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Jornalista Ruben Berta sofre tentativa de invasão no Instagram e recupera conta

Expresso Rio

O jornalista investigativo Ruben Berta informou, no fim deste sábado (8), que conseguiu recuperar sua conta no Instagram após relatar uma tentativa de invasão ao perfil. A manifestação teve como objetivo tranquilizar seguidores que acompanham o trabalho do profissional nas redes sociais e no Ururau, onde atualmente mantém uma coluna dedicada a investigações sobre a administração pública e a política do Rio de Janeiro.

“Já consegui recuperar a conta”, informou Berta aos seguidores.

Até o momento, não há informação pública que permita identificar quem teria tentado acessar o perfil, qual método teria sido empregado ou se algum conteúdo ou dado chegou a ser comprometido. Também não há confirmação pública de que o episódio tenha relação direta com alguma reportagem produzida pelo jornalista.

Essa distinção é importante: uma tentativa de acesso indevido a uma rede social, isoladamente, não permite concluir que houve uma ação direcionada em razão da atividade profissional do titular da conta.

Ainda assim, quando o perfil pertence a um jornalista investigativo, o episódio chama atenção para uma questão que ultrapassa a perda temporária de acesso a uma rede social.

Contas de jornalistas podem reunir conversas profissionais, contatos, registros de apuração e canais utilizados para comunicação com s. Por isso, tentativas de comprometimento de perfis digitais representam um problema adicional para profissionais que trabalham com informações sensíveis.

No caso de Ruben Berta, a relevância dessa discussão também está relacionada ao perfil de sua atuação profissional.

O jornalista é especializado na cobertura da administração pública e acumula mais de duas décadas de profissão. O UOL registra passagens de Berta pelo jornal O Globo e pelo The Intercept Brasil, além de sua atuação no próprio portal.

Atualmente, ele integra o projeto editorial do Ururau, onde conduz a coluna “Sem Filtro”. O próprio portal apresenta Berta como jornalista investigativo especializado na fiscalização da administração pública e destaca trabalhos baseados na análise de documentos, dados públicos e movimentações da máquina estatal.

A trajetória de Berta inclui investigações de repercussão estadual.

Em 2020, o jornalista conquistou o primeiro lugar na categoria Reportagens Jornalísticas do Prêmio AMAERJ Patrícia Acioli de Direitos Humanos com o trabalho “A Crise na Saúde no Estado do Rio durante a Pandemia”. O reconhecimento é confirmado por registros da premiação publicados à época.

Nos últimos anos, seu trabalho também esteve associado a investigações sobre a administração pública fluminense. O Ururau, ao anunciar sua contratação, destacou apurações envolvendo despesas públicas, contratações e estruturas administrativas do Estado.

É justamente nesse tipo de jornalismo que a proteção de contas digitais ganha dimensão especial. O risco não está apenas na possibilidade de alguém assumir o controle de um perfil público: dependendo do serviço comprometido e das configurações utilizadas pelo profissional, um incidente pode atingir canais de comunicação e informações relacionadas ao processo de apuração.

No episódio relatado neste sábado, porém, não há elementos públicos suficientes para afirmar que isso tenha acontecido.

Caso ocorre em momento de preocupação internacional com jornalistas

O relato de Ruben Berta surge em um momento em que episódios envolvendo jornalistas e mecanismos de pressão sobre a imprensa voltaram ao centro do debate internacional.

Nos Estados Unidos, um caso recente envolvendo jornalistas do New York Times provocou forte reação de organizações ligadas à liberdade de imprensa.

Em julho, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos emitiu intimações contra jornalistas do jornal que haviam participado de reportagens sobre questões de segurança envolvendo uma aeronave destinada ao uso como Air Force One e recebida do Catar. Algumas das intimações chegaram a ser entregues nas residências dos profissionais.

O objetivo da investigação era identificar a origem de informações consideradas sensíveis pelo governo.

O Departamento de Justiça sustentou que os jornalistas não eram os alvos da investigação e que a apuração buscava identificar responsáveis pelo eventual vazamento de informações classificadas. O New York Times, por sua vez, contestou as medidas judicialmente e argumentou que elas atingiam garantias relacionadas à liberdade de imprensa e à proteção do trabalho jornalístico.

Justiça questionou intimações contra jornalistas nos Estados Unidos

A disputa teve uma reviravolta.

Em 23 de julho, promotores americanos retiraram as intimações dirigidas a três jornalistas do New York Times depois de questionamentos feitos pelo juiz federal Arun Subramanian sobre a condução do procedimento.

Segundo a Reuters, o governo reconheceu ao menos uma falha relacionada à comunicação sobre a obtenção de registros telefônicos. A investigação sobre o possível vazamento de informações, entretanto, continuou.

A Associated Press informou que o magistrado ressaltou que medidas dessa natureza contra jornalistas deveriam representar um último recurso dentro de uma investigação.

O episódio não é equivalente à tentativa de invasão relatada por Ruben Berta e não há qualquer elemento que conecte os dois casos. A comparação está no contexto mais amplo: profissionais responsáveis por investigações sensíveis enfrentam desafios que atualmente incluem não apenas pressões jurídicas e políticas, mas também proteção de s, dispositivos, contas e comunicações digitais.

Pressão sobre a imprensa virou debate nos Estados Unidos

A relação entre o governo do presidente Donald Trump e veículos de comunicação também tem produzido sucessivos conflitos judiciais e administrativos.

Além das intimações envolvendo jornalistas do New York Times, medidas relacionadas ao acesso da imprensa ao Pentágono foram discutidas nos tribunais americanos. Em julho, uma corte federal de apelações permitiu que permanecesse em vigor, enquanto o processo prosseguia, uma política que exige acompanhamento de jornalistas em determinadas áreas do complexo militar.

A Reuters também registrou que organizações jornalísticas e entidades de defesa da imprensa vêm demonstrando preocupação com mudanças nas regras utilizadas em investigações de vazamentos de informações governamentais.

Ao mesmo tempo, o governo americano afirma que suas iniciativas têm como objetivo proteger informações classificadas e investigar responsáveis por vazamentos, e não perseguir jornalistas. Essa posição foi reiterada pelo Departamento de Justiça no caso envolvendo o New York Times.

Tentativa de invasão não deve ser confundida com autoria identificada

No caso brasileiro envolvendo Ruben Berta, a cautela é indispensável.

A informação disponível até a publicação desta reportagem é a de que o jornalista relatou uma tentativa de invasão e posteriormente comunicou que havia recuperado sua conta.

Não há, até agora, informação pública sobre eventual boletim de ocorrência, identificação de endereço eletrônico, dispositivo utilizado, origem da tentativa de acesso ou autoria.

Também não é possível estabelecer relação entre o episódio e pessoas, empresas, autoridades ou investigações anteriormente publicadas pelo jornalista.

Qualquer conclusão nesse sentido dependeria de elementos técnicos ou de uma investigação capaz de estabelecer a origem do acesso.

O episódio serve, porém, como alerta para uma transformação silenciosa na rotina das redações.

Grande parte da comunicação jornalística deixou de ocorrer exclusivamente por telefone ou encontros presenciais. s enviam documentos por aplicativos, conversas começam em redes sociais e informações podem circular por diferentes plataformas antes de se transformarem em reportagem.

Nesse ambiente, segurança digital passou a integrar a própria proteção da atividade jornalística.

Autenticação em dois fatores, utilização de aplicativos autenticadores, senhas exclusivas, revisão periódica das sessões conectadas e separação entre contas pessoais e profissionais são medidas que reduzem a exposição a tentativas de acesso indevido.

Para jornalistas investigativos, o cuidado assume importância ainda maior quando as apurações envolvem documentos públicos, denúncias, agentes políticos, contratos governamentais ou s que pedem preservação de identidade.

Com a recuperação do Instagram, Ruben Berta voltou a ter controle do perfil, segundo sua própria manifestação.

O ponto ainda sem resposta é a origem da tentativa de invasão.

Caso existam registros técnicos preservados pela plataforma ou pelo próprio jornalista, essas informações poderão ajudar a esclarecer como ocorreu a tentativa e se houve apenas uma ação automatizada, prática comum na internet, ou alguma iniciativa especificamente direcionada ao profissional.

Até que surjam elementos adicionais, não é possível atribuir motivação ou autoria ao episódio.

A recuperação da conta encerra o problema imediato, mas o relato deixa uma questão cada vez mais presente no jornalismo contemporâneo: em uma atividade baseada na proteção de informações, documentos e s, defender o trabalho de investigação também significa proteger os caminhos digitais pelos quais a informação chega até a redação.

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