O Mar Cáspio, o maior lago do mundo, tornou-se o mais novo palco da guerra entre Rússia, Ucrânia e Irã. A região ganhou importância estratégica após o bloqueio dos portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã, transformando-se em uma rota vital para o comércio e para a cooperação militar entre Moscou e Teerã.
No último fim de semana, a Ucrânia afirmou ter atingido com drones duas embarcações russas que transportavam cargas militares no Mar Cáspio. Segundo Kiev, os navios haviam partido do Irã com destino a um porto russo.
Em publicação na rede X, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, declarou que os alvos incluíam “navios envolvidos no transporte de cargas militares do Irã, além de um navio de guerra”. Posteriormente, o serviço de segurança da Ucrânia identificou um dos alvos como uma embarcação russa equipada com mísseis.
Ukraine continues applying long‑range sanctions in response to Russian strikes. Last night, the warriors of our Defense Forces hit targets across different regions of Russia that are fueling this war.
Once again, a plant in Kirov was struck – the one supplying components for the… pic.twitter.com/D0Z6bFRiww
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) July 25, 2026
O Irã contestou a versão ucraniana. Teerã afirmou que uma embarcação comercial iraniana carregada de minério de ferro foi atingida durante a operação, provocando a morte de um tripulante e deixando outros três feridos.
O navio, cujo nome não foi divulgado pelas autoridades iranianas, navegava entre o porto russo de Astrakhan e o porto iraniano de Anzali. O governador da província iraniana de Guilã, Hadi Hagh-Shenas, classificou a rota como “um corredor seguro e confiável para as trocas comerciais entre os dois países”.
Irã ameaça responder
A tensão aumentou ainda mais na segunda-feira, quando o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, advertiu que “o perigoso aventureirismo da Ucrânia certamente não ficará sem resposta”. Ao mesmo tempo, o encarregado de negócios da Ucrânia em Teerã foi convocado pelo governo iraniano para prestar esclarecimentos.
Por que o Mar Cáspio se tornou tão importante?
Cercado por Rússia, Irã, Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão, o Mar Cáspio ganhou enorme relevância estratégica desde que o acesso marítimo iraniano ao sul passou a enfrentar restrições.
Segundo o analista Bijan Khajehpour, da consultoria Eurasian Nexus Partners, a rota permite ao Irã diversificar seu comércio internacional, fortalecendo ligações com Rússia, Cáucaso, Ásia Central, China e, de forma indireta, com o Leste Europeu.
Embora não substitua completamente os portos do sul do país, o Cáspio tornou-se um complemento estratégico essencial para a economia iraniana.
Pela região circulam produtos como aço e grãos russos, além de petróleo e gás provenientes do Cazaquistão. O Irã também ampliou a infraestrutura de portos importantes, como Anzali.
Para Moscou, o Mar Cáspio representa uma ligação fundamental com o Irã e a Ásia Central, servindo de eixo para a crescente parceria estratégica entre os dois países, que envolve cooperação militar, energia nuclear civil e exploração de petróleo.
Por ser um mar fechado, controlado majoritariamente por países fora da influência naval ocidental, a rota também é menos vulnerável às sanções internacionais.
Corredor para armas entre Irã e Rússia
O Mar Cáspio tornou-se uma das principais vias de transporte da cooperação militar entre Moscou e Teerã.
Foi por essa rota que a Rússia recebeu, no início da guerra da Ucrânia, os primeiros lotes de drones iranianos Shahed, posteriormente produzidos em fábricas instaladas em território russo.
A região já havia sido alvo de operações ucranianas anteriormente. Em agosto do ano passado, o cargueiro Port Olya 4 foi destruído quando, segundo relatos, transportava componentes dos drones Shahed-136 e munições iranianas.
Em 2024, autoridades americanas afirmaram que outro cargueiro russo, o Port Olya-3, foi utilizado para transportar mísseis balísticos de curto alcance do Irã para a Rússia. À época, o então secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, declarou que Moscou havia recebido mísseis Fatah-360 iranianos destinados à guerra na Ucrânia.
O Conselho de Segurança Nacional dos EUA também alertou para o aprofundamento da cooperação militar entre os dois países. O Irã, entretanto, negou ter fornecido armamentos à Rússia.
O objetivo da Ucrânia
Os ataques ucranianos demonstram o avanço da capacidade de Kiev de realizar operações de longo alcance contra infraestrutura considerada estratégica para o esforço de guerra russo.
Ao atingir embarcações e instalações energéticas no Mar Cáspio, a Ucrânia busca interromper as cadeias de abastecimento militar que ligam Rússia e Irã, além de aumentar o custo logístico da guerra para Moscou.
A ofensiva também ocorre em um momento politicamente sensível. Zelensky viaja nesta semana a Washington para se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Além dos ataques no Cáspio, o presidente ucraniano afirmou que serviços de inteligência de seu país identificaram o compartilhamento de dados de satélite pela Rússia ao Irã, supostamente utilizados para planejar ataques contra instalações americanas no Oriente Médio.