A prisão do brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla, realizada pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE), abriu uma discussão incomum entre órgãos de segurança dos dois países. O motivo não está relacionado à captura em si, mas à forma como o investigado foi apresentado pelas autoridades americanas.
- O que levou à prisão de Felipe Linares
- Documentos e investigações apontam vínculos indiretos, mas não liderança criminosa
- Fraude em hotel de luxo integra histórico judicial do investigado
- Captura ocorreu durante perseguição policial na Carolina do Norte
- Contexto internacional ampliou repercussão do caso
Ao divulgar a operação, o governo dos Estados Unidos classificou Dell Aquilla como um ex-chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), duas das maiores organizações criminosas em atividade no Brasil. A descrição chamou atenção de investigadores brasileiros, que afirmam não possuir registros que sustentem essa posição dentro das estruturas das facções.
Fontes ligadas à Polícia Federal, aos Ministérios Públicos estaduais, às polícias civis e a setores de inteligência consultados por veículos nacionais afirmam que o nome de Felipe Linares não aparece entre os principais alvos monitorados em levantamentos relacionados ao comando ou à hierarquia das organizações criminosas.
O que levou à prisão de Felipe Linares
Segundo informações divulgadas pelas autoridades americanas, Felipe Linares era alvo de uma difusão vermelha da Interpol emitida a pedido do Brasil.
A ordem internacional está associada a uma condenação definitiva por extorsão. A pena aplicada pela Justiça brasileira soma nove anos e sete meses de prisão.
Além da condenação já transitada em julgado, o investigado também aparece em outros procedimentos judiciais e investigações envolvendo diferentes tipos de crimes, incluindo acusações de tráfico de drogas, estelionato, ameaça e lesão corporal.
O histórico criminal, entretanto, não foi considerado suficiente por investigadores brasileiros para enquadrá-lo como liderança reconhecida do PCC ou do Comando Vermelho.
Nos bastidores das forças de segurança, a principal dúvida passou a ser a origem das informações utilizadas pelas autoridades dos Estados Unidos para atribuir a Dell Aquilla um papel de comando nas facções.
Documentos e investigações apontam vínculos indiretos, mas não liderança criminosa
Segundo documentos e informações obtidas por investigadores que acompanham o caso, Felipe Linares já foi citado em apurações envolvendo movimentações financeiras nas quais teria declarado receber recursos provenientes de integrantes ligados ao PCC e ao Comando Vermelho.
Essa informação, contudo, não é considerada suficiente para caracterizar filiação formal ou posição de liderança dentro das organizações.
De acordo com especialistas em inteligência policial, a estrutura das grandes facções brasileiras é amplamente monitorada por diferentes órgãos estaduais e federais. Nomes ligados aos escalões superiores costumam ser conhecidos pelas equipes especializadas em combate ao crime organizado.
Por esse motivo, a ausência de registros que indiquem participação relevante de Dell Aquilla nas estruturas de comando despertou questionamentos após a divulgação do comunicado americano.
Fraude em hotel de luxo integra histórico judicial do investigado
Entre os processos que envolvem Felipe Linares está uma ação relacionada a uma suposta fraude contra o Hotel Botanique, empreendimento de alto padrão localizado em Campos do Jordão, no interior paulista.
Segundo os autos, o episódio ocorreu em 2018. O investigado teria adquirido duas diárias avaliadas em aproximadamente R$ 9,2 mil, utilizado os serviços do hotel e posteriormente solicitado à operadora do cartão de crédito o cancelamento da cobrança sob a alegação de não reconhecer a compra.
A contestação resultou no estorno do valor pago ao estabelecimento.
Na ação judicial, o hotel sustenta que o próprio Felipe Linares esteve hospedado no local. A argumentação utiliza registros que relacionariam a reserva ao veículo utilizado pelo acusado, uma BMW registrada em seu nome, além da coincidência entre dados da hospedagem e do cartão utilizado na transação.
O processo segue tramitando e, segundo os registros judiciais, diversas tentativas de localização do investigado foram realizadas sem sucesso.
Captura ocorreu durante perseguição policial na Carolina do Norte
O episódio que levou à prisão ocorreu no estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.
Segundo o ICE, agentes realizavam uma abordagem de trânsito quando identificaram o brasileiro, que possuía ordem internacional de captura.
As autoridades americanas afirmam que Felipe Linares tentou fugir durante a ação e seguia em direção à fronteira com o México.
O órgão informou ainda que, durante a perseguição, o investigado mantinha a própria esposa dentro do veículo contra sua vontade.
A fuga terminou após uma colisão. Na sequência, os agentes realizaram a prisão e apreenderam uma arma de fogo, dinheiro em espécie e aparelhos celulares encontrados no automóvel.
Os detalhes do caso seguem sob análise das autoridades competentes.
Contexto internacional ampliou repercussão do caso
A repercussão da prisão também está relacionada ao momento vivido pelas relações de cooperação internacional no combate ao crime organizado.
Em maio deste ano, os Estados Unidos anunciaram a inclusão do PCC e do Comando Vermelho em listas associadas ao combate a organizações classificadas como terroristas.
A decisão ampliou a atenção das agências americanas sobre integrantes, suspeitos de colaboração e pessoas investigadas por vínculos financeiros com as facções.
A medida não foi acompanhada pelo governo brasileiro.
Autoridades nacionais argumentam que a legislação brasileira possui critérios específicos para enquadramento de terrorismo, exigindo elementos relacionados a motivações de discriminação, preconceito ou ações destinadas a provocar terror social generalizado.
Na avaliação do Ministério da Justiça e de integrantes da Secretaria Nacional de Segurança Pública, as facções criminosas brasileiras não se enquadram atualmente nos requisitos previstos pela Lei Antiterrorismo em vigor no país.
A prisão de Felipe Linares deve abrir uma nova etapa de cooperação entre autoridades brasileiras e americanas.
Além da análise sobre eventual extradição ou cumprimento das determinações judiciais brasileiras, investigadores acompanham a documentação utilizada pelos Estados Unidos para caracterizar o brasileiro como liderança do PCC e do Comando Vermelho.
Até o momento, não há confirmação pública de que órgãos brasileiros reconheçam essa classificação.
O caso permanece em andamento e novas informações poderão surgir à medida que os documentos oficiais da investigação internacional forem compartilhados entre os dois países.