Uma série de agressões e ameaças foram desferidas durante um almoço em um restaurante no centro de São Pedro, no interior de São Paulo, em 24 de julho.
Segundo o relato de Glauco Pereira no Instagram, o episódio começou depois que outro cliente comentou sobre o boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que ele usava.
Pereira estava acompanhado do filho e de um amigo dele, ambos de 10 anos. Os três almoçavam tranquilamente quando um sujeito que estava em outra mesa passou por ele e comentou: “Boné do MST, hein?”
Já do lado de fora do restaurante, o homem voltou a questioná-lo por estar consumindo no estabelecimento e, depois, comentou sobre a cerveja que ele bebia.
“Tomando cerveja cara, ainda por cima”, disse o provocador. Ao ser questionado por Pereira sobre o motivo de considerar aquilo incoerente, o homem teria respondido que o uso do boné do MST e o consumo de uma cerveja cara não combinavam.
Pereira então explicou que, em sua visão, não havia contradição, já que o MST defende uma sociedade mais justa e a redução das desigualdades sociais.
Homem voltou ao restaurante para agredir
Segundo Pereira, depois de retornar à mesa, o homem voltou pelas suas costas e, sem que ele percebesse, desferiu um soco em seu braço.
“Você é um bosta!”, gritou.
Pereira respondeu chamando-o de fascista e afirmou que era trabalhador. O homem continuou com os xingamentos. A situação chamou a atenção dos funcionários do restaurante.
O filho do proprietário se aproximou e pediu que o homem parasse, argumentando que ele estava assustando as crianças.
O amigo do filho de Pereira começou a chorar, funcionários, familiares e amigos do homem insistiram para que ele deixasse o estabelecimento. Ele teria saído em uma Toyota Hilux branca, mas retornado minutos depois.
Ao descer do veículo, passou a ameaçar Pereira: “Seu vagabundo, seu vagabundo, vem aqui que vou te quebrar, seu filho da puta!”
Pereira disse que não cairia na provocação. O homem, então, teria continuado: “Eu vou te quebrar na porrada! Seu vagabundo. Sou trabalhador!”
De acordo com o relato, algumas pessoas precisaram segurá-lo para impedir que a situação evoluísse para uma nova agressão.
Mesmo depois de deixar o local, o homem teria continuado a gritar da calçada: “O que você está fazendo aqui?! Tinha que estar num restaurante por quilo…”
Crianças aterrorizadas
A violência teve impacto direto sobre as duas crianças que acompanhavam Pereira. De acordo com seu relato, os meninos correram para os fundos do estabelecimento. O amigo de seu filho chorava e gritava, enquanto seu filho, que inicialmente parecia calmo, vomitou depois do episódio.
As portas do estabelecimento foram fechadas por precaução.
O filho de Pereira chegou a pedir que a polícia fosse chamada para acompanhá-los na saída, por medo de que o agressor estivesse esperando do lado de fora.
A polícia não precisou fazer a escolta. Funcionários do restaurante ajudaram a acalmar as crianças, oferecendo água e orientando-as a respirar lentamente. Depois, Pereira e os meninos deixaram o local rapidamente de carro.
Pereira afirmou que o boné que usava trazia o símbolo do MST e a bandeira palestina na pala. Segundo ele, o mesmo boné já havia causado outra situação de constrangimento quando foi obrigado a guardá-lo na mochila durante um festival de música eletrônica.
Depois da agressão, contou que ouviu de um funcionário da cozinha que ele “não podia estar com aquele boné”. O comentário, segundo Pereira, o incomodou porque transferiria para a vítima parte da responsabilidade pelo episódio.
“Eu uso o que gosto e defendo”, afirmou, ao responder ao comentário sobre o MST.
Para ele, a questão ultrapassa sua experiência pessoal e envolve a normalização da violência política. “Não peço que concordem comigo, só não venham me agredir.”
Pereira afirmou que não pretende transformar o episódio em espetáculo nem fazer proselitismo político, mas decidiu torná-lo público porque considera necessário denunciar manifestações de violência motivadas por posicionamentos ou símbolos políticos.
O soco, diz ele, não provocou ferimento físico grave, mas o episódio provocou medo e nervosismo, sobretudo pelo fato de ter ocorrido diante de duas crianças. Ele lavrou um boletim de ocorrência.
“Em uma democracia de verdade, ninguém deveria temer ser agredido por usar um boné, uma camiseta, um broche, ou qualquer outro símbolo de justiça”, escreveu.
“E sim, vou continuar usando os meus bonés do MST! Até a vitória!”