A discussão sobre a ganhou um novo argumento de peso. Vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010, o economista Christopher Pissarides afirmou que trabalhar menos horas pode aumentar a produtividade e não deve provocar impactos significativos sobre a inflação, desde que a mudança seja implementada com flexibilidade e adaptada às características de cada setor da economia.
Professor da London School of Economics (LSE) e da Universidade de Chipre, Pissarides esteve no Rio de Janeiro para participar da 25ª Conferência Anual da Sociedade para o Avanço da Teoria Econômica (Saet), realizada na sede do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). A visita coincide com o debate no Brasil sobre o fim da escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de descanso.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o economista também analisou os impactos da inteligência artificial (IA) sobre o mercado de trabalho e afirmou que a tecnologia deverá transformar profissões, mas não provocará uma eliminação em massa de empregos.
Menos horas podem significar mais produtividade
Para Pissarides, a redução da jornada acompanha uma tendência observada há décadas nas economias desenvolvidas, impulsionada pelo avanço da produtividade e pelo crescimento da renda.
Segundo ele, trabalhadores costumam aproveitar parte desse ganho econômico na forma de mais tempo livre, movimento que hoje alimenta debates em diversos países europeus sobre a adoção da semana de quatro dias.
Ao comentar os efeitos da redução da carga horária, o Nobel foi direto:
“Diria que, mais do que possível, é provável que a produtividade aumente se você souber que tem menos horas para trabalhar.”
Na avaliação do economista, a experiência internacional mostra que jornadas menores podem incentivar trabalhadores a utilizar melhor o tempo disponível, aumentando a eficiência por hora trabalhada.
“Na verdade, não é incomum que a produtividade por hora aumente quando você reduz as horas [de trabalho]. Penso que essa foi a experiência na França.”
Fim da escala 6×1 exige flexibilidade
Embora veja benefícios na redução da carga horária, Pissarides afirma que não existe um modelo único capaz de atender todos os setores da economia.
Segundo ele, mudanças dessa natureza precisam considerar as características específicas de cada atividade econômica e evitar regras excessivamente rígidas.
“Nunca se pode dizer de forma geral que isso é bom ou que não é bom. Depende de muitas outras condições.”
O economista lembrou que a quantidade de horas trabalhadas já vem diminuindo ao longo das últimas décadas em diversos países.
“Não há dúvida de que, historicamente, as horas de trabalho têm caído. Há 20 anos costumávamos trabalhar mais horas durante o ano. Há 50 anos, muito mais.”
Para ele, a distribuição dessas horas é resultado de escolhas econômicas e sociais.
“Como você divide essas horas é uma questão de escolhas sociais, é uma questão de política. Estou ciente das controvérsias no Brasil.”
Pissarides alertou, porém, que negociações excessivamente inflexíveis podem dificultar a adaptação das empresas.
“Acho que as grandes discussões controversas não são realmente justificadas, a menos que haja outras condições associadas a isso, como negociação sindical que pode se tornar muito inflexível quanto a se trabalhar cinco, seis, quatro ou qualquer outro número [de dias].”
Na Europa, segundo ele, o debate já avança para a possibilidade de jornadas de quatro dias por semana.
“Agora, na Europa, há muito debate sobre ir de cinco dias para quatro dias, porque as pessoas preferem ter mais tempo de folga. Há uma controvérsia sobre isso, por causa da forma como a remuneração será afetada.”
Mesmo assim, reforçou que o mais importante é preservar a flexibilidade.
“Mas você tem que ter cuidado para não tornar isso muito rígido, se vão ser cinco [dias], menos ou mais. Você tem que permitir alguma flexibilidade aí.”
Nem todos os setores podem seguir o mesmo modelo
Na avaliação do economista, atividades ligadas ao turismo, transporte, hotelaria e restaurantes exigem uma organização diferente da adotada em escritórios.
“Penso que é preciso ter mais flexibilidade sobre isso. Se você pegar trabalhadores da indústria de hospitalidade [turismo], principalmente os de restaurantes, transporte, hotéis, obviamente esses não deveriam folgar nos mesmos dias em que os trabalhadores de escritórios folgam. Você tem que organizar isso de forma diferente.”
Para ele, o sucesso de uma eventual redução da jornada depende justamente dessa capacidade de adaptação entre diferentes segmentos da economia.
IA vai transformar empregos, mas não eliminar o trabalho
Outro tema abordado pelo Nobel foi o avanço da inteligência artificial. Pissarides reconhece que a tecnologia substituirá parte dos empregos atuais, especialmente aqueles ocupados por profissionais em início de carreira, mas acredita que o cenário está longe das previsões mais pessimistas.
“Acho que o maior risco é a incerteza que cerca a IA, porque ela pode substituir empregos, e vai substituir alguns. Mas não penso que vai ser uma devastação completa de empregos, como algumas pessoas estão prevendo.”
Ao mesmo tempo, ele vê oportunidades importantes para trabalhadores e empresas.
“E [a IA] também pode ser uma ferramenta que ajuda a mão de obra a se tornar mais produtiva, a trabalhar menos horas, com maior produtividade, maior remuneração e mais tempo para passar na praia.”
Segundo Pissarides, os profissionais mais afetados atualmente são aqueles que ocupam cargos de entrada, já que sistemas baseados em grandes modelos de linguagem passaram a executar tarefas antes atribuídas a funcionários iniciantes.
“Começou a ser usada extensivamente para preparar relatórios, realizar tarefas simples, como reservar passagens, e operar bots [robôs] que atendem ligações.”
“Esses trabalhos são feitos por pessoas [de nível] júnior tradicionalmente. Já estão sendo substituídos, talvez 30%, olhando para as vagas de emprego que estão sendo anunciadas. Acho que isso vai crescer.”
Por outro lado, profissionais mais experientes tendem a ampliar sua produtividade com auxílio dessas ferramentas.
“Os cargos de nível sênior. Porque eles ganharam agentes de IA para ajudá-los, que são mais eficientes e muito mais rápidos do que pessoas [de nível] júnior.”
Redução da jornada não deve pressionar a inflação
Um dos principais argumentos contrários à redução da jornada é o possível aumento da inflação e dos custos para as empresas. Pissarides, entretanto, discorda dessa avaliação.
“Realmente não acredito que [a redução] geraria inflação. Pode gerar algum realinhamento de preços, mas não seria significativo. Já ouvi o argumento da inflação antes. Nunca acreditei realmente [nele].”
Segundo o economista, fatores como conflitos internacionais e oscilações nos preços de matérias-primas têm influência muito maior sobre a inflação do que mudanças na jornada de trabalho.
“Inflação é uma questão diferente. É uma questão para o banco central gerenciar com sua política monetária. A inflação depende do custo de matérias-primas como petróleo, por exemplo, cujo preço internacional pode subir por causa do que está acontecendo no Oriente Médio [guerra no Irã].”
“Esse tipo de coisa vai causar inflação. Mas reduzir horas de trabalho em um país não acho que vá gerar inflação. O banco central deveria ser capaz de gerenciar os preços nessa situação.”
Quem é Christopher Pissarides
Nascido em Chipre e naturalizado britânico, Christopher Pissarides tem 78 anos e é uma das maiores referências mundiais em economia do trabalho. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2010 por suas contribuições à teoria dos mercados de trabalho, especialmente em estudos sobre desemprego, criação de vagas e funcionamento do mercado laboral.
Atualmente, é professor da London School of Economics e da Universidade de Chipre, além de atuar como pesquisador em temas ligados ao futuro do trabalho, produtividade e impactos econômicos da inteligência artificial.