Henrique Batista, de 36 anos, deixou as entregas de hambúrguer em Paraopeba (MG) para criar canais dark no YouTube com Inteligência Artificial (IA), apostando na monetização de vídeos produzidos sem mostrar o rosto ou usar a própria voz. Dois anos depois de iniciar a mudança, ele contou à BBC Brasil que conseguiu monetizar um canal e passou a investir em outros.
O ex-entregador comprou por cerca de R$ 400 um curso do youtuber Peter Jordan e começou a usar ferramentas de IA para escrever roteiros, gerar narrações e criar imagens. Após enfrentar chuva durante uma entrega, decidiu mudar de atividade. “Não quero mais isso para a minha vida”, relatou sobre aquele dia.
Os canais abordam assuntos que acompanham tendências de audiência, como civilizações antigas e histórias bíblicas. A receita depende de anúncios exibidos nos vídeos e varia conforme visualizações, perfil e localização do público. Para entrar no programa de monetização, o YouTube exige ao menos mil inscritos e 4 mil horas públicas assistidas nos últimos 12 meses.
A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da University College Dublin, afirma que a IA ampliou promessas antigas do marketing digital sobre trocar empregos tradicionais por autonomia e renda. Ela alerta que a tecnologia não transforma automaticamente um canal em negócio rentável: “Muitas pessoas vão desistindo. Quem faz sucesso é exceção”.
Desmonetizações atingem criadores de canais dark
Tai Squinalli, de 43 anos, disse que o YouTube deixou de remunerar, em janeiro, os cinco canais dark que administrava. Dois meses antes, ela havia faturado R$ 75 mil em um mês, valor que usou para se manter durante o período sem pagamentos da plataforma.
Depois da desmonetização, Tai trocou o nicho de histórias fictícias por canais de música e desenvolvimento pessoal em espanhol. Ela afirma ganhar hoje entre R$ 5 mil e R$ 10 mil mensais, embora trabalhe até 12 horas por dia, inclusive em noites e fins de semana. “Apesar de eu trabalhar muito, faço isso produzindo para mim”, disse.
O YouTube permite conteúdo gerado por inteligência artificial, mas afirma que combate materiais de baixa qualidade e exige que o resultado final seja original, apresente uma perspectiva autêntica e identifique alterações ou conteúdo sintético. A empresa também diz remover vídeos de IA marcados como voltados a crianças quando eles não atendem aos seus princípios de qualidade.
Peter Jordan, criador do canal Ei Nerd e vendedor de cursos sobre canais dark, defendeu em vídeo a produção acelerada mesmo quando a IA comete falhas nos roteiros. “Tem roteiro nosso que tem erro. Mas a gente não liga mais”, afirmou. Pesquisadores alertam que a falta de revisão pode estimular desinformação e a chamada “falsificação de conhecimento especializado”, sobretudo em temas de saúde, finanças e conteúdo infantil.