Pouco tem se falado de como a política externa multilateralista do Brasil tem sido incrivelmente bem-sucedida no embate contra o unilateralismo de Donald Trump em sua guerra comercial. A política de assalto comercial de Washington tem catalisado um efeito contrário: grandes economias do Sul Global começam a coordenar suas respostas contra Washington, utilizando a Organização Mundial do Comércio (OMC), em um movimento que pode apontar para uma possível formação de resistência institucional.
Nesta segunda-feira, 10 de agosto, a China entrou na disputa Brasil-Trump e enviou à OMC um pedido para participar como terceira parte das consultas formais abertas pelo Brasil.
No dia 27 de julho, o governo brasileiro contestou na OMC as tarifas adicionais impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros, decorrentes das investigações conduzidas pelo USTR sob a Section 301 — uma investigação que teve entre seus principais articuladores políticos, do lado brasileiro, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
As consultas são a primeira etapa formal do mecanismo de solução de controvérsias da OMC. O país reclamante e o país acusado se reúnem para tentar resolver a questão antes da constituição de um painel. Se as consultas fracassarem, o Brasil pode pedir a criação de um painel depois de 60 dias.
O documento chinês é claro, e Pequim diz ter “interesse comercial substancial” na disputa porque as medidas americanas também afetam as condições de concorrência dos produtos chineses no mercado dos EUA, e pede para ser admitida nas consultas. Os EUA aceitaram o pedido brasileiro para realizar consultas na OMC. Para Washington, recusar as consultas não faria o caso desaparecer, mas poderia acelerar a passagem para a próxima etapa.
Carlos Martinez, coeditor-chefe da Friends of Socialist China no Reino Unido e autor de The East is Still Red, explica as várias nuances da estratégia chinesa, que vai muito além do senso comum, e elucida a importância da estratégia que vem sendo construída entre China e Brasil.
DCM: Por que a China contestaria tarifas de Trump no Brasil, das quais ela foi uma das maiores beneficiárias? De acordo com o South China Morning Post, a participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu para 9,4% no primeiro semestre de 2026, o menor nível desde 1997, enquanto a fatia da China subiu para 31,5%.
Carlos Martínez: Em um nível imediato e mais restrito, a razão é que essas tarifas também afetam as exportações chinesas. A sobretaxa de 12,5% foi imposta a cerca de 60 países sob o pretexto de que eles não estariam combatendo o trabalho forçado, o que, na prática, significa que eles não estariam sendo suficientemente efetivos em impedir que produtos vinculados a Xinjiang entrassem em suas cadeias de fornecimento. É justamente por isso, aliás, que houve uma nova onda de acusações difamatórias sobre o tratamento da população uigur de Xinjiang.
Em um nível mais amplo, a China é a maior nação comercial do mundo, e seu interesse estratégico está na sobrevivência de uma ordem multilateral na qual os EUA não possam simplesmente fazer o que quiserem. Um mundo em que Washington estabelece tarifas por decreto executivo, determina unilateralmente as violações e impõe penalidades sem qualquer autorização multilateral é um mundo muito perigoso para a China e para todos os países em desenvolvimento. Pequim vem questionando judicialmente exatamente esse ponto em relação à Section 301 do US Trade Act desde 2018. A entrada no caso brasileiro é, portanto, uma continuidade de uma posição jurídica que já dura oito anos.
No plano da geopolítica e do projeto de um mundo multipolar, o interesse da China é ter um Brasil verdadeiramente soberano, e não um Brasil subserviente a Washington.
DCM: Por que a China escolheu entrar nas consultas brasileiras na OMC? Que significado isso tem para o Brasil?
CM: A sobretaxa está fundamentada na alegação de trabalho forçado, e essa alegação é a pedra angular de toda a narrativa sobre Xinjiang. O Uyghur Forced Labor Prevention Act inverte a presunção de inocência: presume-se que os produtos provenientes de Xinjiang sejam produzidos com trabalho forçado, a menos que o importador consiga provar o contrário por meio de “evidências claras e convincentes”, o que, na prática, equivale a uma proibição generalizada. Estender essa lógica a terceiros países por meio de tarifas significa, na prática, globalizar um regime de sanções americano baseado em acusações não fundamentadas.
Para o Brasil, este é o primeiro grande teste para saber se um país importante do Sul Global pode utilizar o sistema multilateral contra Washington, em vez de simplesmente absorver o impacto.
DCM: Pouco se fala da estratégia da China e de seus mecanismos jurídicos contra a guerra econômica de Trump. O que se pode aprender com ela?
CM: Domesticamente, a Anti-Foreign Sanctions Law e as regras de bloqueio do MOFCOM, ambas de 2021, dão às entidades chinesas uma base jurídica para se recusarem a cumprir medidas extraterritoriais dos EUA e para processarem judicialmente por perdas e danos. Qualquer país pode fazer isso: tornar ilegal, em seu próprio território, o cumprimento de sanções estrangeiras consideradas ilegais.
A construção de alternativas também é parte fundamental da estratégia chinesa. O AIIB, o New Development Bank, o CIPS e os mecanismos de liquidação em moedas locais cumprem esse papel. Essa talvez seja a categoria mais importante, porque a jurisdição extraterritorial só é eficaz graças à predominância do dólar e ao fato de que as transações passam pelo sistema de compensação de Nova York.
DCM: Há um deslocamento de foco da política externa do Itamaraty da Europa e dos Estados Unidos para a China?
CM: A cultura das elites brasileiras certamente olhou historicamente para a Europa, como consequência de suas origens coloniais, e a diplomacia brasileira frequentemente acompanhou essa orientação. Mas a China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. O que estamos vendo não é tanto uma nova orientação quanto a política finalmente alcançando uma realidade econômica que já existe há duas décadas. Isso se combina com o fato de que os governos liderados pelo PT desde 2003 adotaram uma política externa mais multipolar e orientada à soberania.
O processo está sendo acelerado pela interferência política aberta de Washington. As tarifas foram explicitamente vinculadas ao processo contra Bolsonaro; Rubio descreveu as medidas como o preço do “ego de Lula”; e, em seguida, vieram as designações de organizações criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras. A mensagem era que o acesso ao mercado americano estaria condicionado à obediência política — inclusive no que diz respeito ao Judiciário brasileiro.
Compare-se a relação Brasil–EUA com a relação Brasil–China. As novas tarifas americanas isentam café, carne bovina, suco de laranja, petróleo e gás, enquanto atingem produtos manufaturados — um sistema tarifário concebido para manter o Brasil na parte inferior da cadeia de valor. A China, por outro lado, vem aprofundando sua cooperação com o Brasil em áreas como aeroespacial, satélites, inteligência artificial, processamento de minerais críticos e fertilizantes; recebeu o Brasil na World AI Cooperation Organisation e declarou apoio à soberania brasileira.
No fim das contas, a Doutrina Monroe funcionou porque os países latino-americanos não tinham para onde ir. Agora eles têm — e isso, mais do que qualquer cifra bilateral de comércio, é o que a multipolaridade realmente significa.