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CLT mantém preferência entre jovens, mas busca por autonomia muda relação com o trabalho

Por 3 min de leitura Expresso Rio
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A relação dos brasileiros com o trabalho formal passa por uma transformação, impulsionada pela busca por maior autonomia, flexibilidade de horários e possibilidade de ampliar a renda. Embora discursos nas redes sociais frequentemente apresentem a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como um modelo ultrapassado, especialistas avaliam que não é possível afirmar que os jovens estejam simplesmente abandonando a carteira assinada para abrir mão de direitos trabalhistas. Dados recentes, inclusive, apontam que o vínculo formal continua sendo valorizado por uma parcela expressiva dessa população.

Levantamento divulgado pela Serasa Experian em maio deste ano mostrou que 78,7% dos brasileiros que procuram emprego preferem uma vaga no regime CLT. Entre integrantes da chamada Geração Z, a preferência chega a 92,6%, enquanto entre os millennials alcança 86,8%. Os números indicam que estabilidade e previsibilidade continuam relevantes, principalmente para quem está no início da trajetória profissional.

O que estaria mudando, segundo especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, é o significado atribuído ao emprego formal. O pesquisador Rodrigo Rodríguez avalia que a CLT deixou de representar, para parte das novas gerações, um objetivo definitivo de vida profissional e passou a funcionar como uma espécie de ponto de partida. Nesse cenário, aspectos como crescimento mais rápido, aumento da renda, possibilidade de trabalhar de diferentes lugares e maior controle sobre a própria rotina ganham espaço nas decisões profissionais.

A expansão de modalidades de trabalho como prestação de serviços e atuação como microempreendedor individual (MEI), no entanto, também levanta uma discussão sobre a chamada pejotização. É importante diferenciar a contratação empresarial legítima de situações em que uma pessoa é formalmente contratada como pessoa jurídica, mas exerce, na prática, uma relação com características típicas de emprego. A Justiça do Trabalho analisa cada caso individualmente e pode reconhecer vínculo quando estiverem presentes elementos como pessoalidade, remuneração, habitualidade e subordinação jurídica.

Para a economista Carla Beni, outra mudança está relacionada ao espaço ocupado pelo trabalho na vida das pessoas. Na avaliação apresentada à Sputnik Brasil, gerações anteriores mantinham uma ligação mais intensa entre identidade pessoal e profissão, enquanto trabalhadores mais jovens tendem a buscar maior equilíbrio entre carreira, família, lazer e qualidade de vida. A professora de economia Cristina Helena Pinto de Mello também pondera que não necessariamente foi a CLT que perdeu importância, mas o próprio significado social do emprego formal que passou por alterações.

Mello associa parte dessa transformação às mudanças tecnológicas e aos efeitos observados no mercado de trabalho após a pandemia, período que ampliou modalidades remotas e flexibilizou determinadas atividades, ao mesmo tempo em que aumentou a percepção de sobrecarga em algumas profissões. Assim, o debate atual parece ir além de uma escolha entre “ser CLT” ou “ser empreendedor”: envolve remuneração, proteção social, perspectivas de carreira, autonomia e qualidade das condições oferecidas pelas empresas.

Os dados disponíveis, portanto, não sustentam uma conclusão generalizada de que os jovens estejam rejeitando a carteira assinada. Ao contrário, a preferência pelo regime CLT permanece elevada entre aqueles que buscam emprego. O que as análises indicam é uma mudança nas expectativas: estabilidade e direitos continuam valorizados, mas passam a dividir espaço com demandas por flexibilidade, desenvolvimento profissional, melhor remuneração e maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

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