A poucos dias do início oficial da campanha eleitoral, um estudo inédito revela uma mudança significativa na forma como a circula no Brasil. Se antes as notícias falsas eram marcadas principalmente por informações completamente inventadas, hoje o principal desafio está nas chamadas “meias verdades” — conteúdos baseados em fatos reais, mas apresentados de maneira incompleta, descontextualizada ou manipulada para induzir o eleitor ao erro.
O levantamento — produzido pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, e divulgado pelo jornal O Globo — aponta que essa modalidade de desinformação cresceu de forma expressiva entre as eleições de 2016 e 2024, tornando mais difícil tanto o trabalho das agências de checagem quanto a capacidade do eleitor de distinguir informações confiáveis em meio ao intenso fluxo de conteúdo nas redes sociais.
As conclusões fazem parte do relatório inédito “Anatomia da Desinformação Eleitoral – Como a mentira e os boatos políticos evoluíram no Brasil entre 2016 e 2026”, que será divulgado nesta segunda-feira (27). O estudo analisou todo o acervo de verificações produzidas pela Agência Lupa ao longo das cinco últimas campanhas eleitorais.
Meias verdades substituem mentiras explícitas
Segundo a pesquisa, o fenômeno conhecido internacionalmente como malinformação tornou-se uma das principais estratégias utilizadas para influenciar o debate político.
Ao contrário da desinformação baseada em fatos completamente falsos, a malinformação utiliza informações verdadeiras ou parcialmente verdadeiras, mas retira dados do contexto original, omite informações relevantes ou estabelece relações enganosas entre acontecimentos distintos.
Esse tipo de conteúdo é mais difícil de identificar porque parte de elementos reais para construir interpretações distorcidas.
De acordo com o levantamento, a participação das meias verdades nas checagens eleitorais da Agência Lupa passou de 11,7% em 2016 para 18,9% em 2024, praticamente dobrando em oito anos. No mesmo período, conteúdos totalmente inventados perderam espaço entre as principais formas de desinformação política.
Para os pesquisadores, essa mudança representa uma sofisticação das estratégias utilizadas para influenciar a opinião pública durante os períodos eleitorais.
Checagem exige investigações mais complexas
O pesquisador Maiquel Rosauro, responsável pelo estudo, afirma que a mudança também tornou mais difícil o trabalho das equipes de verificação de fatos.
“Essa transformação torna o trabalho de verificação mais complexo. Enquanto uma afirmação completamente falsa costuma ser refutada com evidências objetivas, conteúdos baseados em meias verdades exigem maior investigação, contextualização e explicações mais detalhadas. Também impõem um desafio adicional ao eleitor, que precisa dedicar mais atenção para identificar quando informações verdadeiras estão sendo usadas de maneira enganosa.”
Segundo o pesquisador, esse cenário exige que os cidadãos não apenas verifiquem a veracidade de uma informação, mas também analisem seu contexto, origem e forma de apresentação antes de compartilhá-la ou utilizá-la para formar opinião.
Desinformação migra para as “zonas cinzentas”
Outro dado destacado pelo levantamento mostra que, durante quase todo o período analisado, conteúdos classificados como exagerados, distorcidos ou descontextualizados superaram aqueles enquadrados simplesmente como “Falso”.
A única exceção ocorreu durante a campanha eleitoral de 2022.
Na avaliação da Agência Lupa, isso demonstra que a desinformação política passou a operar cada vez mais em áreas de difícil identificação, explorando interpretações parciais, comparações enganosas, omissões de informações relevantes e manipulações de fatos verdadeiros.
Em vez de fabricar acontecimentos inexistentes, a estratégia consiste em selecionar apenas parte da realidade para construir narrativas capazes de influenciar o debate público.
Esse modelo torna o processo de checagem mais demorado e aumenta a dificuldade do eleitor em reconhecer conteúdos potencialmente enganosos.
Eleitor precisa redobrar atenção durante a campanha
Com o início oficial da campanha eleitoral se aproximando, os pesquisadores alertam que a circulação desse tipo de conteúdo tende a aumentar nas redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas digitais.
A principal recomendação é que os eleitores busquem informações em s confiáveis, consultem diferentes veículos de comunicação e verifiquem o contexto de declarações, vídeos e imagens antes de compartilhá-los.
Segundo o estudo, a evolução da desinformação mostra que o desafio atual não está apenas em identificar mentiras evidentes, mas também em reconhecer quando fatos verdadeiros são utilizados de forma seletiva para induzir interpretações equivocadas.
Nesse cenário, a capacidade de analisar criticamente as informações e buscar contexto passa a ser um elemento fundamental para que o eleitor forme sua opinião com base em dados consistentes durante o processo eleitoral.