O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo um artigo no jornal americano The Washington Post em que critica as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros e defende a retomada de um diálogo “aberto e construtivo” entre os dois países.
No texto, Lula reafirma a defesa da soberania nacional e sustenta que o futuro do Brasil deve ser decidido exclusivamente pelos brasileiros.
“O destino do Brasil cabe exclusivamente aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência.”
A publicação ocorre um dia após o Itamaraty negar vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado dos EUA. Segundo reportagem do próprio Washington Post, a viagem teria como objetivo levantar suspeitas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Lula afirma que o primeiro pacote de tarifas anunciado por Trump teve motivação política, ao relacionar a medida ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. Segundo o presidente, as negociações posteriores derrubaram os argumentos que sustentavam a decisão inicial.
Mesmo assim, afirma que o governo americano voltou a elevar as taxas neste mês, ignorando o diálogo entre os dois países.
“Neste mês, ignorando dezenas de reuniões entre nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil, variando de 12,5% a 37,5%.”
O presidente destaca que o Brasil passou a integrar o grupo dos países mais taxados pelos Estados Unidos, apesar de os americanos manterem superávit na balança comercial bilateral.
Lula argumenta que o tarifaço prejudicará tanto o Brasil quanto os próprios Estados Unidos.
“As tarifas prejudicarão empresas e consumidores americanos, desorganizando cadeias de suprimentos que dependem do Brasil, enquanto buscaremos novos parceiros comerciais.”
O presidente também rejeita as justificativas apresentadas pela Casa Branca para a adoção das medidas.
“As alegações apresentadas para justificar essas medidas são infundadas.”
No artigo, Lula defende a atuação do governo sobre as plataformas digitais e afirma que liberdade de expressão não pode servir de proteção para práticas criminosas.
“A liberdade de expressão não é um salvo-conduto para atividades criminosas em plataformas de redes sociais — não desistiremos de proteger nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas da tecnologia.”
O presidente também rebate críticas ao sistema de pagamentos brasileiro.
“Nosso sistema de pagamentos, o Pix, não discrimina empresas dos EUA e é uma referência internacional em infraestrutura pública digital.”
Lula afirma ainda que seu governo retomou o combate aos crimes ambientais desde o início do terceiro mandato.
“Desde o início do meu terceiro mandato, o Brasil voltou a combater os crimes ambientais de forma agressiva.”
Na parte final do texto, o presidente defende uma agenda positiva para a relação bilateral, baseada em investimentos, comércio e cooperação contra o crime organizado.
“Somos favoráveis a unir forças em torno de iniciativas concretas que envolvam investimentos, comércio e o combate ao crime organizado.”
Ao mesmo tempo, critica a política externa adotada por Washington.
“Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em prol de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos.”
Lula também afirma que tentativas de transformar a parceria entre Brasil e Estados Unidos em instrumento de disputa ideológica ou eleitoral não terão sucesso.
“Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não prosperarão.”
O artigo termina com uma defesa da soberania brasileira e uma mensagem de disposição para negociar com países que respeitem essa posição.
“Respeitamos a soberania de todos os países e negociaremos com todos aqueles que souberem respeitar a nossa. Ninguém nos derrotará com mentiras.”