O Brasil vive uma das maiores transformações demográficas de sua história e pode enfrentar sérios desafios para garantir qualidade de vida à população idosa nas próximas décadas. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que o país ainda não está preparado para atender adequadamente às necessidades de uma população que envelhece em ritmo acelerado.
Atualmente, cerca de 35 milhões de brasileiros possuem mais de 60 anos. Segundo as projeções analisadas pela pesquisa, esse contingente deverá dobrar nos próximos 25 anos, ampliando a demanda por serviços de saúde, assistência social, mobilidade urbana e políticas públicas voltadas ao envelhecimento.
Doenças crônicas preocupam especialistas
Entre os principais problemas identificados pelo levantamento está a alta incidência de doenças crônicas entre os idosos. A hipertensão arterial aparece como uma das condições mais frequentes, afetando aproximadamente três em cada dez pessoas com mais de 60 anos.
Embora muitos pacientes recebam acompanhamento médico, especialistas alertam que o controle inadequado da pressão arterial aumenta significativamente os riscos de complicações graves, como infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e demência vascular.
A epidemiologista Maria Fernanda Costa, coordenadora do estudo, destaca que o tratamento precisa ser mais eficiente para evitar consequências que comprometem a autonomia e a qualidade de vida da população idosa.
Cidades ainda apresentam barreiras para os idosos
A pesquisa também avaliou as condições urbanas oferecidas aos idosos e identificou problemas importantes relacionados à acessibilidade.
Mais de 42% dos entrevistados afirmaram sentir medo de sofrer quedas ao caminhar pelas ruas e calçadas das cidades brasileiras. A preocupação é considerada legítima pelos especialistas, já que acidentes desse tipo representam uma das principais causas de perda de independência entre pessoas idosas.
Calçadas irregulares, falta de rampas, sinalização inadequada e dificuldades de mobilidade estão entre os fatores que contribuem para a sensação de insegurança.
Milhões dependem de ajuda para tarefas básicas
Outro dado que chama atenção é o número de idosos que necessitam de auxílio para realizar atividades cotidianas.
Segundo o estudo, cerca de 20% da população idosa brasileira apresenta algum grau de limitação funcional para tarefas simples como tomar banho, vestir-se, alimentar-se ou se locomover dentro de casa.
Esse percentual representa aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros que dependem de algum tipo de suporte. Apesar da elevada demanda, menos de 40% recebem assistência considerada adequada.
O cenário reforça a necessidade de expansão das políticas públicas voltadas ao cuidado de longo prazo, além do fortalecimento das redes familiares e comunitárias.
Cultura do cuidado será um dos maiores desafios do país
Para especialistas em longevidade, o principal desafio do Brasil não será apenas viver mais, mas garantir que as pessoas envelheçam com dignidade, segurança e qualidade de vida.
O presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil, Alexandre Kalache, defende a criação de uma cultura nacional do cuidado, capaz de oferecer proteção e suporte aos idosos diante das mudanças demográficas em curso.
Segundo ele, o aumento da expectativa de vida representa uma importante conquista social, mas exige planejamento e investimentos contínuos para evitar impactos negativos na saúde pública e na assistência social.
Cuidadores terão papel cada vez mais estratégico
Com o envelhecimento acelerado da população, profissionais que atuam no cuidado de idosos ganham importância crescente dentro da sociedade brasileira.
Em instituições de acolhimento e centros especializados, milhares de idosos dependem diariamente do trabalho de cuidadores para atividades básicas e acompanhamento permanente.
Especialistas defendem que o país amplie a formação de profissionais da área, fortaleça programas de assistência e desenvolva políticas públicas capazes de atender a uma população que envelhece rapidamente.
As projeções indicam que o envelhecimento da população será um dos principais desafios sociais, econômicos e sanitários do Brasil nas próximas décadas.
A ampliação da assistência aos idosos, investimentos em saúde preventiva, adaptação das cidades e fortalecimento das redes de cuidado deverão estar entre as prioridades dos gestores públicos para evitar que o avanço da longevidade seja acompanhado por um aumento das vulnerabilidades sociais.
O debate sobre envelhecimento deixou de ser uma questão do futuro. Ele já faz parte do presente e exigirá respostas cada vez mais rápidas da sociedade e dos governos.