O avanço do capital estrangeiro sobre projetos de terras raras no Brasil reacendeu o debate sobre soberania mineral, desenvolvimento tecnológico e impactos ambientais. Levantamento conjunto da Repórter Brasil e da Associated Press, realizado a partir dos registros da Agência Nacional de Mineração (ANM) até junho de 2026, identificou 2.727 requerimentos de pesquisa, dos quais 42% estão vinculados a empresas estrangeiras ou companhias com participação de capital do exterior. Austrália, Estados Unidos e Canadá aparecem entre os países com maior presença.
Os números mostram ainda que 86% dos requerimentos foram protocolados desde 2023, evidenciando uma corrida recente pelos minerais. Embora empresas ligadas a capital estrangeiro representem apenas 12% dos titulares identificados pelo levantamento, elas concentram 42% dos pedidos e 31 dos 45 processos considerados mais avançados, entre projetos em operação ou em fase anterior à produção comercial.
Especialistas ouvidos na apuração ressaltam, entretanto, que a presença de investidores estrangeiros não significa, por si só, perda de soberania. Os recursos minerais pertencem à União e sua exploração continua sujeita às normas brasileiras, à atuação da ANM e ao licenciamento ambiental. O principal desafio apontado está em fazer com que o Brasil avance além da simples extração, dominando etapas de maior valor agregado, como separação, refino e fabricação de ligas e ímãs.
Essa preocupação também aparece na política pública. O Ministério de Minas e Energia iniciou em 2026 estudos para uma Estratégia Nacional de Terras Raras, com objetivo declarado de estruturar a cadeia produtiva brasileira, estimular inovação e integrar mineração, indústria e transição energética. O governo também acompanha projetos de desenvolvimento de tecnologia nacional para fabricação de ímãs permanentes, uma das etapas mais estratégicas da cadeia.
A expansão da mineração também exige atenção ambiental. Segundo a investigação da Repórter Brasil e da AP, 25% dos requerimentos analisados estão sobrepostos a unidades de conservação ou comunidades tradicionais, ou localizados a até dez quilômetros desses territórios. O levantamento aponta que até 283 áreas protegidas podem estar relacionadas às zonas de interesse mineral. Especialistas alertam que projetos dessa natureza precisam avaliar cuidadosamente riscos de contaminação da água, produção de rejeitos, desmatamento e presença de elementos radioativos associados a determinados depósitos. Esses impactos, porém, dependem das características de cada jazida, do método de exploração e das medidas de controle ambiental adotadas.
Com uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta, o desafio brasileiro passa, portanto, não apenas por retirar minerais do solo, mas por transformá-los em tecnologia e produtos de maior valor dentro do próprio país. Sem indústria, pesquisa e domínio das etapas posteriores da cadeia, cresce o risco de o Brasil ocupar principalmente a posição de fornecedor de matéria-prima, enquanto processamento, tecnologia e parcela significativa do valor econômico permanecem no exterior.




