O deputado argentino Juan Grabois afirmou que o governo de Javier Milei estaria conduzindo um projeto para transformar a Argentina em um grande centro de experimentação tecnológica, com ampla flexibilização de regras em benefício de gigantes da tecnologia. As declarações foram feitas em entrevista ao apresentador Tomás Rebord, poucos dias antes da votação no Congresso de um pacote de incentivos voltado a grandes investimentos em inteligência artificial, centros de dados e infraestrutura tecnológica.
Grabois, que recentemente se reuniu com o bilionário Peter Thiel, disse que o chamado Super RIGI — um regime especial de incentivos para grandes projetos tecnológicos — vai muito além de benefícios fiscais. Segundo ele, a proposta também abriria caminho para a redução de controles regulatórios, permitindo experiências científicas em território argentino.
Na entrevista, o deputado afirmou suspeitar que empresas interessadas no novo regime “vão experimentar com os argentinos”. Ele também relembrou um debate com Milei antes da campanha presidencial sobre a comercialização de órgãos humanos, dizendo que o então candidato “sabia perfeitamente do que estava falando”.
Grabois voltou a sustentar a tese de que Milei chegou ao poder porque teria sido escolhido previamente por elites econômicas e tecnológicas para executar esse projeto de transformação do país.
Em uma comparação com o filme Gattaca (1997), o parlamentar afirmou que a Argentina pode caminhar para um cenário em que empresas adquiram grandes extensões de território e desenvolvam tecnologias de edição genética em seres humanos.
O deputado também fez uma das declarações mais alarmantes da entrevista ao afirmar que, em um país empobrecido, essas empresas poderiam buscar pessoas em situação de vulnerabilidade para utilizá-las em experimentos ou até na extração ilegal de órgãos. “Vão aos bairros mais pobres procurar indigentes e bater neles para tirar o fígado”, declarou.
Segundo Grabois, esse cenário estaria ligado ao desmonte da soberania nacional e à entrega de terras e recursos estratégicos para grandes corporações internacionais. Para ele, esse seria o destino lógico da corrente política conhecida como aceleracionismo, que defende acelerar os processos do capitalismo e da inovação tecnológica para provocar uma transformação radical da sociedade.
O parlamentar afirmou estar “absolutamente convencido” de que esse é o horizonte perseguido pelo governo Milei. Em sua avaliação, a aproximação com empresas como a Palantir e com aliados internacionais reforçaria esse projeto.
Grabois concluiu dizendo que a votação prevista no Congresso poderá definir se essas empresas terão autorização para ampliar significativamente sua presença na Argentina, adquirindo terras, água e outros recursos estratégicos. Na avaliação do deputado, caso a proposta avance, o país poderá entrar em uma fase sem precedentes de concentração de poder nas mãos de grandes corporações tecnológicas.