Em uma extensa reportagem, o New York Times revela que o presidente eleito da Colômbia, Abelardo De La Espriella, foi investigado por procuradores federais dos Estados Unidos no caso contra o empresário colombiano Alex Saab, acusado de atuar como operador financeiro do regime venezuelano de Nicolás Maduro.
Embora nunca tenha sido denunciado criminalmente, ele aparece no centro de uma rede de personagens ligados ao chamado mercado da “narcodefesa” em Miami — escritórios especializados em representar traficantes latino-americanos que negociam acordos de colaboração com as autoridades americanas.
A vitória de De La Espriella marca uma guinada na política colombiana. Sem experiência anterior em cargos públicos, ele venceu as eleições de junho após receber o apoio explícito de Donald Trump e prometeu endurecer o combate ao narcotráfico, ampliar extradições para os Estados Unidos e intensificar a cooperação militar com Washington.
De La Espriella viveu durante anos em Miami levando um estilo de vida marcado por mansões, carros de luxo, jatinhos particulares, ternos italianos e empreendimentos voltados ao público de alto padrão.
Entre os negócios que manteve estavam um piano bar, uma loja de bebidas, uma marca própria de rum e uma grife de roupas masculinas. Também chegou a atuar como influenciador digital, apresentador de podcast e cantor amador de ópera.
Seu contador, Daniel Díaz de la Rocha, afirmou ao jornal que, apesar da aparência de riqueza, muitos dos empreendimentos fracassaram financeiramente e que sua principal de renda continuava sendo o escritório de advocacia na Colômbia.
O elo com Alex Saab
O cliente mais conhecido de De La Espriella foi Alex Saab, empresário colombiano acusado pelos Estados Unidos de lavar milhões de dólares para o governo de Nicolás Maduro.
Segundo o advogado, Saab o procurou inicialmente para lidar com problemas de reputação após reportagens que questionavam contratos milionários obtidos junto ao governo venezuelano.
Quando as investigações americanas começaram, De La Espriella afirma ter aconselhado Saab a cooperar com autoridades dos EUA e organizado reuniões com agentes federais. O empresário recusou a estratégia.
Em 2019, quando Saab passou a sofrer sanções dos Estados Unidos, De La Espriella afirma ter encerrado oficialmente a relação profissional.
O New York Times relata que promotores federais de Nova York e da Flórida examinaram o papel de De La Espriella durante as investigações sobre o fluxo internacional de dinheiro ligado a Saab.
Cinco pessoas com conhecimento direto do caso disseram ao jornal que o presidente eleito foi alvo de apuração, embora o foco exato da investigação permaneça desconhecido.
Um ex-funcionário de seu escritório, Jorge Luis Hernández, posteriormente confessou participação em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo mais de US$ 2,5 milhões provenientes das contas internacionais de Saab.
Segundo documentos judiciais, os recursos serviam para pagar advogados americanos responsáveis por representar Saab e acompanhá-lo em reuniões com autoridades dos Estados Unidos.
Os nomes dos advogados foram mantidos sob sigilo nos processos e não há indicação de que eles tenham participado do esquema criminoso.
Ex-traficante trabalhava para seu escritório
Outro aspecto destacado pela reportagem envolve Jorge Luis Hernández. Ex-integrante do narcotráfico colombiano e posteriormente informante da DEA, a agência antidrogas americana, Hernández atuou como assistente de De La Espriella em Miami, segundo pessoas ouvidas pelo jornal.
Antes disso, havia participado do transporte de cocaína para grupos paramilitares colombianos e era conhecido por aproximar grandes traficantes de escritórios especializados em defesa criminal nos Estados Unidos.
Durante a campanha presidencial, fotografias dos dois juntos reacenderam críticas da oposição.
O senador Iván Cepeda chegou a afirmar que De La Espriella mantinha uma “estreita relação” com Hernández e questionou sua capacidade para governar o país.
Ainda no início da carreira, De La Espriella defendeu que grupos paramilitares colombianos fossem reconhecidos como atores políticos e representou políticos acusados de manter relações com essas organizações.
As forças paramilitares surgiram para combater guerrilhas de esquerda, mas posteriormente passaram a controlar parte significativa do narcotráfico colombiano e foram responsabilizadas por massacres e graves violações de direitos humanos.
Depois de anos vivendo entre Miami e a Itália, De La Espriella retornou à Colômbia em 2025 decidido a disputar a Presidência.
Durante a campanha abandonou a imagem de advogado sofisticado e passou a aparecer usando chapéu de palha, camisa da seleção colombiana e discurso populista centrado na segurança pública.
Seu principal compromisso eleitoral foi justamente declarar guerra aos grupos armados e aos traficantes — muitos dos quais, ironicamente, fizeram parte do universo profissional em que construiu sua carreira como advogado.