A disputa pelo controle de comunidades entre facções do tráfico e grupos milicianos elevou a violência na Zona Sudoeste do Rio. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que a letalidade violenta na área atendida pelo 18º BPM, responsável por bairros como Jacarepaguá, Taquara, Praça Seca e Rio das Pedras, aumentou 61% até junho deste ano.
Foram registradas 124 mortes violentas no período, contra 77 no mesmo intervalo de 2025. O indicador reúne homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção de agentes do Estado. As apreensões de drogas também avançaram, passando de 81 para 151 ocorrências.
Na terça-feira (11), um confronto no Tanque terminou com dois homens mortos e um terceiro ferido. Segundo a Polícia Militar, traficantes ligados ao Comando Vermelho teriam atirado contra um carro na Estrada do Cafundá. O sobrevivente foi levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge e tinha mandados de prisão em aberto.
No veículo, policiais do 18º BPM encontraram uma pistola calibre .40, carregadores de fuzis e pistolas, munições de diferentes calibres, uma luneta, rádios comunicadores e um celular. O automóvel também constava como roubado. A suspeita é de que os ocupantes tivessem ligação com uma milícia local.
Cerco reforça policiamento em Rio das Pedras
Em Rio das Pedras, no Itanhangá, policiais foram acionados depois que um homem baleado deu entrada no Lourenço Jorge. Informações preliminares apontaram que ele teria sido atingido durante um confronto entre grupos criminosos rivais. A Polícia Militar não informou se o homem participava da disputa.
A escalada da violência levou à criação do chamado “Cerco Rio das Pedras”. Um documento de 10 de agosto estabeleceu um esquema operacional específico para reforçar a segurança no bairro, permitindo ações preventivas e repressivas durante diferentes horários. O reforço começou no dia 11 e contempla dez ruas.
A medida inclui a Rua Araticum, que ganhou notoriedade em 2023 após uma sequência de execuções. A região é alvo de uma disputa antiga entre o Comando Vermelho e grupos milicianos pelo domínio territorial.
Segundo levantamento da plataforma Fogo Cruzado, 1.000 pessoas foram baleadas na Região Metropolitana do Rio desde o início do ano até quarta-feira (12). Desse total, 537 morreram. Entre as vítimas estão oito crianças, sendo três mortas e cinco feridas. No mesmo período de 2025, foram contabilizados 1.010 baleados.
Disputa pelo território se espalha
A ofensiva do Comando Vermelho não se concentra apenas em Rio das Pedras. A facção também disputa áreas nas Vargens e no Terreirão, no Recreio, além de comunidades em Campo Grande e Guaratiba. Na Zona Norte, há confrontos em regiões como Cordovil e Andaraí, com diferentes grupos criminosos envolvidos.
Em Jacarepaguá, levantamentos citados em reportagens anteriores apontaram que 19 comunidades distribuídas por 14 bairros que eram controladas por milícias passaram para o domínio do Comando Vermelho. A expansão envolve não apenas o comércio de drogas, mas também atividades econômicas exploradas nos territórios.
Segundo a Polícia Civil, o controle dessas áreas também pode facilitar a movimentação de integrantes da facção pela Região Metropolitana e ampliar o acesso a pontos estratégicos, como os portos de Itaguaí e do Rio e a Baía de Guanabara.
Dados do ISP mostram, ainda, que a violência ocorre em meio a problemas de infraestrutura. Na Taquara, uma entidade filantrópica encaminhou pedido urgente ao 18º BPM relatando as condições da Rua Cônego Felipe, citando problemas no asfalto, falta de iluminação e aumento da sensação de insegurança.
Violência também preocupa moradores
O cenário de disputas territoriais tem afetado diretamente a rotina de moradores de bairros da Zona Sudoeste. Confrontos armados, mortes e operações policiais passaram a ocorrer em áreas onde grupos criminosos tentam ampliar seus domínios.
A atuação policial busca conter essas disputas e impedir o avanço das organizações criminosas. O reforço em Rio das Pedras ocorre justamente em uma região considerada estratégica dentro da disputa entre tráfico e milícia.
A Polícia Civil aponta Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, como um dos principais nomes ligados à expansão do Comando Vermelho. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, ele é alvo de 45 mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça.