A Polícia Federal afirma que o banqueiro Daniel Vorcaro utilizava uma estrutura criminosa composta por hackers, policiais e operadores ligados ao submundo do crime para monitorar, intimidar e atacar adversários, segundo documentos da investigação que embasaram decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).
De acordo com a apuração, o esquema era dividido entre dois núcleos conhecidos como “Os Meninos”, responsável pelas ações digitais, e “A Turma”, encarregada das operações físicas, incluindo ameaças, monitoramento presencial e acessos ilegais a sistemas.
Os relatórios da PF foram utilizados como base para mandados de prisão preventiva expedidos pelo ministro André Mendonça, do STF.
Hackers, inteligência artificial e monitoramento ilegal
Segundo as investigações, o braço tecnológico da organização atuava com ataques cibernéticos, produção de documentos falsos, espionagem digital e monitoramento de alvos considerados desafetos do banqueiro.
Entre os investigados está Victor Lima Sedlmaier, apontado como integrante do núcleo hacker. Ele foi preso em Dubai em uma operação conjunta envolvendo autoridades brasileiras, polícia local e a Interpol.
Em depoimento, Sedlmaier afirmou que prestava serviços de tecnologia ao grupo desde 2024, recebendo R$ 2 mil mensais mais bonificações.
A Polícia Federal suspeita que parte dos pagamentos também teria sido realizada por meio de duas drogarias nas quais ele possuía participação societária de 1%.
Segundo os investigadores, o comando operacional do núcleo digital era exercido por David Henrique Alves, de 23 anos, descrito como responsável pela coordenação dos hackers e pelo gerenciamento das operações tecnológicas.
A PF afirma que Alves recebia R$ 35 mil mensais. Ele está foragido desde quinta-feira (14).
No dia em que Daniel Vorcaro foi preso, em março deste ano, Alves foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal em Minas Gerais transportando um computador de mesa e três notebooks.
O veículo utilizado pertenceria a Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, investigado no caso e que morreu após cometer suicídio, segundo informações da investigação.
PF investiga falsificação de documento público
Outro ponto considerado grave pela investigação envolve a suposta falsificação de um documento do Ministério Público do Ceará (MP-CE).
Segundo a PF, hackers ligados ao grupo teriam produzido um ofício falso para solicitar a remoção de um perfil criado em nome da então noiva de Daniel Vorcaro em uma rede social.
O documento continha assinatura atribuída a uma servidora do órgão e teria sido enviado utilizando um e-mail institucional.
A investigação ainda tenta esclarecer se houve participação direta da funcionária pública citada.
De acordo com os relatórios, a plataforma digital não identificou a fraude e removeu o perfil no dia seguinte ao envio da solicitação.
Grupo físico teria envolvimento de policiais e bicheiros
Os investigadores afirmam que o núcleo conhecido como “A Turma” seria responsável pelas ações físicas de intimidação.
Segundo a Polícia Federal, o grupo era formado por policiais federais da ativa e aposentados, além de bicheiros e operadores ligados a milícias.
Os relatórios apontam que Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, teria participação no gerenciamento financeiro das operações destinadas à coação de adversários.
A defesa dele nega qualquer envolvimento ilegal.
Entre os investigados está Marilson Roseno da Silva, transferido para o Presídio Federal de Brasília após cumprir pena em Minas Gerais.
Segundo a investigação, um dos episódios considerados centrais pela PF envolve o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.
Mensagens obtidas pelos investigadores indicariam discussões sobre monitoramento e ataques contra o jornalista.
Em uma das conversas analisadas, Daniel Vorcaro teria enviado a mensagem: “preciso hackear esse Lauro”.
As mensagens indicariam ainda tentativas de aproximação via WhatsApp utilizando identidade falsa para envio de links maliciosos.
Segundo os investigadores, também existia planejamento para uma agressão física simulada durante um suposto assalto.
A investigação reúne ainda depoimentos de ex-funcionários ligados a propriedades e embarcações associadas ao banqueiro.
Luis Felipe Woyceichoski, ex-capitão de um iate de Vorcaro, afirmou ter sido procurado por homens armados em uma marina em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro.
Segundo o depoimento, o grupo utilizava roupas pretas e coturnos.
Posteriormente, um homem identificado como “Manoel” teria feito ameaças por telefone.
A Polícia Federal identificou o suspeito como Manoel Mendes Rodrigues.
Outro ex-funcionário, Leandro Garcia, relatou ter sido abordado em um hotel por dois homens ligados ao grupo investigado.
Ele afirmou ter reconhecido posteriormente Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, por meio de reportagens exibidas na imprensa.
Defesas negam irregularidades
A defesa de Victor Lima Sedlmaier informou que ainda não teve acesso integral aos autos da investigação e declarou que os fatos serão esclarecidos no decorrer do processo.
Os advogados também solicitaram a transferência do investigado para Minas Gerais.
Já a defesa de Henrique Vorcaro afirmou que ele nunca controlou grupos envolvidos em atividades ilícitas.
Segundo a nota apresentada pelos advogados, a Polícia Federal teria omitido contratos e diálogos relacionados a empreendimentos imobiliários no Rio de Janeiro.
A defesa sustenta que os pagamentos mencionados na investigação eram referentes a serviços legítimos de vigilância e negociação de terrenos.
A nota afirma ainda que o relator do caso no STF teria sido induzido ao erro por omissões no material apresentado.
A defesa de Daniel Vorcaro informou que não irá comentar os fatos investigados.
O caso ganhou forte repercussão nacional por envolver supostos ataques digitais, monitoramento ilegal, participação de agentes públicos e intimidações contra jornalistas e ex-funcionários.
A investigação segue em andamento e poderá resultar em novas diligências, análises de equipamentos apreendidos e aprofundamento sobre possíveis conexões financeiras e operacionais do grupo investigado.
As apurações também ocorrem em meio à crescente atenção sobre operações financeiras, negócios imobiliários e estruturas empresariais ligadas ao nome de Daniel Vorcaro.