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Diários do dr. Fauci expõem bastidores da pandemia e alimentam reação de bolsonaristas

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Diários do dr. Fauci expõem bastidores da pandemia e alimentam reação de bolsonaristas

Os diários do médico Anthony Fauci, um dos principais responsáveis pela política de saúde pública dos Estados Unidos durante a pandemia de Covid-19, voltaram ao centro do debate político após sua divulgação pelo senador republicano Rand Paul. As mais de mil páginas de anotações, escritas entre 2019 e 2022, vieram a público poucos dias antes de Fauci comparecer ao Senado americano, onde invocou a Quinta Emenda da Constituição dos EUA e se recusou a responder às perguntas dos parlamentares.

Fauci comandou por décadas o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) e foi o principal conselheiro dos presidentes Donald Trump e Joe Biden durante a pandemia. Tornou-se um dos cientistas mais conhecidos do mundo ao aparecer diariamente nas coletivas da Casa Branca em 2020, defendendo medidas como distanciamento social, uso de máscaras, fechamento temporário de escolas e campanhas de vacinação.

Ao longo da pandemia, transformou-se também em uma das figuras mais polarizadoras da política americana. Para seus defensores, foi um servidor público que buscou orientar a população com base nas evidências científicas disponíveis. Para seus críticos, simbolizou o excesso de restrições, decisões equivocadas e a resistência a tratamentos defendidos por setores conservadores.

Fauci se cala diante do Senado

Na audiência realizada nesta quarta-feira (29), Fauci decidiu não responder às perguntas formuladas pelo senador Rand Paul, um dos republicanos que mais o confrontaram desde 2020.

Antes de invocar a Quinta Emenda, Fauci afirmou que Paul desenvolveu uma “obsessão” por tentar processá-lo e acusou o senador de fazer comentários difamatórios contra ele durante anos.

Rand Paul reagiu dizendo que a recusa poderia trazer consequências e afirmou que impedir uma investigação do Congresso viola a lei americana. Em outro momento da audiência, um dos advogados de Fauci foi retirado da sala por ordem do senador após tentar intervir sem autorização.

O que mostram os diários

Os diários foram divulgados por Rand Paul com a alegação de que revelam diferenças entre aquilo que Fauci dizia publicamente e o que registrava em privado.

Entre as passagens que mais chamaram atenção está uma anotação de maio de 2020 na qual Fauci descreve sua rápida transformação em celebridade.

Ele escreveu que sua fama havia se tornado “explosiva e realmente inimaginável” e afirmou acreditar que talvez fosse “a pessoa mais famosa e comentada do país e uma das mais reconhecidas do mundo”.

Em outra anotação, relatou que a imprensa publicava diariamente diversas reportagens sobre ele.

Fauci também registrou que começaram a surgir inúmeros produtos com sua imagem, incluindo canecas, abridores de garrafa, ímãs de geladeira e até velas representando um fictício “São Fauci”. Em outro trecho comenta que chegou a receber convite para participar do programa Dancing With the Stars, o equivalente americano do “Dança dos Famosos”, convite que recusou.

Apesar disso, escreveu que considerava toda aquela idolatria exagerada.

“Toda essa parafernália em torno de mim está ficando realmente ridícula.”

As críticas a Donald Trump

Uma parte significativa dos diários é dedicada ao relacionamento de Fauci com Donald Trump durante os primeiros meses da pandemia.

As anotações mostram um cientista frequentemente frustrado com o então presidente.

Fauci escreve que Trump interrompia reuniões importantes para falar sobre índices de audiência da televisão e outros assuntos sem relação com a pandemia.

Em março de 2020, registrou que tentava manter o presidente focado nas informações sobre o coronavírus enquanto Trump desviava constantemente a conversa.

Em abril daquele ano, descreveu as entrevistas coletivas da Casa Branca como um verdadeiro “show de horrores”, afirmando que Trump divagava diante das câmeras.

À medida que a campanha presidencial avançava, o tom tornou-se ainda mais duro.

Fauci escreveu que Trump estava “fora de controle”, chamando-o de “um completo constrangimento” por, segundo ele, espalhar informações falsas durante os comícios eleitorais.

Em outro trecho, classificou o então presidente como “incorrigível”, afirmando que Trump continuava distorcendo dados científicos mesmo após ser alertado diversas vezes.

Os diários também mostram que Fauci tentou convencer Trump de que minimizar a gravidade da Covid-19 poderia prejudicar suas chances de reeleição.

Segundo o médico, ele argumentou que enfrentar o problema desde o início seria politicamente menos danoso do que ignorar o avanço do vírus, ainda que isso provocasse impactos temporários na economia e na Bolsa de Valores.

Fauci registra, porém, que Trump ignorou repetidamente seus conselhos e voltou a minimizar a doença já no dia seguinte às conversas.

Fechamento de escolas gera nova polêmica

Outro trecho explorado pelos republicanos trata do fechamento das escolas.

Em entrevista concedida em 2022, Fauci afirmou que não havia determinado o fechamento das redes de ensino.

No entanto, uma anotação de março de 2020 afirma que ele convenceu o então prefeito de Nova York, Bill de Blasio, a fechar as escolas da cidade e também bares e restaurantes.

No mesmo registro, escreveu que conversou com Ann O’Leary, chefe de gabinete do governador Gavin Newsom, e que a Califórnia tomou decisões semelhantes após acompanhar suas declarações públicas.

Bolsonaristas dizem que Jair foi injustiçado

A divulgação dos diários repercutiu entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que passaram a afirmar que os documentos demonstram que o golpista foi injustamente acusado durante a pandemia.

Um dos comentários mais compartilhados nas redes sociais dizia: “Quando é pra servir à narrativa chamam o Bolsonaro de genocida. Mas se fosse pra considerar alguém realmente genocida, alguém que realmente tomou decisões sabendo que iam dar merda e matar milhões, esse alguém se chama Anthony Fauci. Tudo pra favorecer as big pharma. Criminoso.”

Outra publicação afirmava: “Bolsonaro estava certo.” Na sequência, a autora sustentava que Fauci teria alegado de forma fraudulenta que a ivermectina não funcionava para permitir o uso emergencial das vacinas contra a Covid-19. A postagem citava uma série de números que, segundo ela, demonstrariam benefícios do medicamento, incluindo redução da mortalidade, das hospitalizações e dos casos da doença.

De acordo com este documento da DARPA (Agencia Americana que cuida de pesquisas e Projetos avançados de Defesa-Defense Advanced Research Projects Agency ) datado de 13 de agosto de 2021, eles sabiam naquela época:
– A Covid veio de um laboratório
– Que as ‘vacinas’ de mRNA… https://t.co/8jl2nC72T5

— Osmar Terra (@OsmarTerra) July 29, 2026

Debate sobre ivermectina continua

O consenso das principais organizações internacionais de saúde permanece o mesmo desde o fim da pandemia.

Entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a FDA e o CDC afirmam que as evidências disponíveis não demonstraram benefício clínico consistente que justificasse a recomendação rotineira da ivermectina para tratar a Covid-19, embora estudos individuais tenham produzido resultados divergentes ao longo dos últimos anos.

Durante toda a pandemia, Bolsonaro foi um dos principais defensores do chamado tratamento precoce, enquanto Fauci tornou-se o símbolo da estratégia baseada em vacinação em massa e medidas de contenção do vírus.

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