é preciso conversar com quem decide a disputa fora das bolhas de algoritmos.
Ao transformar a disputa política em um ataque direto aos interesses nacionais, Trump e Milei conseguiram assustar o eleitor independente, o fiel da balança em eleições ultrapolarizadas. Aquele cidadão que não carrega a bandeira do PT, também não veste a camisa do bolsonarismo e não tem paciência para guerras culturais.
Esse eleitor pragmático, que decide a eleição na reta final, quer saber de coisas muito mais concretas: se a conta do supermercado vai diminuir, se a inflação vai dar trégua e se o seu posto de trabalho continuará garantido ao fim do mês. Ele busca previsibilidade e candidatos moderados que ajudem a proteger quem rala diariamente para colocar comida na mesa.
Quando Trump ameaça cortar empregos no Brasil, o trabalhador não enxerga uma “vitória da liberdade global”, mas sim o risco iminente de demissão no chão de fábrica e de queda na renda da sua família. Da mesma forma, quando Milei aposta no caos, o eleitor do centro percebe que a instabilidade da economia argentina pode contagiar o comércio, colocando em risco postos de trabalho por aqui.
No fim das contas, a dobradinha entre o norte-americano e o argentino prestou um serviço a Lula. Ao associarem a candidatura de Flávio Bolsonaro a medidas que prejudicam a produção nacional e ameaçam o bolso do trabalhador, Trump e Milei conseguiram empurrar o eleitor moderado para um pouco mais longe da oposição.
Lula sai no lucro porque seu adversário decidiu mostrar ao país que, para agradar a uma torcida radical, está dispostos a bater palma para quem joga contra o próprio Brasil. Flávio pode até perder a eleição com esse tipo de comportamento, mas manterá o controle da direita. O que seu pai deseja tanto quanto a própria liberdade.