A psicóloga Cláudia Serathiuk, de 54 anos, atende brasileiros que foram lutar na Guerra da Ucrânia e acompanha relatos de combatentes expostos a situações de violência extrema. Nascida em Curitiba, no Paraná, ela é neta de ucranianos e desenvolve uma trajetória ligada à psicologia clínica, à psicanálise e aos estudos sobre migração, trauma e conflitos.
Formada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1994, Cláudia também possui mestrado em Psicologia Clínica pela mesma instituição, concluído em 2023. Desde 2014, dedica-se exclusivamente ao atendimento clínico em consultório particular, com adolescentes e adultos, baseado na escuta psicanalítica.
A psicóloga iniciou sua formação em psicanálise ainda durante a graduação e passou por instituições no Brasil e no exterior, como a Associação Psicanalítica de Curitiba, a École Expérimentale de Bonneuil, na França, e o Espace Analytique de Paris. Em 1996, trabalhou na École Expérimentale de Bonneuil sob supervisão de Maud Mannoni, em uma atuação com crianças e adolescentes psicóticos e autistas.
Além do consultório, Cláudia acumulou experiências em diferentes áreas de atendimento psicológico. Ela trabalhou com bebês em risco, adolescentes em conflito com a lei, pacientes em sofrimento psíquico grave, migrantes, refugiados e famílias.
Entre 2006 e 2013, idealizou e coordenou a Bisbilhoteca, uma livraria e espaço cultural voltado para a infância em Curitiba. O projeto reunia literatura, teatro, artes visuais e atividades relacionadas à construção de subjetividade.
Entre 2018 e 2022, participou como colaboradora do projeto de extensão Migração e Processos de Subjetivação (MOVE), da Universidade Federal do Paraná. A iniciativa envolvia atendimentos, grupos de estudo e ações de formação voltadas para redes de apoio a migrantes e refugiados.
Desde 2022, Cláudia atua como psicóloga voluntária na ONG Humanitas Brasil–Ucrânia, onde oferece atendimento a refugiados ucranianos e a combatentes brasileiros envolvidos na guerra. A experiência também passou a integrar sua pesquisa acadêmica sobre trauma e os impactos psicológicos de conflitos armados.
Em entrevista, a psicóloga relatou que os atendimentos envolvem relatos de violência extrema vivida pelos brasileiros no território ucraniano. “São coisas tão terríveis que eu nem tenho coragem de repetir. É nauseante”, afirmou.
Segundo Cláudia, até o momento ela atendeu dez brasileiros que estavam na guerra ou haviam retornado ao Brasil. Ela também formou um grupo de cinco psicólogos para oferecer atendimento voluntário a familiares de brasileiros mortos no conflito.
A pesquisadora afirma que muitos combatentes chegam ao atendimento com dificuldades relacionadas ao sono, medo constante e sinais de forte impacto emocional. Ela relata que alguns atendimentos foram realizados enquanto brasileiros ainda estavam na Ucrânia, inclusive próximos às áreas de combate.
Cláudia também pesquisa os motivos que levam jovens brasileiros a se alistarem em uma guerra estrangeira. Para ela, parte dos casos está relacionada ao desejo de pertencimento, ao militarismo e à busca por reconhecimento social.
“Esses jovens, em geral, sonhavam em ser militares, entrar para o Exército. Desconfio que isso tem a ver com a valorização social do militarismo no Brasil nesses últimos anos, que aqui se relaciona com a ascensão da extrema direita”, declarou.
A psicóloga também analisa o papel das redes sociais no recrutamento de combatentes. Segundo ela, conteúdos publicados em plataformas digitais podem transformar a guerra em uma espécie de espetáculo e influenciar jovens interessados em temas militares.
“Há uma estética de guerra nas redes sociais. As pessoas querem tirar selfie indo para a guerra. Há influencers nas guerras, e isso gera engajamento. Jovens querem ir para a Ucrânia para lutar e para conseguir seguidores, porque isso é uma moeda de reconhecimento social. A guerra vira espetáculo, e não é na deepweb, é no Instagram, no TikTok”, afirmou.
Mestre em Psicologia Clínica pela UFPR, Cláudia também é pesquisadora do Núcleo de Estudos da Ucrânia, da Universidade de São Paulo (USP), e integrante da Rede Interamericana de Pesquisas em Psicanálise e Política (RedIPPol). Sua experiência com brasileiros envolvidos na guerra deve servir como base para um doutorado sobre as razões que levam esses jovens ao conflito.