O New York Times ouviu diversos cidadãos marroquinos que afirmam ter sido incentivados pelas próprias autoridades do Marrocos a atravessar a fronteira rumo a Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Os relatos reforçam a suspeita de que a entrada em massa de migrantes não foi espontânea, mas contou com a atuação das forças de segurança marroquinas, que orientavam e estimulavam os grupos a seguir em direção ao território espanhol.
Um dos entrevistados, Youssef Alaoui, de 26 anos, contou ao jornal que, quando seu grupo se aproximou da fronteira na quinta-feira, policiais marroquinos apenas apontavam o caminho.
“Eles só diziam: ‘Vão por ali, vão por ali’”, relatou.
Alaoui afirmou que atravessou a fronteira marítima nadando e disse ter visto vários corpos boiando durante o percurso.
Outro marroquino ouvido pelo jornal, Mohammed Ahmidho, de 37 anos, contou que soube pelas redes sociais da possibilidade de entrar em Ceuta e que, ao chegar próximo da fronteira, policiais lhe diziam simplesmente: “Vá para a Espanha.” Ele acabou retornando ao Marrocos porque não havia comida, água nem abrigo em Ceuta.
Entre 50 mil e 60 mil pessoas cruzaram a fronteira em apenas dois dias
As autoridades espanholas estimam que entre 50 mil e 60 mil migrantes entraram em Ceuta entre quinta e sexta-feira, no maior fluxo migratório já registrado no pequeno território espanhol.
Até a tarde de sexta-feira, cerca de 48,3 mil pessoas já haviam retornado ao Marrocos, mas milhares permaneceram na cidade, provocando uma grave crise humanitária.
O presidente do governo de Ceuta, Juan Jesús Vivas, informou que cerca de três dezenas de migrantes morreram tentando realizar a travessia pelo mar e classificou a situação como “absolutamente insustentável” para uma cidade de apenas 83 mil habitantes.
As autoridades locais anunciaram que não forneceriam alimentação nem abrigo aos migrantes que permanecessem no território. Muitos disseram não comer havia quase dois dias.
ESPAÑA: CEUTA PIDE CERRAR LA FRONTERA POR LA LLEGADA MASIVA DE MIGRANTES DE MARRUECOS
Más de mil jóvenes marroquíes se congregaron en la frontera con Ceuta para intentar ingresar al enclave español, y cientos lograron superar las barreras de protección, que en ese momento no… pic.twitter.com/Mx0LuQwMW2
— Clarín (@clarincom) July 30, 2026
Crise alimenta ofensiva internacional contra Pedro Sánchez
As cenas de milhares de migrantes escalando cercas ou nadando até Ceuta dominaram as redes sociais e rapidamente passaram a ser usadas politicamente contra o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.
A Casa Branca responsabilizou diretamente a política migratória do governo espanhol pela crise.
“O presidente Trump alerta há muito tempo a Europa sobre o que acontece quando governos adotam políticas globalistas de extrema esquerda e facilitam a migração em massa”, afirmou a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, em declaração à Fox News.
Stephen Miller, principal assessor de Donald Trump para imigração e arquiteto da política de deportações em massa do governo americano, também explorou o episódio.
“Foi isso que os democratas fizeram com os Estados Unidos durante quatro anos sob Biden e fariam novamente em escala muito maior se voltassem ao poder”, escreveu nas redes sociais, comparando a situação em Ceuta ao aumento da imigração ilegal nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, autoridades e aliados do governo de Israel também passaram a usar a crise para atacar Pedro Sánchez. A ofensiva ocorre após o premiê espanhol denunciar repetidamente a campanha militar israelense em Gaza como um genocídio e defender o reconhecimento do Estado palestino. Desde então, Sánchez tornou-se alvo frequente de críticas de integrantes do governo de Benjamin Netanyahu, que agora associam a crise migratória às políticas adotadas pelo governo espanhol.
Segundo o New York Times, dezenas de jovens espanhóis foram até a Plaza de los Reyes, no centro de Ceuta, gritando “Para o Marrocos!” diante de grupos de migrantes que descansavam no local.
Alguns migrantes fugiram enquanto eram perseguidos. Integrantes do grupo espanhol, alguns com os rostos cobertos, comemoravam cada vez que conseguiam expulsar um migrante da praça e marchavam pelas ruas gritando “Viva a Espanha!”
Marrocos usa migração como instrumento de pressão
Ceuta e Melilla são enclaves espanhóis localizados em território africano. Embora façam parte da União Europeia e do Espaço Schengen, possuem regras especiais que impedem que migrantes sigam automaticamente para a Espanha continental.
Nos últimos anos, Madri passou a depender fortemente das forças de segurança marroquinas para conter os fluxos migratórios rumo à Europa. O governo do Marrocos, porém, não reconhece a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla.
Em momentos de tensão diplomática, Rabat já foi acusado de utilizar a migração como instrumento de pressão política, relaxando deliberadamente o controle da fronteira para provocar crises na Espanha.
Em 2021, mais de 10 mil pessoas cruzaram para Ceuta em apenas dois dias. Agora, os relatos reunidos pelo New York Times, segundo os quais policiais marroquinos orientavam e incentivavam os migrantes a entrar na Espanha, reforçam as suspeitas de que a atual onda migratória foi uma armação contra Sánchez.
Os Estados Unidos se solidarizam com o povo da Espanha e com todos os europeus contra essa flagrante violação de sua soberania e direitos humanos.
Este incidente inaceitável é resultado direto dos esforços deliberados do governo espanhol para viabilizar e facilitar a imigração…
— USA em Português (@USAemPortugues) July 31, 2026