Aliados de Jair Bolsonaro voltaram a espalhar ataques a vacinas, máscaras e medidas de proteção contra a Covid-19 após a audiência de Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos. O ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas compareceu ao Congresso em 29 de julho e invocou mais de cem vezes a Quinta Emenda da Constituição americana, que protege uma pessoa da obrigação de produzir provas contra si. Com informações da Folha de S. Paulo.
O advogado de Fauci afirmou que o ex-assessor médico da Casa Branca está “amparado pela lei” e negou que o recurso constitucional represente admissão de culpa. Especialistas ouvidas pela BBC News Brasil destacaram que a decisão de não responder a perguntas não muda o conhecimento científico acumulado sobre imunizantes, máscaras ou tratamentos contra a doença.
O deputado federal Nikolas Ferreira, candidato à reeleição, publicou um vídeo que superou 37 milhões de visualizações no Instagram. Sem apresentar evidências, ele afirmou que diários pessoais de Fauci apontariam contradições entre conversas privadas e decisões públicas e disse que o médico teria ocultado um efeito adverso pulmonar depois de se vacinar.
Ao fim da gravação, Nikolas declarou: “Ou seja, tinha alguém que tinha razão. Jair Bolsonaro. Nada como o tempo”. Eduardo Bolsonaro também pediu que pessoas que responsabilizaram seu pai pela morte de parentes “pedissem desculpas”, enquanto o senador Magno Malta escreveu que as discussões nos Estados Unidos provariam que o ex-presidente e seus aliados estavam certos.
Olha esse absurdo!
O Nikolas Ferreira acaba de postar um vídeo espalhando fake news da extrema-direita norte-americana de que as vacinas da COVID foram feitas com partes de bebês. Em um país sério, ele perderia o mandato e seria preso por conspirar contra a saúde pública. https://t.co/2jm92oaIbc pic.twitter.com/AiKsozu9qf
— Julio Freiress (@JFreiress_) August 2, 2026
A infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, contestou as alegações difundidas pelos bolsonaristas. “Não ficou provado que as máscaras eram ineficazes. Os grandes ensaios clínicos não demonstraram benefício da ivermectina ou da hidroxicloroquina. E os efeitos adversos das vacinas foram monitorados, identificados e divulgados justamente pelos sistemas de vigilância de segurança”, afirmou.
Garrett explicou que cientistas investigaram os medicamentos no início da crise sanitária, mas ensaios clínicos maiores, randomizados e mais confiáveis não confirmaram os benefícios esperados. Ela também afirmou que invocar um direito constitucional “não transforma um medicamento ineficaz em eficaz e não apaga os resultados de milhares de estudos realizados em diferentes países”.
A especialista reconheceu que vacinas podem causar eventos adversos raros, como miocardite, sobretudo entre adolescentes e homens jovens após determinadas doses de imunizantes de RNA mensageiro. Ela ressaltou, porém, que esse risco não tornou as vacinas mais perigosas que a Covid-19 e que a revisão de falhas da pandemia não pode justificar a defesa de tratamentos ineficazes.
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello também divulgou vídeo para dizer que a narrativa da pandemia estaria sendo “desmontada” cinco anos depois. Ele afirmou que Bolsonaro defendia o direito ao trabalho e a autonomia médica, mas a cientista política Carolina Botelho avaliou que a retomada do tema busca mobilizar a base bolsonarista com uma pauta que mantém a polarização nas redes.
Para Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, a desinformação sobre a pandemia continuou a circular mesmo após o fim da emergência sanitária. “Não há nada de novo nos diários de Fauci que modifique o consenso científico. Eles mostram discussões, hipóteses e dúvidas próprias de um momento em que pesquisadores buscavam compreender uma doença desconhecida”, disse.