As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai provocaram uma crise diplomática entre Brasília e Assunção. O governo do presidente Santiago Peña decidiu convocar o embaixador brasileiro no Paraguai, José Antonio Marcondes de Carvalho, para entregar uma nota de repúdio às falas feitas por Lula durante um evento realizado na última sexta-feira (24), em Jacareí (SP).
O anúncio foi feito pelo ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, que classificou o episódio como “lamentável”, mas ressaltou que a parceria entre os dois países permanece sólida em áreas como comércio, integração regional, investimentos e segurança.
A controvérsia começou quando Lula, ao defender o fortalecimento das Forças Armadas brasileiras diante dos conflitos internacionais, afirmou que “o Paraguai decidiu invadir o Brasil” ao citar a guerra travada entre os dois países no século XIX.
Declaração repercutiu em Assunção
A fala do presidente brasileiro rapidamente gerou reações no Paraguai, onde a Guerra da Tríplice Aliança continua sendo um dos episódios mais sensíveis da história nacional.
Durante entrevista coletiva, o chanceler Rubén Ramírez Lezcano afirmou que o governo de Santiago Peña defenderá os interesses paraguaios em todas as esferas, mas fez questão de destacar que o episódio não compromete a ampla agenda bilateral existente entre os dois países.
Segundo ele, Brasil e Paraguai seguem mantendo diálogo permanente em temas como comércio, infraestrutura, investimentos, integração física e cooperação na segurança regional.
Críticas de governo e oposição
A repercussão negativa ultrapassou o governo paraguaio e uniu diferentes setores políticos do país.
O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, criticou Lula e afirmou que a Guerra da Tríplice Aliança representou “o maior genocídio da história do continente” para o povo paraguaio. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o parlamentar acusou o presidente brasileiro de tratar com leviandade um dos capítulos mais traumáticos da história nacional.
A oposição também reagiu. A senadora Esperanza Martínez afirmou que as declarações reproduzem uma visão histórica que minimiza os impactos do conflito para o Paraguai e criticou o que chamou de narrativa ligada ao imperialismo brasileiro.
Até o ex-goleiro da seleção paraguaia José Luis Chilavert entrou no debate, utilizando as redes sociais para atacar Lula e manifestar apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial brasileira.
Tema histórico continua sensível
A Guerra do Paraguai, travada entre 1864 e 1870, permanece cercada de interpretações distintas entre brasileiros e paraguaios.
Enquanto a historiografia brasileira considera que o conflito teve início após a invasão paraguaia à então província de Mato Grosso, parte dos historiadores paraguaios atribui o estopim da guerra à intervenção militar brasileira no Uruguai e a interesses geopolíticos da época.
As diferentes interpretações ajudam a explicar por que o tema ainda provoca forte repercussão política e diplomática mais de 150 anos depois do conflito.
Apesar do desgaste provocado pelas declarações de Lula, o governo de Santiago Peña sinalizou que pretende preservar as relações institucionais com o Brasil, considerado um dos principais parceiros comerciais do Paraguai e aliado estratégico dentro do Mercosul.