Esta chamada deveria estar nos boletins da Faria Lima e dos Jardins, mas saiu na capa do Estadão deste domingo: “Inflação de famílias de alta renda é 75% maior do que o IPCA, aponta novo indicador”.
O jornal esclarece logo abaixo que o índice mede a “cesta de consumo” de famílias com renda entre R$ 30 mil e R$ 100 mil. E agora perguntamos nós: a quem interessa saber da carestia entre os ricos?
O Estadão informa, como se tivesse virado a Caras Economist, referindo-se a um tal de Índice Zeom de Alto Padrão:
“A pesquisa mostra que, em 12 meses, quem tem esse perfil de consumo teve inflação acumulada de 8,1%. No mesmo período, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), avançou 4,6%, uma diferença de 75%”.
O Estadão esclarece que, entre as categorias que mais pressionaram o custo de vida desde 2018, estão os planos de saúde de alto padrão, com aumento acumulado de 145,5%; os restaurantes de alto padrão, com aumento de 92,4%; os aluguéis residenciais de alto padrão em São Paulo, com valorização de 80,5%; e o preço nominal do modelo de entrada do iPhone, que dobrou no período.
Aqui está a surpresa, que deveria ser melhor explicada. Percebam que o iPhone não é o mais caro, mas o modelo de entrada. E rico compra celular de classe média?
Mas o que temos então é um retrato do drama enfrentado pelos ricos brasileiros, que comem nos melhores restaurantes e são protegidos por planos de saúde de alto padrão.
O que essa notícia, que não é tão nova e foi parar na capa do Estadão, significa para quem produz jornalismo e para quem consome notícias? Significa que perdemos a noção de valor também no jornalismo das corporações.
No Brasil em que os ricos tentam acabar com o Bolsa Família e a correção do salário mínimo acima da inflação (e há candidatos dedicados a essa tarefa), o Estadão publica na capa o indicador de carestia de quem ganha até R$ 100 mil. É o mundo paralelo das elites na capa do jornal.
É a inflação da ilha de Caras sendo jogada na nossa cara, como se o indicador tivesse algum sentido para o brasileiro médio que ainda consome as bobagens publicadas pelos jornalões.
Chegamos ao pico da irrelevância do que a grande imprensa publica, em meio a alguma coisa ainda aproveitável. E essa grande imprensa já assumiu missões importantes, e a mais decisiva delas no engajamento à luta pelo resgate da democracia. Essa índole se perdeu.
O brasileiro que assina o Estadão com a ilusão de que mantém um vício que vale a pena, paga para saber quanto os ricos estão gastando a mais do que os pobres para sobreviver com R$ 100 mil por mês.
Publicado originalmente no Blog do Moisés Mendes.