Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro revelou a existência de um acordo entre facções criminosas rivais que permitiu a criação de um corredor estratégico para o tráfico de drogas na Zona Oeste da capital. A descoberta aponta para uma articulação entre o Comando Vermelho (CV) e o Amigos dos Amigos (ADA), ampliando o alcance territorial das organizações.
Segundo as apurações, o entendimento entre os grupos possibilitou que integrantes do CV utilizassem áreas dominadas pela ADA como rota de circulação e planejamento de ações, incluindo investidas contra territórios controlados por milícias e pelo Terceiro Comando Puro (TCP). A informação foi revelada a partir de mensagens interceptadas durante a investigação.
Os diálogos analisados envolvem Carlos da Costa Neves, conhecido como Gardenal, apontado como operador do Comando Vermelho, e um integrante de milícia. Nas mensagens, ele afirma ter livre acesso à comunidade Jardim Novo, localizada em Realengo, na Zona Oeste do Rio.
A área é controlada por Lucas Apostólico da Conceição, o “Índio”, considerado foragido da Justiça. A partir dessa comunidade, o CV teria estruturado um corredor logístico que facilita o acesso a regiões como Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, além de áreas estratégicas como Taquara, Praça Seca e Itanhangá.
De acordo com a investigação, o acordo previa benefícios mútuos. Enquanto o CV utilizava o território como base de passagem e expansão, o grupo liderado por Índio teria garantia de não sofrer ataques, além de contar com apoio da facção em suas operações.
O delegado Alamberg Medeiros Miranda, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, afirmou que há indícios claros de cooperação entre organizações distintas para consolidar esse corredor criminoso na região.
A Zona Oeste do Rio de Janeiro é atualmente a única área da cidade onde atuam simultaneamente quatro forças criminosas: Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro, milícias e Amigos dos Amigos. A presença desses grupos intensifica a disputa territorial e eleva o nível de violência.
A comunidade Jardim Novo, em Realengo, é considerada estratégica por sua localização próxima a importantes vias de acesso e áreas sob domínio de diferentes facções.
Em abril, uma operação da 44ª DP (Inhaúma) cumpriu 24 mandados de prisão na região. Seis suspeitos foram detidos, mas o líder conhecido como Índio conseguiu fugir.
O grupo investigado também é apontado como responsável por crimes graves. Um dos casos ocorreu em janeiro, na comunidade da Light, em Realengo, onde três mulheres foram torturadas sob suspeita de desvio de dinheiro.
Uma das vítimas, Naysa Kayllany da Costa Borges Nogueira, não resistiu aos ferimentos após atendimento médico. O caso segue sob análise da Justiça, com mandados de prisão já expedidos.
Outro nome citado na investigação é Celso Luís Rodrigues, conhecido como Celsinho, apontado como liderança da ADA. Ele foi preso em maio de 2025, mas liberado após decisão judicial e responde em liberdade.
Considerado uma figura histórica do crime no estado, Celsinho já foi um dos mais procurados do Rio de Janeiro e cumpriu cerca de 25 anos de prisão por crimes como tráfico e homicídio. Segundo a polícia, ele teria atuado na articulação de alianças recentes com integrantes do Comando Vermelho.
Dados de inteligência indicam que, até março, o Comando Vermelho mantinha presença em 1.283 comunidades no estado, evidenciando a força da facção e a complexidade do combate ao crime organizado.
A investigação segue em andamento e pode revelar novos desdobramentos sobre a atuação conjunta de facções e milícias na Zona Oeste da capital fluminense.