O jornalista Celso Lungaretti, ex-militante da luta armada contra a ditadura militar, morreu neste sábado (18), aos 75 anos, em São Paulo. Sua trajetória reuniu resistência ao regime, atuação na imprensa, defesa dos direitos humanos e uma longa batalha para contestar a acusação de que teria delatado um acampamento da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Lungaretti estava internado havia 21 dias no HCor, na capital paulista, após quebrar o fêmur direito em um acidente doméstico. Ele passou por uma cirurgia corretiva no início de julho, mas complicações pós-operatórias agravaram seu estado de saúde.
Nascido em São Paulo, ingressou ainda jovem no movimento estudantil e na resistência ao regime militar. Entrou para a VPR em 1969, aos 18 anos, junto de seis amigos. Dois deles foram assassinados antes de completar dois anos de militância e os outros cinco acabaram presos.
Lungaretti foi capturado em 16 de abril de 1970 e permaneceu 75 dias sob a custódia do Exército. Em entrevista ao DCM em 2024, relatou que sofreu sessões de pau de arara, choques elétricos e espancamentos. “No meu terceiro dia preso, depois de ter passado por várias sessões de pau de arara, choques e espancamentos, o médico segredou algo ao ouvido do oficial, que ordenou que não me torturassem mais. Talvez eu estivesse próximo de morrer”, contou.
As agressões deixaram sequelas permanentes. Um tapa dado pelo cabo Marco Antônio Povorelli rompeu seu tímpano e provocou a perda da audição do ouvido direito. Lungaretti passou por três cirurgias e sofreu durante anos com crises de tontura e labirintite. Ele também descreveu consequências emocionais após deixar a prisão, como comportamento agressivo e a busca constante por situações de risco.
Durante o período em que esteve preso, Lungaretti foi obrigado a escrever manifestos e conceder entrevistas renegando sua militância e condenando a resistência armada. “Jamais disparei um tiro, nunca feri ninguém, mas os cartazes de ‘procurados’ me acusavam de ter roubado e assassinado vários pais de família”, afirmou ao DCM.
Acusação sobre a VPR marcou sua vida
Uma das maiores disputas de sua biografia envolveu a acusação de que ele teria revelado aos militares a localização do campo de treinamento da VPR no Vale do Ribeira, comandado por Carlos Lamarca. A versão, repetida por antigos militantes e em parte da literatura sobre a ditadura, fez com que Lungaretti fosse tratado durante décadas como traidor.
O jornalista sempre negou a acusação. Sustentava que, sob tortura, falou sobre uma área de treinamento já abandonada havia dois meses e que não conhecia o acampamento efetivamente cercado pelo Exército durante a Operação Registro. Segundo ele, seu nome foi usado como “bode expiatório” para preservar dirigentes do grupo.
Em 2004, o historiador Jacob Gorender reconheceu publicamente que Lungaretti havia fornecido informações apenas sobre a área desativada e não sabia onde estavam Lamarca e os demais integrantes da VPR. A revisão ocorreu após a revelação de um relatório militar secreto e foi recebida pelo jornalista como uma reparação tardia a uma das maiores injustiças de sua vida.
Formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Lungaretti construiu carreira no jornalismo e manteve sua militância em defesa dos direitos humanos e do pensamento crítico. Em 2005, publicou “Náufrago da Utopia: vencer ou morrer na guerrilha aos 18 anos”, relato autobiográfico sobre a resistência, a prisão e a tortura. O título também batizou o blog que escreveu por quase duas décadas.
Nos últimos anos, trabalhava em “Náufrago da Utopia 2”, já concluído e em fase de edição. Também citava entre suas principais batalhas a luta pela própria anistia e a campanha pela libertação do escritor italiano Cesare Battisti. Lungaretti deixa a esposa, Nadja, e as filhas Luana e Laura. O velório será realizado na terça-feira (21), no Cemitério São Pedro, na Zona Leste de São Paulo.