O operador de teleprompter de longa data do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é acusado de lucrar mais de US$ 100 mil ao apostar no conteúdo de discursos presidenciais usando informações privilegiadas, segundo fontes ouvidas pela ABC News.
Gabriel Perez, assistente técnico da Presidência e responsável pelo teleprompter de Trump desde a campanha de 2016, negocia um acordo com a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC), que investiga o caso. De acordo com as fontes, ele utilizou seu acesso antecipado aos textos dos pronunciamentos para fazer apostas no mercado de previsões Kalshi.
As apostas eram realizadas na modalidade chamada “Mentions”, em que usuários podem prever se determinadas palavras, expressões ou temas serão mencionados durante um discurso público.
Segundo a investigação, Perez teria apostado não apenas no discurso sobre o Estado da União, realizado em fevereiro, mas também em mais de uma dezena de pronunciamentos ao longo de três meses, incluindo:
* um discurso em horário nobre em dezembro;
* a participação de Trump no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro;
* um discurso durante uma cerimônia da Medalha de Honra, em março;
* uma fala ao Detroit Economic Club.
A própria Kalshi afirmou ter detectado movimentações suspeitas e comunicado imediatamente a CFTC.
“Nossa equipe de monitoramento identificou rapidamente essas operações, encaminhou o caso à CFTC e está cooperando integralmente com os reguladores”, declarou Bobby DeNault, principal advogado da empresa.
A Casa Branca informou que todos os funcionários devem seguir rígidas normas éticas e afirmou que Perez está colaborando com a investigação.
Segundo as fontes, investigadores descobriram que, em alguns casos, o operador alterava suas apostas durante o próprio discurso, quando Trump improvisava e deixava de ler trechos preparados no teleprompter.
Trump costuma fazer mudanças de última hora em seus discursos e frequentemente abandona o texto preparado.
“Quando subo aqui, corro um grande risco, especialmente eu, porque saio do teleprompter cerca de 80% do tempo”, disse Trump em um discurso realizado em janeiro, um dos pronunciamentos analisados pelos investigadores.
Perez continua exercendo a função de operador de teleprompter na Casa Branca.
As negociações com a CFTC envolvem um possível acordo civil pelo qual ele devolveria os lucros obtidos e se comprometeria a não realizar operações semelhantes no futuro. Segundo as fontes, promotores federais em Manhattan foram informados do caso, mas decidiram não abrir investigação criminal.
Kalshi endureceu regras
Após o episódio, a Kalshi reforçou suas políticas internas. A empresa passou a exigir que os usuários informem seu local de trabalho ao abrir uma conta e reiterou que funcionários não podem apostar utilizando informações obtidas em razão de seus cargos.
“Se você possui informações por causa do seu emprego e tem obrigação legal de protegê-las, não pode se apropriar delas para obter lucro”, afirmou Bobby DeNault.
Mercados de previsão sob maior fiscalização
O Departamento de Justiça dos EUA também intensificou o combate ao uso de informações privilegiadas em mercados de previsão. Nos últimos meses, apresentou duas ações criminais: uma contra um militar das forças especiais acusado de apostar sobre a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e outra contra um funcionário do Google acusado de usar dados internos da empresa para realizar apostas. Ambos se declararam inocentes.
Embora já tenha criticado o conceito dos mercados de previsão, Trump afirmou em abril que os Estados Unidos não deveriam impedir empresas como Kalshi e Polymarket de operar, sob risco de perder espaço para outros países.
Em outubro do ano passado, o grupo Trump Media & Technology Group também anunciou que estudava lançar sua própria plataforma de mercado de previsões.