Em entrevista ao podcast “Inteligência Ltda.”, Lula voltou a afirmar que seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é alvo de uma campanha na mídia.
“Esse meu filho, desde 2006, ele vem sendo utilizado em contraponto. Quem quer me atacar, começa atacando ele”, disse.
Lula lembrou que Lulinha vive atualmente na Espanha, não precisa responder às “campanhas difamatórias” e garantiu que, caso seja acusado de qualquer crime, responderá como qualquer outro cidadão, sem privilégios.
A declaração de Lula se deu no mesmo dia em que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito para investigar se Lulinha praticou os crimes de tráfico de influência e corrupção. A apuração ficará a cargo da Polícia Federal.
A investigação busca esclarecer se Lulinha atuou para beneficiar o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em negociações envolvendo o Ministério da Saúde. Segundo a Polícia Federal, há suspeitas de que ambos mantiveram negócios ligados ao setor de cannabis medicinal, hipótese que será apurada ao longo do inquérito.
O presidente ainda citou um episódio que ocorreu anos depois da publicação de uma capa clássica da Veja sobre Lulinha. Ele contou que visitou o dono da Editora Abril, Roberto Civita, durante uma internação no Hospital Sírio-Libanês.
De acordo com seu relato, Civita teria reconhecido pessoalmente que a revista errou ao publicar a matéria. “Na hora que ele me viu chegar, ele falou: ‘Ah, obrigado por ter vindo aqui’. ‘A dona Marisa não gosta de mim, né? Porque eu menti a respeito do filho dela e não provei nada’”, falou.
O episódio está reconstruído em detalhes na biografia oficial de Civita, “O Dono da Banca”, escrita pelo jornalista Carlos Maranhão e publicada em 2015, três anos após a morte do personagem central.
O livro confirma que o publisher da Veja considerava a reportagem sobre Lulinha um erro. Lula nunca o perdoou. Eis alguns trechos na íntegra:
Chamado na imprensa de Lulinha, apelido que detestava, ele foi protagonista de um negócio que causaria estranheza. A produtora Gamecorp, da qual era sócio e que tinha um capital de 100 mil reais, vendera parte de suas ações à Telemar por 5,2 milhões de reais. Então a maior empresa de telecomunicações do Brasil em faturamento, a Telemar era concessionária de serviços públicos.
Questionado sobre o assunto pela Folha de S.Paulo, Lula afirmaria que seu filho estava “subordinado à mesma Constituição a que eu estou”. Em seguida, fez uma comparação: “Porque deve haver um milhão de pais reclamando: por que meu filho não é o Ronaldinho? Porque não pode todo mundo ser o Ronaldinho.”
A Veja aproveitou o mote para preparar outra matéria sobre o assunto, dessa vez na capa, que saiu na mesma semana do segundo turno das eleições presidenciais. Lula seria reeleito com 60,83% dos votos, contra 39,17% de Geraldo Alckmin, candidato do PSDB.
O título era “O ‘Ronaldinho’ de Lula”, com este subtítulo: “O presidente comparou o filho empresário ao craque de futebol. Mas os dons fenomenais de Fábio Luís, o Lulinha, só apareceram depois que o pai chegou ao Planalto.”
Roberto, desde o início, foi contrário à publicação.
“Qual é a lógica de arrumarmos um inimigo eterno?”, indagou para Eurípedes [Alcântara, diretor de redação da Veja] ao ser informado da pauta. “Não só o Lula, mas a mulher e a família. Qualquer mãe se transforma em uma leoa na hora de defender o filho. Dona Marisa vai nos odiar para sempre.”
Chegou a lembrar de uma reportagem que a revista dera anos antes sobre a casa que o filho de Fernando Henrique Cardoso havia comprado no litoral da Bahia. “Dona Ruth me ligou enfurecida, parecia uma onça protegendo a cria”, disse.
Foi então ao ponto: “O que acontece se não dermos?”
Eurípedes lhe respondeu: “Se não dermos, vamos varrer a sujeira para baixo do tapete. Lula afirma que o filho é um gênio nos negócios, e sabemos que não é. Não se pode deixar o presidente da República mentir com uma declaração como essa.”
Roberto não se convenceu. Da mesma forma como não descia à redação para ver antecipadamente a capa, ele poucas vezes lia um texto antes da publicação. Naquela quinta, pediu que a matéria lhe fosse entregue tão logo estivesse pronta.
Voltou com a cópia dentro de uma pasta de papéis que costumava carregar embaixo do braço. Eurípedes estava reunido com os editores executivos quando ele entrou na sua sala. Todos saíram.
“A matéria tem pouca coisa nova”, disse Roberto.
“Tem mesmo, mas precisamos dar”, afirmou Eurípedes.
“Eu preciso entender. Como publisher, preciso entender qual é a lógica de fazermos isso”, insistiu.
“Primeiro, porque é tudo verdade”, argumentou Eurípedes. “Depois, porque ele nos levantou a bola ao comparar o filho com o Ronaldinho. A responsabilidade é minha, inclusive do ponto de vista jurídico.”
Roberto balançou a cabeça:
“Acho um erro, mas, se você entende que a matéria é adequada, eu respeito.”
Ao encerrar a conversa, fez uma observação que Eurípedes não interpretou como uma ameaça e sim como a forma de o chefe se expressar em uma situação tensa como aquela.
“Não vou tirar a capa. Eu não mudo capa. Eu mudo diretor.”
Não mudou nenhum dos dois, mas manteria até o fim a opinião de que dar aquela capa fora um equívoco. Não pelas implicações políticas — a revista já publicara e continuaria publicando denúncias explosivas contra o governo, o PT e Lula. Nem pelo risco jornalístico — os fatos descritos, em linhas gerais, estavam corretos e o tema abordado voltaria à tona.
A questão central, para Roberto, eram as implicações familiares. Não julgava correto que se tentasse atingir um homem público pelos atos de um filho, por mais que Fábio Luís estivesse enredado em uma transação suspeita e difícil de justificar.
Em 2012, ele se internou no Sírio-Libanês por causa de uma pneumonia. Foi logo debelada.
Em seus checkups semestrais, que passaram a ter a supervisão de Roberto Kalil, constatou-se no mesmo ano algo bem mais perigoso: uma obstrução de 90% na principal artéria do coração, a artéria descendente inferior, como consequência de uma alta taxa de LDL, o chamado mau colesterol.
“Seria necessário realizar um cateterismo, o que foi feito de forma muito bem-sucedida pelo dr. Pedro Leme, com meu acompanhamento”, relataria Kalil.
Em outro exame, o urologista Miguel Srougi diagnosticou um aumento benigno da próstata. Roberto resolveu operá-la em Nova York, com sucesso.
Antes, em um exame cardiológico, foi descoberto um aneurisma da aorta abdominal. A reavaliação ficou marcada para janeiro do ano seguinte.
Em uma dessas internações, na qual passou pelo cateterismo, em junho de 2012, o ex-presidente Lula se encontrava na mesma ala do Sírio, no terceiro andar do prédio antigo, o bloco C. Lula passava por um dos exames rotineiros a que se submetia regularmente desde que fora diagnosticado o surgimento de um câncer de laringe, em outubro de 2011.
Os dois teriam um rápido encontro no apartamento de Roberto.
“Vou no quarto dele para lhe dar um abraço”, disse Lula, segundo a versão de Kalil.
“Eu avisei o Roberto e fui até lá com o Lula e a dona Marisa”, reconstituiria o médico. “Eles conversaram um pouco e eu saí do apartamento para deixá-los à vontade. A visita deve ter durado uns três minutos.”
Não houve outras testemunhas. Maria Antonia, naquele momento, dera uma saída do hospital e Roberto estava sozinho.
De acordo com Eurípedes Alcântara, que era diretor de redação da Veja, a sugestão da visita teria partido do próprio Kalil. Segundo o que afirmaria ter ouvido do médico, Roberto fez naquela rápida conversa um mea-culpa pela publicação da capa em 2006 sobre o filho do já ex-presidente, “O Ronaldinho de Lula”.
Ele teria admitido:
“A única capa que eu acho que não deveríamos ter dado, e que foi um erro, e deixei sair porque não veto matérias, foi aquela do seu filho.”
Lula não aceitou dar entrevista para este livro. Após dois pedidos, mandou uma resposta por e-mail através do jornalista José Chrispiniano, assessor de imprensa do Instituto Lula, no dia 27 de fevereiro de 2015.
“O ex-presidente lembra-se sim do encontro, ocorrido quando ele ia ao Sírio para se recuperar dos efeitos colaterais do tratamento contra o câncer”, escreveu Chrispiniano. “Ele foi fazer uma visita de cortesia, junto com sua esposa, para uma pessoa com convalescência [sic] grave. Ele não foi nesse ambiente falar de política ou reclamar de reportagem. Quem levantou o assunto da reportagem foi o próprio Roberto Civita.”
No mesmo e-mail, o assessor lembrou que a visita foi rapidamente relatada no blog do jornalista Luis Nassif, crítico sistemático da Editora Abril, da Veja e de Roberto.
Nassif se referiu a Roberto como “arqui-inimigo” de Lula.
“Vale ressaltar que o ex-presidente não considera Roberto Civita um arqui-inimigo”, corrigiu Chrispiniano.
Nassif registrou: “Civita se emocionou com a visita e pediu desculpas pelos ataques a Lula e ao filho.”
E acrescentou: “Lula lhe disse para não se emocionar muito para não atrapalhar o tratamento. Kalil viu sinais de ironia no alerta de Lula.”
Para Kalil, “foi mais ou menos assim”, com uma ressalva: “Não é verdade que eu tenha visto sinais de ironia na frase de Lula.”
Quando Maria Antonia [a viúva de Civita] voltou para o apartamento, Roberto lhe falou da visita que ela havia perdido. O marido lembrou o que previra antes da publicação da capa com Lulinha que lhe causaria tantos incômodos.
Na despedida, conforme contou para a mulher, fizera um convite para Lula: que os dois, logo que deixassem o hospital, fossem jantar juntos, como os inimigos italianos que querem se reaproximar, e compartilhassem à mesa uma garrafa de Chianti.
Lula concordou, mas o jantar nunca seria marcado.
🚨URGENTE! Lula REVELA que Roberto Civita, da Veja, PEDIU PERDÃO para a Dona Marisa em seu leito de morte:
“Menti a respeito do filho dela e não provei nada.”
O dono da Veja ADMITIU a mentira sobre o filho de Lula, mas a imprensa nunca divulgou!
A VERDADE SEMPRE VEM À TONA! pic.twitter.com/s36l6JAYZD
— Pedro Rousseff (@pedrorousseff) July 31, 2026