Durante décadas, a Itália foi vista como referência mundial em alimentação saudável graças à dieta mediterrânea. Hoje, porém, o país enfrenta uma realidade bem diferente: crianças e adolescentes italianos estão entre os que apresentam os maiores índices de excesso de peso da Europa, em um cenário que especialistas classificam como uma grave crise de saúde pública. As informações são da BBC.
O contraste é especialmente evidente no sul da Itália. Na região da Campânia, mais de 40% das crianças entre oito e nove anos estão acima do peso em algumas localidades. A situação é tão crítica que o bairro de Ponticelli, na periferia de Nápoles, passou a ser conhecido como uma das capitais mundiais da obesidade infantil.
Um dos casos retratados pela reportagem é o de Salvatore, de 17 anos, que pesa 170 quilos. Ele tem dificuldade para caminhar, não consegue amarrar os próprios sapatos e sua motocicleta Vespa já teve os pneus estourados diversas vezes por não suportar seu peso.
Segundo sua mãe, o adolescente “come o tempo todo”. Como seu estado de saúde torna arriscada uma cirurgia bariátrica, os médicos decidiram iniciar o tratamento com medicamentos da classe GLP-1 para reduzir o apetite e permitir que ele perca peso antes de uma futura operação.
O fim da dieta mediterrânea
A Itália ficou conhecida mundialmente pela dieta mediterrânea, baseada no consumo de frutas, verduras, legumes, azeite de oliva, cereais integrais e peixes. O modelo ganhou fama internacional após pesquisas realizadas nos anos 1950 pelo fisiologista americano Ancel Keys e pela bioquímica Margaret Keys, que associaram esse padrão alimentar aos baixos índices de doenças cardiovasculares observados no sul italiano.
Hoje, porém, essa tradição está desaparecendo.
De acordo com o médico Valter Longo, diretor do Instituto de Longevidade da Universidade do Sul da Califórnia, apenas cerca de 10% dos italianos ainda seguem a dieta mediterrânea de forma consistente.
Segundo ele, a alimentação moderna no país passou a ser dominada pelos chamados “cinco Ps”: pizza, pasta, patate (batatas), proteine e pane (pão).
A mudança pode ser vista nas ruas italianas, onde alimentos ultraprocessados dividem espaço com pizzas cobertas por batatas fritas, linguiça e diversos alimentos fritos.
Crianças cada vez mais obesas
O pediatra Roberto Berni Canani, especialista em obesidade da Universidade Federico II, em Nápoles, afirma que atende crianças de apenas dois ou três anos pesando cerca de 25 quilos.
Segundo ele, muitos pais sequer percebem que os filhos apresentam obesidade. Frequentemente procuram atendimento médico por problemas como tosse, dores abdominais ou distúrbios digestivos, sem associar esses sintomas ao excesso de peso.
O médico destaca que o problema não está em uma refeição isolada, mas no padrão alimentar diário: consumo frequente de alimentos ultracalóricos, bebidas açucaradas e baixa ingestão de frutas, verduras e legumes.
Além disso, fatores culturais contribuem para o problema. Em muitas famílias italianas, especialmente no sul do país, crianças “gordinhas” ainda são vistas como saudáveis, dificultando o reconhecimento precoce da obesidade.
Escolas tentam mudar hábitos
Escolas da região da Campânia passaram a participar de programas de educação nutricional voltados para alunos e suas famílias. Mais de 17 mil estudantes de 25 escolas participarão de oficinas sobre alimentação saudável organizadas pela Fundação Valter Longo.
A expectativa é que as crianças levem esse conhecimento para casa e influenciem também os hábitos dos pais.
Nem todos, porém, acreditam que apenas a informação seja suficiente para mudar comportamentos. Muitos adolescentes reconhecem que conhecem os riscos da má alimentação, mas admitem que continuam preferindo alimentos altamente calóricos.
Obesidade passa a ser tratada como doença
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a obesidade uma epidemia global em expansão. Atualmente, mais de um bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo, enquanto os casos entre crianças quadruplicaram desde 1990.
Em 2025, a Itália tornou-se o primeiro país a aprovar uma lei nacional que reconhece oficialmente a obesidade como uma doença crônica, progressiva e recorrente, deixando de tratá-la apenas como consequência de escolhas individuais.
Na Campânia, pesquisadores também testam novas estratégias de tratamento, incluindo uma dieta que imita períodos de jejum para adolescentes acima do peso. A iniciativa, no entanto, divide especialistas. Enquanto alguns defendem que a restrição calórica pode promover uma “reinicialização metabólica”, outros alertam para o risco de transtornos alimentares e problemas psicológicos em jovens.
Enquanto isso, adolescentes como Salvatore aguardam a chance de recuperar a saúde e uma vida mais próxima da normalidade, em um país que já foi símbolo mundial da alimentação saudável, mas hoje luta para conter o avanço da obesidade infantil.