A taxa de fecundidade global pode ter caído, pela primeira vez, para um nível inferior ao necessário para a reposição da população no longo prazo, segundo um novo estudo dos pesquisadores Jesús Fernández-Villaverde, da Universidade da Pensilvânia, e Patrick Norrick, da Universidade Northwestern. O trabalho, intitulado Terra Incognita: The Economics of a Shrinking World, analisa tendências demográficas de 236 países e territórios desde 1950 e sustenta que, em 2026, a humanidade provavelmente já se encontra abaixo do chamado nível de reposição.
O indicador analisado é a taxa de fecundidade total, que representa o número médio de filhos por mulher, e não simplesmente a quantidade anual de nascimentos. Os pesquisadores trabalham com um nível de reposição próximo de 2,2 filhos por mulher e destacam que a queda vem ocorrendo em sociedades com características econômicas, culturais e políticas bastante diferentes. Países como Coreia do Sul, China, Tailândia, Colômbia e Chile aparecem entre os exemplos de locais onde a fecundidade atingiu patamares historicamente baixos.
A tendência também não estaria restrita às economias mais desenvolvidas. Segundo os autores, reduções expressivas passaram a ser registradas em países de renda baixa e média, o que desafia a interpretação tradicional de que níveis muito baixos de fecundidade seriam predominantemente um fenômeno das nações mais ricas. O estudo aponta ainda que fatores econômicos, transformações sociais, mudanças nas estruturas familiares e o adiamento da maternidade podem participar desse processo, embora os próprios pesquisadores ressaltem que não existe uma explicação única e definitiva para o fenômeno.
Caso o cenário apresentado pelos pesquisadores se confirme, a população mundial poderia atingir um pico de aproximadamente 9 bilhões de habitantes por volta de 2056 e começar a diminuir posteriormente. A estimativa, porém, deve ser tratada como projeção, e não como certeza. Ela difere significativamente do cenário central da Organização das Nações Unidas, que projeta um pico de aproximadamente 10,3 bilhões de pessoas em meados da década de 2080.
Outros estudos já vinham identificando a rápida redução da fecundidade. Pesquisa publicada na revista científica The Lancet, com dados do Global Burden of Disease, calculou que a taxa global caiu de cerca de 4,84 filhos por mulher em 1950 para 2,23 em 2021, com possibilidade de continuar diminuindo ao longo deste século. As diferentes projeções mostram que o ritmo futuro ainda envolve incertezas, mas há consenso crescente de que o envelhecimento populacional e a redução da fecundidade deverão provocar mudanças importantes nos mercados de trabalho, sistemas previdenciários, políticas públicas e estruturas econômicas nas próximas décadas.




