“Eu sou da lira, não posso negar”: a pesquisadora de Campos que transformou a memória das bandas centenárias em uma missão
Há histórias que permanecem escritas em livros. Outras precisam ser contadas, ouvidas e transmitidas para não desaparecer.
Em Campos dos Goytacazes, parte dessa memória atravessa gerações por meio das bandas civis que acompanham a vida da cidade há décadas, em alguns casos, há mais de um século.
Para a pesquisadora, professora, musicista e pianista Karina Barra Gomes, essas instituições representam muito mais do que música.
São espaços de aprendizagem, convivência, pertencimento, formação humana e preservação de memórias.
É justamente essa dimensão que Karina passou anos investigando. Sua trajetória acadêmica se entrelaça com a história musical de Campos e resultou em uma pesquisa de quase duas décadas sobre as bandas civis centenárias do município.
O trabalho, que começou no mestrado, avançou no doutorado e posteriormente ganhou a forma de livro, colocou no centro da investigação não apenas as instituições, mas principalmente as pessoas que ajudaram a mantê-las vivas.
E é aí que a música passa a contar uma história muito maior.
A relação de Karina com a música começou ainda na infância.
Ela possui formação técnica em piano pelo Centro de Integração Artística (CIART) e, posteriormente, licenciou-se em Educação Artística, com habilitação em Música, pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
A formação musical, porém, não ficou restrita à prática do instrumento.
Ao longo dos anos, Karina passou a investigar também os processos sociais e culturais que cercam a música.
Em 2008, concluiu o mestrado em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Em 2019, defendeu o doutorado na mesma área e instituição. Dois anos depois, em 2021, realizou pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF.
Sua produção acadêmica reúne temas como música, educação, identidade, estudos culturais, cultura popular, história oral, memória social e políticas culturais.
Mas uma pergunta específica passou a ocupar um espaço cada vez maior em sua trajetória:
como explicar a permanência das bandas civis centenárias de Campos e o papel que elas desempenharam na vida de diferentes gerações?
A pesquisa que começou no mestrado e atravessou quase duas décadas
Em 2008, Karina defendeu a dissertação intitulada “E hoje, quem é que vê a banda passar? Um estudo de práticas e políticas culturais a partir do caso das bandas civis centenárias em Campos dos Goytacazes”.
O trabalho marcou o início de uma investigação que seria aprofundada posteriormente.
No doutorado, defendido em julho de 2019, a pesquisadora voltou novamente às bandas, mas ampliou a perspectiva. O foco passou a envolver as trajetórias de vida, as memórias e as políticas culturais relacionadas às sociedades musicais centenárias do município.
A tese recebeu o título “Eu sou da lira, não posso negar: trajetórias de vida, memórias e políticas culturais nas bandas civis centenárias de Campos dos Goytacazes (RJ)”.
A pesquisa teve como objeto três sociedades musicais tradicionais da cidade: Lira de Apolo, Lira Conspiradora e Lira Guarany.
Mais do que investigar a história institucional dessas corporações, Karina procurou compreender as trajetórias dos músicos, os vínculos construídos ao longo do tempo e os fatores que contribuíram para a permanência dessas organizações.
A pergunta, portanto, não era apenas por que essas bandas continuaram tocando.
Era também o que fez com que pessoas de diferentes gerações continuassem pertencendo a elas.
Em 2024, o resultado dessa trajetória acadêmica ganhou uma nova dimensão.
A tese foi transformada no livro “Eu sou da lira, não posso negar: Trajetórias de vida, memórias e políticas culturais nas bandas civis centenárias de Campos dos Goytacazes (RJ)”, publicado pela Pimenta Cultural.
Com 320 páginas, a obra reúne uma investigação de caráter documental, bibliográfico e sociológico sobre as três corporações musicais estudadas.
O livro aborda a formação das sociedades musicais, as trajetórias dos músicos e as relações entre cultura, memória e políticas sociais e culturais.
A publicação também ajuda a retirar essas histórias de um espaço restrito à academia e colocá-las diante de um público mais amplo.
Afinal, quando uma pesquisa passa a circular em forma de livro, ela deixa de ser apenas um registro acadêmico e pode se transformar também em instrumento de preservação da memória coletiva.
O título da obra carrega uma dimensão afetiva.
Segundo Karina, a expressão é um trocadilho criativo com a marchinha de carnaval “Ó Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, e procura traduzir o sentimento de pertencimento demonstrado pelos músicos em suas narrativas de vida.
A frase funciona, assim, como uma espécie de declaração de identidade.
Não é apenas estar em uma banda.
É reconhecer-se como parte dela.
É nesse ponto que a pesquisa de Karina ganha uma dimensão social.
A história oral e as narrativas de vida utilizadas em seus estudos permitem observar as bandas a partir das experiências daqueles que fizeram parte delas.
Em artigo publicado na Revista Orfeu, em 2022, a pesquisadora analisou as histórias de dois mestres de banda ligados à antiga Escola de Aprendizes Artífices de Campos, atualmente vinculada ao Instituto Federal Fluminense.
A investigação evidencia como trajetórias musicais individuais também podem participar da construção de memórias coletivas.
A banda, nesse contexto, não é apenas o lugar onde alguém aprende a tocar um instrumento.
É também um espaço onde pessoas aprendem a conviver, compartilhar conhecimento e ocupar um lugar dentro da comunidade.
Essa perspectiva ajuda a entender por que Karina relaciona as bandas a conceitos como autorrespeito, disciplina, companheirismo, participação, aprendizagem, identidade, cooperação, respeito, cidadania e solidariedade.
“A banda de música demonstrou que, desde o século XIX, assume a função de uma instituição democrática e comunitária, capaz de receber crianças, jovens, adultos e idosos para torná-los cidadãos melhores, capazes e sensíveis”, afirma a pesquisadora.
A frase resume uma das ideias centrais de sua investigação: a longevidade de uma banda não está apenas na conservação dos instrumentos ou das partituras.
Está também nas relações humanas que permitem que o conhecimento seja transmitido de uma geração para outra.
Se a memória precisa ser transmitida para permanecer viva, Karina entende que a escola possui um papel fundamental nesse processo.
Para a pesquisadora, a educação patrimonial pode ajudar crianças e jovens a compreenderem a história cultural do lugar onde vivem.
“A educação patrimonial é de fundamental importância para que a memória cultural de um povo, de uma cidade não seja esquecida, silenciada e apagada. Por meio das escolas esse papel pode ser desenvolvido com o empenho dos educadores”, afirma.
A preocupação também aparece em sua trajetória profissional.
Em 2019, Karina integrou uma equipe de um programa da então Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte de Campos que levou às escolas discussões relacionadas ao patrimônio cultural material e imaterial, ao patrimônio musical e às manifestações culturais locais.
A proposta abrangia diferentes expressões da cultura popular, entre elas rodas de samba, jongo, choro, bandas civis e Folias de Reis.
A ideia era aproximar os estudantes das manifestações que fazem parte da história do próprio território.
Nesse sentido, preservar não significa simplesmente olhar para o passado.
Significa permitir que as novas gerações saibam de onde vieram determinadas tradições e possam decidir o que fazer com elas no futuro.
A preocupação da pesquisadora com as bandas civis centenárias também envolve a relação dessas instituições com as políticas culturais.
Karina afirma que o enfraquecimento desses espaços pode produzir consequências que vão além da perda de apresentações musicais.
“Quando o poder público exclui as bandas civis de seus projetos culturais não é apenas a música que é silenciada. Um espaço de construção social, de preservação de histórias e memórias é apagado. Uma escola de valores permanentes vai sendo esquecida, as tradições diluídas e a vida da comunidade perde seu brilho”, afirma.
A avaliação é apresentada por Karina como um alerta sobre o papel que as políticas culturais podem desempenhar na preservação dessas instituições.
Ela também faz questão de estabelecer uma distinção.
A defesa das bandas civis centenárias não significa, segundo a pesquisadora, desvalorizar outras manifestações musicais.
Bandas escolares, fanfarras, grupos de rock, pop e outras formações possuem suas próprias trajetórias e importância cultural.
O ponto levantado por Karina é outro: as sociedades musicais centenárias possuem uma trajetória histórica específica e, durante gerações, também exerceram funções relacionadas à formação musical e social.
São histórias diferentes que podem coexistir dentro de uma mesma política de valorização cultural.
O que uma cidade perde quando uma tradição desaparece?
Essa talvez seja uma das questões mais importantes deixadas pela pesquisa.
Uma banda que deixa de existir não representa apenas o fim de um grupo musical.
Pode significar também a interrupção de uma cadeia de transmissão de conhecimentos, histórias e vínculos.
É essa dimensão que Karina procura evidenciar quando fala sobre o futuro das sociedades musicais centenárias de Campos.
“Um lugar de memórias afetivas, musicais, um espaço de histórias geracionais e de tradições vai sendo abafado”, afirma.
A preocupação aparece de maneira coerente com sua própria produção acadêmica.
Em trabalho publicado em 2019, Karina e a historiadora Simonne Teixeira analisaram as sociedades musicais centenárias de Campos a partir do campo das políticas culturais, abordando a formação da identidade dos músicos e os processos de construção da memória relacionados à permanência dessas organizações.
O alerta, portanto, não surgiu de uma preocupação recente.
Ele acompanha uma linha de pesquisa construída ao longo dos anos.
Depois de tantos anos estudando música, cultura e memória, a trajetória acadêmica também permite olhar para trás.
O que a pesquisadora diria para aquela menina que começou a estudar piano?
A resposta é simples e, ao mesmo tempo, revela muito sobre a própria história de Karina.
“Siga em frente, realize seus sonhos, não tenha medo de tentar, acredite que o estudo pode desenvolver potencialidades que você não sabe que podem ser encontradas em você”, aconselha.
A frase poderia ser lida como um resumo de sua própria trajetória.
A menina encontrou a música.
A musicista encontrou a educação.
A educadora encontrou a pesquisa.
E a pesquisadora encontrou nas bandas centenárias de Campos uma maneira de investigar histórias que poderiam permanecer dispersas na memória daqueles que as viveram.
O trabalho de Karina Barra Gomes mostra que patrimônio cultural não se resume a prédios históricos, documentos ou objetos preservados.
Também está nos saberes.
Nas músicas.
Nas relações.
Nas lembranças.
Nas pessoas que ensinam aquilo que aprenderam.
E nas instituições que conseguem atravessar gerações.
Quando uma banda toca pelas ruas de Campos, há muito mais acontecendo do que a execução de uma peça musical.
Há músicos carregando experiências.
Há famílias acompanhando.
Há jovens aprendendo.
Há idosos transmitindo conhecimentos.
Há uma comunidade reconhecendo sons que, muitas vezes, fazem parte de sua própria história.
É justamente por isso que a pesquisa de Karina ultrapassa os limites da música.
Ela ajuda a olhar para as bandas civis centenárias como espaços onde diferentes gerações se encontram e onde a memória pode continuar sendo construída.
No fim, a pesquisa de Karina deixa uma pergunta que não pertence apenas aos músicos.
Pertence à cidade.
Quem preservará essas histórias quando aqueles que as carregam já não estiverem aqui?
A resposta não depende exclusivamente das bandas.
Passa pelas escolas, pelas famílias, pelos pesquisadores, pelas instituições culturais, pelo poder público e pela própria comunidade.
Porque uma tradição não permanece viva simplesmente por ser antiga.
Ela precisa ser conhecida, valorizada e transmitida.
Karina passou anos ouvindo histórias, analisando documentos, estudando trajetórias e transformando experiências individuais em objeto de pesquisa.
Em 2024, parte desse trabalho ganhou as páginas de um livro.
Mas a questão central permanece aberta.
O que Campos fará com a memória que recebeu?
Enquanto houver alguém disposto a pesquisar, ensinar, tocar e ouvir, essas histórias ainda terão espaço para continuar.
E talvez seja justamente esse o significado mais profundo de “Eu sou da lira, não posso negar”.
Não se trata apenas de pertencer a uma banda.
Trata-se de reconhecer que, por trás de cada música, existe uma história.
E que, quando uma cidade preserva suas histórias, ela também preserva uma parte de si mesma.
Sobre a pesquisadora
Karina Barra Gomes é licenciada em Educação Artística, com habilitação em Música, pela UNIRIO, e possui formação técnica em piano pelo Centro de Integração Artística (CIART). É mestra e doutora em Políticas Sociais pela UENF e realizou pós-doutorado na mesma área e instituição.
Sua trajetória como professora, musicista e pesquisadora reúne estudos relacionados a identidade, práticas musicais e culturais, cultura popular, história oral, memória social e políticas culturais.
Sobre o livro
“Eu sou da lira, não posso negar: Trajetórias de vida, memórias e políticas culturais nas bandas civis centenárias de Campos dos Goytacazes (RJ)”
Autora: Karina Barra Gomes
Editora: Pimenta Cultural
Ano: 2024
Número de páginas: 320
ISBN impresso: 9788572212076
ISBN digital: 9788572212083
Ver o livro na Pimenta Cultural
Ler a tese de doutorado na UENF
Artigo de 2019 de Karina Barra Gomes e Simonne Teixeira, intitulado “Tradição e modernidade: as bandas civis em Campos dos Goytacazes