Pastores evangélicos que rejeitaram o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e passaram a defender posições progressistas relatam perda de convites, isolamento institucional e ataques nas redes sociais. Entre os nomes que descrevem esse processo estão o cantor e pastor Kleber Lucas, o líder batista Ed René Kivitz e Alexandre Gonçalves, da Igreja de Deus no Brasil.
Kleber Lucas afirma que antes recebia cerca de quatro convites por semana para cantar em igrejas batistas, presbiterianas, metodistas, pentecostais e neopentecostais. Conhecido por canções como “Deus Cuida de Mim” e “Aos Pés da Cruz”, ele diz que hoje quase não é chamado.
Alexandre Gonçalves, pastor há 32 anos, associa o afastamento ao período eleitoral. Ele diz que a resistência ao seu nome começou em 2014, quando declarou voto em Marina Silva, então no PSB, e se tornou definitiva em 2018, quando afirmou que não apoiaria Bolsonaro. “A partir dali perdi tudo”, disse à Folha de S.Paulo.
Gonçalves relata que colegas o chamavam de “pastor comunista” e “petista”, embora diga nunca ter pertencido a esses grupos. Para não depender apenas da igreja, ele prestou concurso para a Polícia Rodoviária Federal. O pastor também contou que um amigo precisou morar com a família em um carro depois de ser expulso de uma casa pertencente à igreja por não apoiar Bolsonaro.
Expulsão de Kivitz e pressão em entidades batistas
Ed René Kivitz, líder da Igreja Batista de Água Branca, afirma que seu afastamento ocorreu primeiro por críticas à transformação de igrejas em empreendimentos e à centralidade da pauta de costumes. A oposição ao bolsonarismo, segundo ele, consolidou a ruptura com parte do meio evangélico.
Em 2021, a Ordem dos Pastores Batistas do Brasil expulsou Kivitz após ele defender uma leitura contemporânea da Bíblia e classificá-la como um “livro insuficiente” para responder a questões atuais. O presidente da entidade, Riedson Filho, afirmou que os mais de 16 mil filiados podem ter posições diversas, mas precisam respeitar princípios bíblicos e doutrinários comuns.
Kivitz disse que recebia convites diários para pregar e que hoje organizadores cancelam participações após pressões. Ele também relata ataques digitais e orientações de líderes para que fiéis não acompanhem suas pregações ou redes sociais. Para o pastor, houve casos de professores afastados de seminários, missionários sem mantenedores e pastores demitidos por divergências políticas ou teológicas.
O pastor Ricardo Gondim, da Igreja Betesda, atribui parte dos conflitos ao fundamentalismo religioso e diz ter sido chamado de herege por questionar premissas da teologia sistemática, como a ideia de que Deus controla todos os acontecimentos. “O cancelamento foi tão radical que perdi amigos”, afirmou.
Kleber Lucas diz que passou a enfrentar hostilidade após recusar púlpitos simpáticos a Bolsonaro. Em 2022, ele regravou “Deus Cuida de Mim” com Caetano Veloso e ganhou projeção entre evangélicos progressistas. No pleito atual, integra como suplente a chapa ao Senado da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ).
O pastor Sérgio Dusilek deixou a presidência da Convenção Batista Carioca semanas antes do primeiro turno de 2022, após discursar em um evento evangélico da campanha de Lula (PT). Na ocasião, chamou Bolsonaro de “presidente nefasto” e afirmou que “a igreja evangélica tem que pedir perdão ao presidente Lula”. Ele diz ter sofrido um “bloqueio institucional”, mas relata que ampliou seu público fora da estrutura denominacional.
Felipe Gibran, pastor que se define como de esquerda, afirma receber ataques tanto de setores conservadores quanto de grupos que rejeitam sua identidade evangélica. Ele contou o caso de um pastor que recusou apoiar Bolsonaro ou Fernando Haddad (PT) em 2018 e, segundo seu relato, perdeu 11 famílias de sua igreja.