Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial, afirmou nesta segunda-feira (27) que Donald Trump tenta reconstruir uma “muralha” tarifária ao usar diferentes mecanismos legais para impor barreiras comerciais.
Canuto disse que Trump recorre a instrumentos legais para sustentar o tarifaço. “O que na verdade o Trump está fazendo é reconstruir aquela muralha [comercial], utilizando outros instrumentos legais. A Sessão 301, nós tivemos dois. O Brasil foi atingido, agora nesse tarifaço, via dois mecanismos legais”, afirmou em entrevista ao Uol. O economista também analisou as tarifas dos Estados Unidos contra o Brasil e sobre o artigo do presidente Lula (PT) no jornal “The Washington Post”.
O economista avaliou que o artigo de Lula não atrapalha as negociações com os Estados Unidos e teve repercussão inicial positiva. Para ele, as tarifas têm “caráter inteiramente arbitrário” e seguem uma linha política própria do governo Trump no comércio mundial.
Canuto citou Peter Navarro, assessor-chefe de Trump, ao explicar a lógica protecionista da Casa Branca. “A visão de mundo do Trump e dos assessores, tem o Peter Navarro, que é o assessor-chefe dele, por exemplo, é a de que o resto do mundo explora os Estados Unidos. Por isso que a lógica do Trump é tarifa para tudo”, disse.
Negociação e alcance das tarifas contra o Brasil
O ex-diretor do Banco Mundial afirmou que uma eventual retirada de tarifas já impostas dependeria de negociação. “Uma vez instaladas as tarifas, a remoção ou a redução virá apenas com processos de negociação. Mas o problema é que, na cabeça do Trump, mesmo quando ele negociou acordos, o que a União Europeia, Reino Unido e os asiáticos tiveram que aceitar não foi uma redução aos patamares de tarifas do passado”, declarou.
Questionado pela colunista Tatiana Farah sobre a chance de reversão das medidas, Canuto disse que o resultado dependeria do que os Estados Unidos colocariam na mesa como barganha. Ele avaliou que já houve tentativas de negociação antes, mas sem “boa vontade” da parte estadunidense.
Canuto afirmou que as tarifas não atingem a maior parte das exportações brasileiras e citou isenções em setores considerados estratégicos para os Estados Unidos. “Essas tarifas estão cobrindo apenas uma parcela, que não é majoritária das exportações, 18% das exportações brasileiras. E não é por acaso que coisas como partes de aviões, carnes, café ficaram fora, foram isentas dessas tarifas, porque isso não tem substituto adequado aqui dentro, não hoje”, disse.
Sobre a repercussão política do tarifaço no Brasil, Canuto rechaçou a hipótese de que Trump buscaria ajudar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em uma campanha presidencial. “O experimento já no ano passado mostrou que foi o contrário. O posicionamento de tarifas aumentou a popularidade do Lula. Como isso poderia ajudar o Flávio Bolsonaro? Seria um movimento tão estúpido que eu não creio que tenha essa relevância”, afirmou.