A deputada argentina Marcela Pagano, do bloco Coerência, apresentou nesta quinta-feira um pedido de impeachment contra o presidente Javier Milei, acusando-o de “mau desempenho” no exercício do cargo em razão da crise diplomática provocada por seus ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante uma visita ao Brasil.
A iniciativa foi protocolada na Câmara dos Deputados da Argentina e tem como base o artigo 53 da Constituição argentina, que prevê o julgamento político do presidente por mau desempenho de suas funções.
Segundo Pagano, os episódios ocorridos durante a viagem de Milei a São Paulo, em 25 de julho, representam o ponto culminante de uma sequência de condutas que colocaram em risco os interesses diplomáticos e econômicos da Argentina.
“Venho promover o julgamento político contra o presidente da Nação, Javier Gerardo Milei, pela causa de mau desempenho prevista no artigo 53 da Constituição Nacional“, afirma a parlamentar no texto apresentado ao Congresso.
Quatro acusações contra Milei
No pedido de impeachment, Marcela Pagano sustenta que Milei cometeu quatro infrações principais:
- dano deliberado às relações exteriores da Argentina;
- interferência no processo eleitoral de outro país, ao apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro no Brasil;
- colocação em risco dos interesses econômicos e produtivos argentinos;
- comportamento incompatível com a dignidade do cargo de presidente.
A crise teve início após Milei participar de um ato político em São Paulo em apoio a Flávio Bolsonaro, quando chamou Lula de “ladrão” e “presidiário”. O presidente argentino também atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro Alexandre de Moraes, a quem chamou de “careca lixo”.
Comparto con ustedes mi pedido de Juicio Político a @javiermilei por el mal desempeño de la función en el manejo de las relaciones diplomáticas con nuestro país hermano. Inmiscuyéndose en cuestiones internas de otro Estado e insultando a su primer mandatario. Espero que los… pic.twitter.com/dPELA95HLW
— Marcela Pagano (@Marcelampagano) July 30, 2026
Crise diplomática com o Brasil
A deputada destacou que a reação do governo brasileiro foi imediata. O Itamaraty convocou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, enquanto o embaixador argentino em Brasília foi chamado para prestar esclarecimentos.
Segundo Pagano, a convocação de um embaixador para consultas representa uma das medidas diplomáticas mais severas antes da redução formal das relações entre dois países.
Ela afirmou que esse tipo de medida não era adotado pelo Brasil contra a Argentina havia décadas.
“Não foi um episódio isolado”
No documento, a parlamentar argumenta que os ataques não foram um fato isolado, mas fazem parte de uma política deliberada de confrontação com o governo brasileiro.
“Ladrón”, “presidiario” y “basura”. Todo eso dijo Milei sobre Lula en un acto partidario por Flavio Bolsonaro.
Insulta como militante, pero compromete al país como presidente.
El costo de sus provocaciones no lo paga Milei, lo paga la Argentina. pic.twitter.com/E4Hux9vwJT— César Biondini (@BiondiniCesar) July 25, 2026
Ela cita os insultos anteriores de Milei contra Lula e a ausência sistemática de encontros bilaterais entre os dois presidentes como evidências de uma deterioração contínua das relações diplomáticas.
Argumento constitucional
Ao justificar o pedido de impeachment, Pagano afirma que a Constituição não pune opiniões, mas atos praticados pelo presidente que prejudiquem o Estado argentino.
Segundo ela, insultar o chefe de Estado do principal parceiro comercial da Argentina em território brasileiro compromete décadas de política externa construída entre os dois países.
“A República não julga opiniões; julga condutas. Agredir, na condição de presidente da Argentina e em território estrangeiro, o chefe de Estado de um país com o qual mantemos mais de quarenta anos de política de integração é exatamente o tipo de comportamento para o qual os constituintes criaram o artigo 53”, concluiu a deputada.