A Apex Partners, grupo de assessoria e gestão de investimentos com atuação no Espírito Santo, acumula uma dívida de pelo menos R$ 985,6 milhões, segundo informações apresentadas pela própria empresa à Justiça. O valor consta de um pedido de tutela cautelar protocolado na Vara de Recuperação e Falência de Vitória em meio à crise financeira enfrentada pelo grupo.
A empresa solicitou proteção judicial após identificar inconsistências financeiras que ainda serão analisadas por uma auditoria externa. A Apex afirma que os valores apresentados no processo são preliminares e não representam necessariamente obrigações vencidas ou de pagamento imediato.
O grupo mantinha parceria com o BTG Pactual desde 2019, com distribuição de produtos financeiros. O contrato foi encerrado após o agravamento da crise. O banco também administrava um fundo da Apex, cujos resgates foram suspensos diante das dificuldades para liquidar determinados ativos.
Debêntures concentram maior parte da dívida
Entre os principais componentes do passivo estão aproximadamente R$ 452,1 milhões em debêntures. Os títulos ofereciam remuneração entre 110% e 130% do CDI e, em parte das operações, tinham como garantia ações de empresas pertencentes ao próprio grupo Apex.
De acordo com a documentação apresentada à Justiça, algumas dessas emissões possuem cláusulas de vencimento antecipado. A empresa avalia que isso poderia transformar dívidas de médio prazo em obrigações integralmente vencidas e exigíveis em poucos dias.
A Apex também informou que ainda não havia avaliação independente das ações usadas como garantia nem evidência de que todos os penhores tenham sido formalmente registrados.
Clientes concentram R$ 309,8 milhões em operações
Outro valor expressivo identificado na cautelar é um passivo de R$ 309,8 milhões relacionado a operações de cashback. O montante está distribuído em aproximadamente 1.600 posições de clientes e envolve produtos que ofereciam remuneração de até 125% do CDI.
Entre os investimentos citados no documento estão BRM Carbyne Voyage FIA, Carbyne Mercados Privados Feeder, Apex Cresc. Mercados Regionais Feeder, Apex Malls FII, Carbyne Privado e a Debênture NewSun WTE.
O processo também aponta um problema envolvendo o Grupo Gazin. Segundo a cautelar, havia um cronograma de dez parcelas mensais de aproximadamente R$ 7,9 milhões, iniciado em julho de 2026, mas a primeira parcela não teria sido paga.
Pedidos de resgate chegam a R$ 78,2 milhões
A Apex informou ainda a existência de aproximadamente R$ 78,2 milhões em pedidos de resgate de fundos regulados. As datas consideradas críticas estão concentradas entre 12 de agosto e 30 de setembro de 2026.
Segundo a documentação apresentada ao Judiciário, a concentração dos resgates poderia pressionar a empresa a vender ativos com baixa liquidez para conseguir atender aos investidores.
O processo também menciona a possibilidade de renúncia do Banco Daycoval como administrador fiduciário de um fundo relevante do grupo, em um cenário de suposto desenquadramento de liquidez e alocação.
Dívidas bancárias passam de R$ 200 milhões
O endividamento bancário informado pela Apex chega a R$ 201,7 milhões, envolvendo instituições como Sicoob, BTG Pactual e Banco Daycoval. Parte dessas obrigações conta com aval dos sócios e da própria Apex Partners.
Entre os débitos aparecem R$ 57,3 milhões com o Banco Daycoval, R$ 53,7 milhões com o Sicoob Sul-Serrano e outros R$ 45 milhões relacionados à BRM Apex Realty. Há ainda uma Cédula de Bancário de aproximadamente R$ 10,7 milhões com o BTG Pactual.
Além das dívidas financeiras, a empresa informa possuir aproximadamente R$ 35,2 milhões em débitos tributários.
Dívida líquida quase dobrou em 18 meses
A situação financeira também mostra forte crescimento do endividamento. Conforme os dados apresentados na cautelar, a dívida líquida consolidada passou de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026.
No primeiro semestre deste ano, o grupo teria contratado R$ 300 milhões em novas dívidas. Desse total, R$ 80 milhões estariam relacionados a déficit operacional, enquanto R$ 95 milhões corresponderiam a custos financeiros e fiscais.
A documentação também aponta que parte dos recursos levantados em 2025 foi destinada a aportes em fundos, veículos de investimento e operações de fusões e aquisições que não geraram retorno de caixa no período.
Ativos tiveram perda estimada em R$ 71,4 milhões
A cautelar também revela uma redução no valor recuperável da carteira de ativos do grupo. De uma posição nominal de R$ 261,5 milhões em 30 de junho de 2026, apenas R$ 190,1 milhões seriam recuperáveis em um eventual processo de desinvestimento.
A diferença chega a R$ 71,4 milhões, equivalente a 27,3% do valor nominal. O documento também menciona s de R$ 38,1 milhões considerados irrecuperáveis em 65 posições.
A Apex estima ainda um deságio de liquidez entre 30% e 60% sobre os ativos restantes, o que poderia ampliar as perdas em caso de uma liquidação forçada.
Justiça concede proteção e exige novo pedido
A tutela cautelar foi protocolada em 6 de agosto e concedida pela Justiça no dia seguinte. A decisão suspendeu ações de execução, prescrição de obrigações e medidas como retenção, arresto, penhora, sequestro, busca e apreensão sobre os bens das empresas abrangidas.
A proteção, porém, não alcança os patrimônios dos fundos de investimento e não interfere nas competências da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Anbima ou dos administradores fiduciários. Também ficaram fora determinados patrimônios separados vinculados à emissão de certificados de recebíveis e bens relacionados a projetos imobiliários específicos.
A Justiça determinou que o grupo apresente pedido de recuperação judicial em até 30 dias corridos, sob pena de perda da eficácia da cautelar. Um juiz também nomeou uma consultoria para elaborar, em 20 dias, um laudo sobre as condições de funcionamento e organização das empresas.
Apex diz que valores ainda serão auditados
Em nota, a Apex Partners afirmou que os números apresentados no processo ainda não são definitivos. Segundo a empresa, os valores não representam obrigações vencidas ou imediatas, mas compromissos de longo prazo.
A companhia também declarou que o impacto das inconsistências financeiras identificadas em apuração interna ainda será validado por auditoria externa. A empresa sustenta que a medida judicial tem caráter preventivo e busca preservar seu patrimônio e garantir a continuidade das atividades.
Apesar do volume do passivo, a decisão judicial não significa, neste momento, que a recuperação judicial tenha sido deferida. O processo trata de uma tutela cautelar antecedente, apresentada como preparação para uma eventual recuperação. O próprio juiz ressaltou que a medida não representa uma avaliação definitiva sobre a viabilidade futura da empresa.