O tarifaço de Trump, incitado pelos Bolsonaros, é tão movido por desinformação e ficções que produziu um efeito inesperado: empurrou importantes segmentos da elite econômica e liberal ocidental a manifestarem-se explicitamente em defesa do Brasil e de Lula, e contra a irracionalidade de Trump e dos Bolsonaros.
Lula não está sozinho, nem mesmo na Europa e nos Estados Unidos. A lógica de ingerência de Trump e dos Bolsonaros, operada dentro de um delírio de grandeza, provocou uma ruptura até mesmo com as regras tradicionais do livre comércio e das relações entre aliados. O tarifaço parece ter acelerado uma convergência estratégica entre os interesses pragmáticos de uma parcela dominante do bloco capitalista do Norte e a estratégia diplomática de Lula de expor o custo internacional de qualquer tentativa de desestabilização e de interferência na integridade e na soberania das eleições brasileiras.
Horas depois de a tarifa de 25% entrar em vigor, o chanceler Wang Yi reafirmava, em Manila, o apoio de Pequim à soberania brasileira.
A grande imprensa corporativa
A revista britânica The Economist — pilar do capital liberal anglófono e longe de qualquer alinhamento ideológico com a esquerda de qualquer lugar do mundo — publicou uma peça em defesa do Pix brasileiro, classificando a ofensiva de Trump e dos Bolsonaros como irracional e desmontando, uma a uma, as premissas falsas utilizadas como base técnica para a tarifação do Brasil.
A Economist afirma ser falso que o sistema constitua um instrumento protecionista, uma vez que suas regras não distinguem empresas nacionais de estrangeiras, não impõem discriminações às empresas americanas e seguem padrões regulatórios perfeitamente compatíveis com o papel desempenhado por bancos centrais em qualquer economia moderna.
A revista chega a apontar a causa real da tarifação: “a preocupação mais profunda do governo Trump talvez seja que o Pix se torne um modelo para o resto da América Latina, corroendo os lucros das bandeiras de cartão americanas e sua influência em toda a região”. E, de fato, da Europa à Ásia, governos e bancos centrais discutem ou implementam infraestruturas nacionais de pagamentos instantâneos que compartilham a lógica consolidada com sucesso pelo sistema brasileiro.
A Economist, que raramente personaliza uma análise comercial em torno de um parlamentar estrangeiro, identifica, no entanto, nominalmente Flávio Bolsonaro como um dos articuladores dessa estratégia. Descrito como alguém “ligado a um vasto escândalo de fraude”, a revista menciona sua proposta de impedir a integração do Pix com China e Rússia, classificando-a como um gesto de subserviência a Trump que acabaria representando um “presente eleitoral a Lula”, ao reforçar sua imagem como defensor da soberania brasileira diante desses ataques.
O Financial Times também enquadrou as tarifas contra o Brasil como uma política que aumenta a incerteza, afetam aliados tradicionais e representa uma ampliação do protecionismo de Trump, com impactos negativos para empresas e mercados. O Wall Street Journal reconheceu numa reportagem que as ações de Trump como uma tentativa de influenciar as eleições brasileiras e observa que analistas avaliam que a interferência externa pode acabar fortalecendo Lula politicamente.
Lula no Washington Post
No dia seguinte após o Washington Post publicar uma matéria sobre a ingerência americana — revelando o envio, por Trump, de dois emissários encarregados de produzir um dossiê destinado a descredibilizar o sistema eleitoral brasileiro — o jornal publicou uma carta de Lula a Trump, intitulada “Ninguém irá nos derrotar com mentiras”, em resposta aos ataques incessantes da aliança Trump-Bolsonaros.
Mais do que responder a Trump, Lula dirigia-se ao principal público do jornal: a elite política, econômica e diplomática que formula e administra o poder americano — membros do Congresso, do Departamento de Estado e do Pentágono, think tanks, diplomatas, investidores, a imprensa e a própria elite internacional.
Lula internacionalizou o custo da ingerência de Trump, levando a disputa para dentro do próprio establishment americano, que já vem demonstrando crescente insatisfação com essa estratégia. Trump deixa, agora, de enfrentar apenas o governo brasileiro. A aparência de poder incontestável que projeta sobre as Américas — e da qual os Bolsonaros dependem para sustentar sua narrativa política — começou a mostrar fissuras.
Essas fraturas passaram a manifestar-se dentro e fora do próprio establishment americano justamente em relação ao Brasil, a maior economia da América Latina. Não por acaso, Xi Jinping reafirmou publicamente que a China reconhece a “importância e influência internacional” do Brasil e apoia seus esforços para “salvaguardar sua soberania e independência” e “opor-se à interferência externa”, reconhecendo o país como um importante membro do Sul Global e um parceiro estratégico na construção de uma ordem internacional multipolar.
A empresariado americano
A convergência não se limitou à imprensa liberal. Na audiência pública do Comitê da Seção 301 do USTR (United States Trade Representative), realizada em 6 e 7 de julho de 2026 para discutir a legalidade das tarifas contra o Brasil, a diretora da Public Citizen (Melinda St. Louis, Global Trade Watch), em manifestação conjunta com a Data Privacy Brasil, afirmou que o Pix não viola a Seção 301, não discrimina empresas americanas e que a investigação é “politicamente motivada”.
A resistência estendeu-se ao próprio empresariado americano. Na mesma audiência, 43 empresas e associações comerciais dos Estados Unidos — entre elas a National Coffee Association — solicitaram a exclusão de diversos produtos brasileiros das tarifas, argumentando que não existem substitutos domésticos para esses produtos, que as medidas elevariam os custos das empresas americanas e que esses aumentos acabariam sendo repassados aos consumidores dos Estados Unidos.
As críticas também chegaram ao Congresso. Durante audiências no Senado, parlamentares como Elizabeth Warren e Raphael Warnock questionaram duramente a política tarifária de Trump contra o Brasil e seus impactos econômicos.
O pesadelo americano: a China
O efeito mais grave da estratégia de Trump e dos Bolsonaros talvez tenha sido o de escala geopolítica. Ao tentar punir o Brasil, Washington acabou acelerando precisamente o cenário que há décadas procura evitar: a consolidação da influência chinesa na América Latina.
Em sua manifestação como testemunha perante o USTR, o próprio Flávio Bolsonaro acabou admitindo que induziu a administração Trump a erro: “os dados de 2025 mostram que essas tarifas não produziram os resultados pretendidos pelos Estados Unidos” e que “o comércio do Brasil com a China atingiu o recorde de US$ 171 bilhões, mais que o dobro dos US$ 83 bilhões com os Estados Unidos”. Apesar de não se capaz de articular, a ideia que ele tenta expressa é eloquente: “cada tarifa adicional fortalece exatamente o governo que Trump pretende pressionar”.
O Pix foi denunciado, em 2025, pelos Bolsonaros e por Paulo Figueiredo à Casa Branca como um problema para os interesses comerciais americanos, sob a alegação de que determinadas práticas brasileiras nesse setor seriam irrazoáveis e restringiriam o comércio dos Estados Unidos, deflagrando a investigação e a audiência pública do USTR.
O maior erro, e ausência estratégica de Trump e dos Bolsonaros talvez tenha sido imaginar que a pressão econômica produziria isolamento internacional de Lula. Ao transformar uma disputa política brasileira em um caso de ingerência internacional, passaram a colidir não apenas com o governo brasileiro, mas com interesses econômicos, diplomáticos e estratégicos de parcelas importantes do próprio Ocidente.