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Por que 76% dos argentinos sentem tristeza ou raiva com Milei

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Por que 76% dos argentinos sentem tristeza ou raiva com Milei

A forte desaceleração da inflação ainda não se converteu em melhora do humor dos argentinos em relação ao governo de Javier Milei. Pesquisa da Hugo Haime Associados citada pela Folha de S.Paulo mostra que 42% dos entrevistados dizem sentir tristeza ou desânimo diante da gestão do presidente e outros 34% mencionam raiva. Apenas 20% apontam entusiasmo, enquanto 4% não responderam. Somadas, as duas respostas negativas chegam a 76%.

O contraste aparece em meio à principal conquista econômica reivindicada pelo governo libertário. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), a inflação ficou em 1,9% em junho e acumulou 16,8% nos primeiros seis meses de 2026. Em 12 meses, o índice chegou a 33,5%, patamar ainda elevado, mas muito distante dos níveis registrados nos primeiros anos da crise inflacionária argentina.

A melhora dos índices, porém, não significa que as famílias já tenham recuperado integralmente o poder de compra perdido durante o choque econômico dos últimos anos. A análise publicada pela Folha aponta que muitos argentinos ainda percebem a redução da inflação como distante da vida cotidiana, num cenário de caro, consumo enfraquecido e orçamentos domésticos marcados pelas perdas anteriores.

Os próprios indicadores oficiais ajudam a explicar essa percepção contraditória. Em maio, o índice de salários cresceu 35,9% na comparação anual, segundo o Indec, mostrando melhora recente da remuneração nominal. Ao mesmo tempo, as vendas dos supermercados, descontada a inflação, recuaram 0,7% na comparação com maio de 2025, sinal de que a recuperação permanece desigual.

Alrededor de 50.000 manifestantes tomaron ayer las calles en Argentina contra la ley de tierras de Milei

La ley pretendía facilitar la venta de tierras rurales a millonarios extranjeros.

La clase trabajadora tumbó ayer la ley de tierras de Milei, la lucha es el único camino. pic.twitter.com/MacvyRV3ns

— Irreveren’t (@Nen__17) August 7, 2026

A pesquisa da Hugo Haime não mede diretamente aprovação ou intenção de voto, mas sentimentos despertados pelo governo. Por isso, o resultado revela uma dimensão diferente do desgaste político: mesmo diante da desaceleração dos preços, tristeza, desânimo e raiva aparecem muito acima do entusiasmo. A reportagem da Folha não informa a ficha técnica, o número de entrevistados nem as datas de realização do levantamento.

Nesse ambiente, Milei mantém o confronto político como uma de suas principais estratégias. O presidente argentino tem acumulado embates com a oposição, o Congresso, governadores, veículos de imprensa e governos estrangeiros. Para a colunista Sylvia Colombo, os conflitos também funcionam como forma de manter a agenda pública mobilizada em torno das pautas que estimulam sua base política.

O desafio para Milei passa, portanto, por transformar a desaceleração inflacionária em melhora perceptível das condições materiais da população. Os indicadores mostram que a inflação está muito abaixo dos picos dos anos anteriores, mas continua acima de 30% ao ano. A nova pesquisa sugere que vencer a batalha dos preços não foi suficiente, até agora, para vencer a disputa pelo humor dos argentinos.

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